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“A agudá é uma entidade complexa”

Cleidiana Ramos |  Seg, 01/06/2015 às 15:42 | Atualizado em: 02/06/2015 às 10:32

 

 

 

Fernando Vivas | Ag. A TARDE Parés explica que a Revolta dos Malês é considerada o marco para o retorno de africanos libertos
Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Parés explica que a Revolta dos Malês é considerada o marco para o retorno de africanos libertos

 

Quando escreveu A formação do candomblé – história e ritual da nação jeje na Bahia,  a partir de uma extensa pesquisa sobre a influência dos povos da região onde hoje está o Benim para  a constituição do candomblé baiano, Nicolau Parés, 55,  encontrou o caminho para um novo desafio. Doutor em antropologia e professor da Ufba, ao lado dos colegas pesquisadores Lisa Earl Castillo e Elisée Soumonni, ele se dedica agora a descobrir detalhes da ligação entre Salvador e  famílias que estão em Agoué,  cidade localizada entre o Benim e o Togo. Da capital baiana partiram  homens e mulheres que deram origem a uma comunidade dos  chamados agudás. O  termo é usado para designar os descendentes de um grupo formado em países como Benim, Nigéria e Togo  em torno do fluxo pelo Atlântico, principalmente mercantil, durante o século 19, em cidades do litoral. O estudo tem demonstrando relações complexas, afinal alguns eram comerciantes, brancos ou mestiços, e  outros eram africanos que haviam passado pela experiência da escravidão no Brasil.  Há outras  conexões, inclusive religiosas, que ensinam lições importantes sobre como é possível  conviver, sem muitas tensões, em meio às diferenças.

O senhor está  em um projeto sobre os agudás, ou  retornados, a partir da Bahia para a cidade de    Agoué, no Benim. Como começou esta pesquisa?
O projeto se chama Famílias atlânticas: redes de sociabilidade entre Bahia e Benim, século XIX e conta  com a participação de Lisa Earl Castillo e do historiador beninense Elisée Soumonni. Temos apoio do CNPq e da Fondation pour le Patrimonine Afro-Brésilien au Bénin.  No meu caso, a pesquisa está relacionada ao meu estudo anterior, que resultou no livro   A Formação do Candomblé –  história e ritual da nação jeje na Bahia. Isso porque um dos aspectos desse estudo enfoca as irmandades que tinham africanos como membros. Na Igreja do Corpo Santo, na Cidade Baixa, funcionava a de Nosso Senhor Bom Jesus da  Redenção. Pierre Verger já havia contado a história de um desses africanos, Joaquim de Almeida.  Ele chegou escravizado,  mas se libertou,   prosperou e voltou para a Costa da África, onde fundou, em   Agoué,  a capela de Nosso Senhor Bom Jesus da Redenção, que em 1845 estava concluída.   Durante um curso que o professor  Elisée Soumonni ministrou, no Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba (Ceao), em 2009, conversamos e, a convite dele, fui  fazer  palestras no Benim, Togo e Gana, uma delas em Agoué, na casa dos descendentes de Joaquim de Almeida,  e  o projeto ganhou  forma.

Qual é a localização de Agoué? Ela tem marcas visíveis da Bahia?
A cidade de Agoué  fica localizada na fronteira entre o Benim e o Togo. Os  historiadores apontam que foi fundada no início  de 1820. Atualmente,  tem 15 mil habitantes. É uma cidade   com vários  prédios que lembram os sobrados  da Bahia.

As histórias desses retornados têm várias conexões, não é? Quais são elas?
Sim.  Em  documentos que pesquisei, descobri que, em 1855,  Joaquim de Almeida realizou o batismo coletivo de mais de 220 pessoas.  Nesse batismo, além das famílias católicas, havia membros de outras,  islâmicas, que também participaram, batizando seus filhos e  como padrinhos.  É   a religiosidade luso-tropical dos agudás, sobre a qual fala o professor beninense Olabiyi Babalola Yai. É esta religiosidade luso-tropical que permite a coexistência do culto aos voduns (divindades cultuadas no candomblé originado da região  do Benim) com o catolicismo e o islã,  sem muitas   tensões. Essa prática religiosa – plural e tolerante – é   um dos aspectos para se  refletir, sobretudo   quando tanto se fala sobre intolerância religiosa.

O que  a palavra agudá significa?
Existem várias hipóteses sobre isso. O primeiro uso que encontrei registrado é do século 18, aqui no Brasil. É um dicionário escrito por um português chamado Antônio da Costa Peixoto.  Foi publicado em 1741, e o verbete agudá já aparece com o significado de “gente da Bahia”. Era provavelmente usado pelos africanos para se referir aos traficantes portugueses e brasileiros. No Benim, a palavra só aparece registrada no fim do século 19 e, mais uma vez, associada aos portugueses. Mas há quem fale que vem de “Ajuda”, em relação ao forte português de São João Baptista de Ajudá, na cidade de Uidá (cidade no litoral do Benim); outra  versão surgida na Nigéria diz que agudá vem de “algodão”.

Quais as características  desse grupo?
Os  agudás formam um grupo social heterogêneo que envolve os descendentes dos comerciantes portugueses e brasileiros que traficavam na Costa da Mina e que nunca foram escravos, assim como seus agregados e dependentes. A estes juntaram-se os africanos libertos que vieram da Bahia, muitos deles vítimas do clima de repressão antiafricana que se instaurou após a Revolta dos Malês, em 1835.  Apesar da  sua diversidade étnico-racial, os agudás acabaram por constituir uma comunidade diferenciada, que alguns chamam de “diáspora mercantil”.

A Revolta dos Malês  foi fundamental para esse retorno?
Sim. Ela é considerada o  marco principal para o retorno massivo de africanos libertos. Entre eles, temos o caso de Iyá Nassô e José Pedro Autran.  Com dois  filhos  condenados à prisão, acusados de participar na revolta,  ela pediu que a pena fosse comutada pela deportação.

Iyá Nassô é  indicada como fundadora da Casa Branca. Em um texto assinado por  Lisa Earl Castillo e o senhor,  ela é identificada como Francisca da Silva.
Sim. Iyá Nassô seria o título da sacerdotisa do orixá Xangô do rei ou alafin de Oyó ( cidade e grande reino africano, onde o culto de Xangô era central).  Francisca da Silva seria o “nome de branco” com que ela foi batizada no Brasil.  O mérito da pesquisa documental é de  Lisa Castillo. Minha contribuição foi ajudar na parte interpretativa dos dados e na escrita. João Reis havia identificado o documento em que ela pede a comutação da pena dos filhos, mas não havia feito a conexão com Iyá Nassô. O que chamou nossa atenção foi o testamento de Marcelina da Silva,  tida como sucessora de Iyá Nassô na Casa Branca. Ela citava Francisca da Silva e seu marido, José Pedro Autran, como seus ex-senhores. Lisa achou os registros de passaporte para a Costa da África de Francisca da Silva e sua liberta, Marcelina da Silva. Ao fazer o cruzamento desses dados documentais com a tradição oral sobre uma viagem de Marcelina da Silva  à  África, ao lado de Iyá Nassô,  confirmamos que a viagem aconteceu em 1837.

Para onde eles foram?
A  tradição oral fala no reino de Ketu (na fronteira do atual Benim com a Nigéria) como possibilidade. Mas não sabemos  precisamente onde desembarcaram. De Iyá Nassô perdemos o rastro. Marcelina da Silva voltou ao Brasil dois anos depois. José Pedro Autran, marido de Iyá Nassô, em 1841,  estava em Uidá (um dos principais centros do comércio de escravos da África Ocidental), conforme atestam  cartas enviadas para ele  da Bahia. Em alguns livros de história sobre as famílias de Uidá,  ele é apontado como o fundador da família Villaça, que ainda hoje está lá.

Essa família tem dados sobre ele?
Sim. O chefe dessa família  era um padre católico, Teófilo Villaça; o encontramos em 2012, quando ele tinha mais de 80 anos –  faleceu no ano passado. O padre Villaça nos mostrou, no cemitério familiar, o túmulo de José  Pedro Autran, mas ele não lembrava de Iyá Nassô ou  de Francisca da Silva. O padre confirmou que, em tempos passados, na casa da família, existia um templo de Xangô. Numa viagem realizada em 2014, conseguimos   confirmar que algumas pessoas tomavam conta do assentamento (altar)  de Xangô, que persistiu no local.

Os  retornados  voltavam então  para a sua terra de origem?    
Não necessariamente.   Joaquim de Almeida, por exemplo, foi para Agoué, mas era mahi (território africano), portanto de uma região distante, no interior do atual Benim.

A pesquisa faz com que oralidade e registro documental finalmente dialoguem.
É um caminho metodológico  interessante. Quando começamos a pesquisar sobre Iyá Nassô e Marcelina da Silva, estávamos centrados na história do candomblé da Bahia, mas  partes desse estudo  nos levaram a expandir a metodologia para o Benim.   A agudá é uma    identidade  complexa. Há os que descendem da  aristocracia comercial e outros, de escravizados, portanto, no grupo,  há  tensões internas.  Como pesquisadores da área de história e antropologia, não escondemos informações, mas estamos atentos à responsabilidade de confrontar a memória das famílias com o que emerge dos documentos e que pode causar incômodo.    Temos que ter delicadeza em relação a alguns temas.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1685486-a-aguda-e-uma-entidade-complexa

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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