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Projeto habilita jovens com método musical de matriz africana

 

Roberto Aguiar* Qua , 09/08/2017 às 08:00

  

A flautista Catarina Siqueira, 16 anos, é uma das alunas do projeto Rumpilezzinho. Mila Cordeiro | Ag. A TARDE | 02.08.2017

 

Há uma mina de diamantes localizada na casa de número 14, na Ladeira de São Miguel, no Pelourinho. São cristais de primeira grandeza, não extraídos do subsolo terrestre, mas de instrumentos sonoros manuseados por talentosos jovens. O maestro Letieres Leite é o lapidário que ajuda a garotada do Laboratório Musical Rumpilezzinho a desnudar a beleza e o brilho que tem por trás de uma simples nota musical.

O projeto busca habilitar jovens instrumentistas em uma nova ferramenta de observação e produção musical. “É um curso voltado a jovens sob uma perspectiva transversal da música afro-baiana e afro-brasileira. Achamos que não podemos estudar apenas o modelo da escola tradicional. Não abrimos mão dos códigos, da literatura e dos conteúdos da música europeia. Contudo, adicionamos os princípios programáticos e metodológicos da música de matriz africana”, explicou Letieres Leite.

A desconstrução do modelo da escola tradicional vai para além do método pedagógico. Está na organização dos músicos no palco em forma de círculo – herdada da cultura banta, etnia da maioria dos negros africanos escravizados no Brasil –, na postura do maestro que rege a orquestra sem o uso da batuta e dança pelo meio da roda, ginga seu corpo e com as mãos em movimentos sincroniza o som de múltiplos instrumentos.

O pensamento circular, a força da oralidade e troca de experiências são tão fortes que, até mesmo para chamar a atenção dos alunos que esqueceram o caderno de anotações, o professor ressalta a dureza em transformar pedras brutas em joias em tom de conversa, em lição de vida.

“É preciso disciplina. Sem disciplina não chegamos a nenhum lugar. Se hoje eu cheguei até aqui é porque ralei bastante. Aqueles três prêmios ali (aponta para os troféus que a Orquestra Rumpilezz conquistou na 28ª edição do Prêmio da Música Brasileira) foram vitórias com muito esforço e muita disciplina. E não foi uma vitória minha, que fiz as composições das músicas, mas de toda a orquestra, toda uma equipe, sem eles nada existiria. Trazer o caderno de anotações é parte da nossa disciplina e do nosso aprendizado”, reforçou.

Mulheres

Assim como nas minas de diamantes, o machismo está presente no meio musical. Enfrentar esse problema é também um dos desafios do Laboratório Musical Rumpilezzinho. Como parte dessa luta, 40% das vagas do projeto são destinadas às mulheres.

“O espaço da música é um ambiente muito machista, fechado para as mulheres. A aceitação das mulheres em algumas funções é uma situação séria. Tem uma desconfiança e um descrédito com as mulheres executando alguns instrumentos”, afirma o maestro.

“É fora de sentido não ter mulheres na bateria, no baixo, nos sopros. Há uma carência grande da força feminina nos instrumentos tradicionalmente executados por homens. Realizamos o Rumpilezz de Saia, que reuniu em torno de 40 alunas. Vimos a potencialidade dessa ideia e trouxemos essa concepção para dentro do Rumpillezinho desde o seu início”, completa.

A aluna Catarina Siqueira, 16 anos, defende a importância das cotas para as mulheres. “Quase não vemos mulheres tocando instrumento de percussão e metais, são instrumentados predominantemente ocupados por homens. As cotas ajudam a quebrar essa barreira, pois as mulheres podem tocar esses instrumentos e o Rumpellezinho mostra isso. Somos capazes de executar qualquer instrumento, basta ter incentivo”, destacou a flautista.

O projeto

O Laboratório Musical Rumpilezzinho nasceu em 2004 na Academia de Música da Bahia (Ambah), mas não seguiu adiante devido à falta de recursos financeiros. O projeto foi retomado em 2013 após ser contemplado com o edital Natura Musical. Hoje é mantido com financiamento da empresa Vivo e do governo estadual, através do programa FazCultura.

O curso, destinado a jovens entre 15 a 25 anos, é gratuito, tem duração de nove meses, com uma aula semanal de três horas de duração, na qual os alunos recebem simultaneamente conhecimentos sobre os princípios instrumentais da música brasileira, através da oralidade, relacionados à história e à cultura negra de matriz africana, além de filosofia e de escrita musical.

“Nunca tinha passado por uma escola de música antes do projeto Rumpellizinho. A minha vida mudou. O método de ensino conecta a música com a história, esse é o diferencial. Sem falar da energia positiva que existe aqui”, comentou o jovem baixista Alexandre Guena, 22 anos.

Nas tardes das segundas, quartas e quintas-feiras os sons musicais ecoam no antigo casarão do Pelourinho. Os jovens instrumentistas, orientados por Letieres Leite, entram em ação. No final de cada aula uma nova música é composta, um novo diamante surge.

*Sob Supervisão do editor–coordenador marcos casé

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://www.atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1884365-projeto-habilita-jovens-com-metodo-musical-de-matriz-africana

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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