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Festival de Comida de Santo

Vilson Caetano | Antropólogo vilsonjr@uol.com.br

Qui, 27/11/2014 às 08:41 | Atualizado em: 27/11/2014 às 09:53

 

 

Fernando Amorim | Ag. A TARDE Vilson Caetano
Fernando Amorim | Ag. A TARDE
Vilson Caetano

 

Embora a expressão possa causar estranhamento, ela vem crescendo cada vez mais dentro do universo gastronômico. A cidade de Recife, por exemplo, foi uma das pioneiras deste Festival que hoje já deve estar na sua terceira edição. No entendimento dos organizadores, a função do festival é incentivar os chefes dos principais restaurantes da cidade a criar releituras das comidas rituais.

Em cidades como Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro,  restaurantes de renomados chefes incluem no seu menu: banquete de ibeji, banquete das iabás e outras comidas antes apenas degustadas em dias de festas nos terreiros de candomblé porque não resistiram ao comércio das ruas, como o efó, o aberém, a farofa de ekuru, o acaçá, doces como a cocada puxa e bebidas como o aluá ou aruá. Iguarias afro-brasileiras, que não obstante o refinado gosto sugerido pela chamada “alta gastronomia”, quando surgem nos cardápios tornam-se logo comidas bastante concorridas, verdadeiros friandise, deleite, no sentido pleno de tal palavra.

Antes de entrarmos no velho debate sobre as comidas rituais (comida de santo, comida de obrigação, comida de orixá, comida sacralizada, comida de preceito, ou simplesmente dieta sacrificial dos terreiros de candomblé, que é o nome como os “de comer” oferecidos aos ancestrais nas religiões de matriz africana são chamados) e a  cozinha afro-brasileira, sobre  qual precedeu a outra, é digno de nota observar que os santos comem o que os homens comem, porém os primeiros recebem comidas mais elaboradas conforme  sempre me chamava a atenção o velho mestre  Vivaldo da Costa Lima.

A partir desta ideia, venho acalmando aqueles  que têm reagido de forma contundente  a estas releituras, bem como alguns chefes que no seu breve contato com a cozinha ritual, fascinados pelo universo revelado pelas comidas de santo, buscam incorporar  técnicas e preceitos específicos da cozinha ritual.

Certa ocasião, fui interrogado por alguém que queria introduzir no seu cardápio o banquete de Nanã,  mas imaginava ter que abrir mão dos utensílios de metais, uma vez que leu que tal orixá tem a preferência pelos objetos de madeira. Na ocasião, eu sorri e lhe expliquei: Você não precisa fazer a comida do orixá Nanã, até porque não é preparado para isso, mas você pode inspirar-se na cozinha ritual deste orixá e produzir pratos incríveis.

Este diálogo com a gastronomia me tem feito muito bem e confesso que passei a observar também que cozinhar no vapor, flambar, saltear, branquear e  outras técnicas sempre estiveram  presentes na cozinha dos orixás, sem falar naqueles que são verdadeiros gourmets.

Se for verdade que “os santos comem o que os homens comem, porém com mais cuidado e requinte”, essa comida sagrada pode continuar inspirando outras comidas para os homens. O mergulho nos “de comer dos santos”  permitirá produzir comidas mais saborosas e cheias de histórias.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador-BA
http://atarde.uol.com.br/gastronomia/noticias/1642153-festival-de-comida-de-santo-premium

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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