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A África que mora na (nova) música brasileira

Bem Viver Blog
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  27/05/2016 às 14:17 - Atualizado em 27/05/2016 às 14:31
Trio Metá Metá acaba de lançar novo álbum (foto: blog Tudo o que você vê)
Trio Metá Metá acaba de lançar novo álbum (foto: blog Tudo o que você vê)
por Rosiel Mendonça Em “Yá Yá Massemba”, gravada por Maria Bethânia no disco “Brasileirinho” (2004), os compositores Roberto Mendes e Capinam contam que o batuque das ondas, ouvido de dentro dos porões dos navios negreiros, também ensinou o africano escravizado a cantar. Espoliados e sem direito ao próprio corpo, os escravos que desembarcaram nos portos do Brasil trouxeram consigo uma forte bagagem imaterial, presente nas tradições culturais e religiosas que mais tarde se tornaram parte da nossa identidade e imaginário. E assim a África também pôde resistir e florescer do outro lado do Atlântico em manifestações da música, da dança, da culinária e outras mais. Levando em conta o repertório musical produzido de um século para cá, apesar de todas as tentativas de “desmacumbização”, muitos artistas, negros ou não, ajudaram a valorizar e difundir essa herança africana. Só para citar alguns (e já sendo injusto): Clementina de Jesus, a voz imortal de “Marinheiro só”, Baden Powell e Vinicius de Moraes com seus afro-sambas, a mineira guerreira Clara Nunes, Noriel Vilela, etc. Mas a nova música brasileira também dá mostras de uma africanidade que segue inspirando letras e melodias. São cantores e grupos que rendem seu tributo à nossa ancestralidade negra em temas ou arranjos, uns mais próximos de uma tradição do folclore, outros flertando com o eletrônico e o experimental, mas tendo em comum a potência do ritmo, do sotaque e da dança de além-mar. Segue uma listinha para quem quiser explorar mais esses sons: Metá Metá Metá Metá é uma pancada sonora. Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França embarcam num “afropunk” que viaja pelas diversas culturas negras. É uma mistura de metaleira com afrobeat e batuques. Escolhi abrir a lista com esse trio de São Paulo porque eles acabam de liberar paradownload o novo álbum da banda, “MM3”, gravado ao longo de três dias no estúdio Red Bull. Nesse trabalho, eles aprofundam ainda mais a busca por um som polifônico, ora sujo, ora experimental. Kiko Dinucci, aliás, está envolvido em alguns dos projetos mais quentes da atual safra da música brasileira, como o novo disco de Elza Soares, “A mulher do fim do mundo”. Abayomy Abayomy significa “encontro” em Iorubá, e é justamente no encontro entre a música africana e a brasileira que reside o ponto forte de “Abra sua cabeça”, álbum recém-lançado por essa “afrobeat orquestra”. Os músicos admitem que esse trabalho nasceu carregado das influências colhidas no show que realizaram em homenagem ao maestro Abigail Moura, fundador da Orquestra Afro-Brasileira, que colocava no mesmo palco instrumentos da tradição ocidental, como o sax e a clarineta, e instrumentos afro-brasileiros, como o agogô e o berimbau. Destaque para as participações da cantora Céu, de Jorge Du Peixe (Nação Zumbi) e do baterista nigeriano Tony Allen. Baianasystem Com vocês, Baianasystem: “De dentro das frestas da selva de concreto e aço, brotam novas raízes, de uma espécie soteropolitana ainda não estudada”. O grupo que chamou a atenção no Carnaval de Salvador deste ano já marcou território como um dos projetos sonoros mais instigantes dos últimos anos. Os quatros cabeças da banda são: SekoBass,responsável pela maioria das programações eletrônicas; Russo Passapusso, que injetou uma mistura do toaster jamaicano com o samba do Recôncavo baiano nas composições; Roberto Barreto, representante das tradições da guitarra baiana de Dodô & Osmar; e Filipe Cartaxo, mentor da identidade audiovisual e estética que a banda apresenta nas redes e nos shows. O segundo álbum deles está disponível completinho no Youtube. Afroelectro Formada em 2009, essa banda paulista forjou sua marca sonora ao revisitar o continente africano a partir do contato com artistas e com a produção contemporânea de lá. Nas músicas do grupo, que dialoga com o novo e as tradições, entram em evidência os cantos da cultura popular de diferentes regiões do País, assim como o cancioneiro da capoeira e do candomblé, em contraste com referências do hip hop e até do rock. Maga Bo Bo Anderson é um DJ, produtor, engenheiro de som e etnomusicólogo nascido nos Estados Unidos, mas radicado há muitos anos no Rio de Janeiro . Em 2012, ele lançou o projeto “Quilombo do futuro”, que faz uma viagem na fusão entre os ritmos afro-brasileiros e a cultura do sound system jamaicano: coco, maculelê, samba, jongo e capoeira encontra ragga e dub, hip hop e kuduro, grime e dubstep. Para isso, Maga Bo convidou um time altamente gabaritado, formado por BNegão, Rosângela Macedo, Russo Passapusso, entre outros. Ellen Oléria No recém-lançado “Afrofuturista”, a cantora combina samba, forró, carimbó, afoxé e maracatu, com timbres e arranjos contemporâneos que apontam para um encontro urbano de identidades. “O afrofuturismo explora um novo futuro para a raça negra, focando produções já presentes no imaginário negro no grafite, na arte gráfica, na música, principalmente eletrônica. Mas não é essa música eletrônica como produto que me interessa, mas sim como poderemos utilizar os recursos tecnológicos de produção de som sem abandonar os elementos mais orgânicos da nossa música tradicional”, explica Ellen. Mariene de Castro A cantora baiana, apadrinhada por Beth Carvalho e Zeca Pagodinho, não apareceu ontem, mas ainda é um talento a ser descoberto. A cultura e os ritmos populares, assim como o samba de roda, fazem parte da sua formação como artista e está longe de parecer caricatural no palco. Em 2013, Mariene fez um show em tributo a Clara Nunes, que morrera 30 anos antes. “Acredito que o samba do Rio e da Bahia são irmãos. É muito bom quando eles se encontram”, diz. Rita Benneditto Rita Benneditto, ex-Rita Ribeiro, vem do Maranhão. A popularidade dele despontou com o projeto “Tecnomacumba”, que nasceu em apresentações em uma casa na Zona Sul carioca e virou um fenômeno independente. Rita Benneditto fez diversas temporadas de grande sucesso e levou o espetáculo para as maiores casas de show do país, incluindo uma passagem por Manaus, em 2011, quando se apresentou no Largo São Sebastião. “’Tecnomacumba’ resgata o sentido amplo da música e revela que a MPB deve muito às religiões afro-brasileiras”, afirma. Serenô Samba, batuque e mitologia afro-brasileira direto de Curitiba! O primeiro disco saiu em 2011 e traz 12 músicas autorais, muitas delas testadas durante anos no “Baile do Serenô”, que o grupo realiza na Sociedade Treze de Maio. Esse álbum conta com as presenças de parceiros de longa data, como Kiko Dinucci (SP), Érico Viensci(PR) e Renato Muller(RS). “Saudação ao Sereno”, por exemplo, foi trilha do seriado “As Brasileiras”, da Rede Globo. Bixiga 70 Responsável pelos arranjos de naipe de algumas faixas do novo disco de Elza Soares, essa big band incorpora o afrobeat, latinha e jazz à música brasileira. Formada em 2010, o nome Bixiga 70 está ligado ao endereço do Estúdio Traquitana, onde a banda nasceu, localizado no número 70 da rua Treze de Maio, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Além da influência da música das religiões afro-brasileiras, da música malinke, do músico e ativista político nigeriano Fela Kuti e do etíope Mulatu Astatke, a banda também tem influência de brasileiros como Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Hermeto Pascoal, Itamar Assumpção e Chico Science. Casa de Caba Para fechar a lista, fiquem com a fusão musical feita por esses amazonenses, que já são sensação na noite de Manaus por sua levada malemolente e letras inteligentes. Atualmente, a banda participa do circuito Sesc Amazônia das Artes e tem shows marcados em várias capitais da região.     Extraído do Blog Bem Viver, do Jornal A Crítica / Manaus – AM http://www.acritica.com/blogs/bem-viver-blog/posts/a-africanidade-que-faz-morada-na-musica-brasileira

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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