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A arte dos pés


Helena Theodoro | 23/02/2015 08h36

 

Terminou o carnaval e em nossas mentes ficam cores, movimentos, cantos e uma visão bem diversificada da dança do samba. Incrível as diferentes nuances que toma, seja em ala, com os passistas, com mestre-sala e porta-bandeira, em blocos afro ou blocos de embalo. No entanto, o carnaval nos traz a dança afro que aqui adquiriu diferentes formas, variando segundo as nações africanas que contribuiram para a formação do povo negro, de acordo com o ritmo e características dos orixás e segundo as recriações feitas no interior de uma sociedade pluricultural e pluriétnica como a brasileira.

Uma mulher, porém, foi responsável pela valorização da dança negra,criando o que se chama no Brasil “dança afro”, que conjuga o samba de roda, o maculelê, o jongo, o caxambu, o frevo, a capoeira, etc, com a estilização da dança dos orixás. Seu nome é Mercedes Baptista. Mercedes foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e inventou uma coreografia de base africana, como conta:
“eu inventei, ouvindo o ritmo dos orixás e os movimentos do can domblé que eu mal frequentava, mas passei a pesquisar. Isso foi em 1948.”

A importância da dança afro como construtora e mantenedora de uma identidade cultural no Brasil foi tema da tese de mestrado do Prof. Edilson Fernandes de Souza(1995) onde após várias pesquisas e análise de histórias de vida, situou a importância da dança afro-brasileira na educação, analisando o corpo como um conjunto de práticas pautadas na visão de mundo da cultura negra, que se contrapõe à sociedade européia, estabelecendo assim, outras formas do homem se relacionar com o meio ambiente, de lidar com a realidade, segundo suas crenças, ritos , fantasias e emoções.

Souza(1995) prova como a dança afro está sendo procurada no Rio de Janeiro, onde milhares de pessoas a praticam regularmente, havendo ainda variadas formas de classificação para a dança afro:
– afro primitiva – somente com movimentos de inspiração africana
– afro contemporâneo – incorpora elementos de dança contempo rânea com a dança afro.

Importante, no entanto, é situar como Mercedes Baptista abriu um espaço para , através da dança, afirmar uma realidade negada, mostrar as possibilidades do corpo negro como um território livre e consciente de suas chances de sobrevida e de participação efetiva na sociedade que o rejeita, bem como a criatividade de um grupo que acredita no que faz , não aceitando mais ser objeto da história, mas sim SUJEITO , consciente de sua historicidade e de sua necessidade de participar no contexto coletivo.

Ao tratar da dança do samba em seu livro A Dança do samba: o exercício do prazer, José Carlos Rego(1994) situa como mais de quinhentas danças que semeiam o Brasil de norte a sul, são originárias das três fontes que formaram o nosso povo:
a indígena – com a coreografia dos caboclinhos e dos cacumbis
a européia – através do pezinho, tiranas ou schottish
a africana – que não dá para enumerar, dada a variação e criativi dade de seus usuários.

Comenta, ainda, como os pés de dança, ligados ao samba carioca, fossem homens ou mulheres, eram todos provenientes de comunidades-terreiro, afirmando mesmo que a bateria da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel foi constituida de ogãs provenientes do terreiro de Tia Chica, localizado na rua General Jacques Ouriques 470, e que a celebridade e brilho da bateria se deve exatamente a tal fato, sendo que era comum dizer-se: “A Mocidade era a bateria que tinha uma escola de samba.” Tal fato é mesmo verdadeiro, já que no carnaval de 1990, com o enredo sobre a escola (Vira, virou, a Mocidade chegou), Padre Miguel dedicou um de seus mais demonstrativos carros alegóricos a Tia Chica(Francisca Ferreira dos Santos).

Muitos os destaques femininos no campo da dança, aspecto bastante explorado pela midia, em função da liberdade e sexualidade no uso do corpo, algo absolutamente inédito no mundo ocidental, que permitiu a divulgação de grandes passistas e bailarinas, mas nunca as situaram como guerreiras lutando pela afirmação de uma cultura, de uma identidade e de uma maneira mais feliz e humana de conviver com os outros e consigo mesmas! Cabe aqui destacar as grandes porta-bandeiras que iluminam o palco da dança brasileira e se revelam como grandes estrelas: Selminha Sorriso, Lucinha Nobre, Marcela Alves do Salgueiro, Squel da Mangueira,Rute da Unidos da Tijuca, sem falar em Vilma Nascimento e Dodô da Portela, Maria Helena da Imperatriz Leopoldinense ou Rita do Salgueiro, que deslumbraram a todos que as assistiram em sua época de glórias!

Cabe lembrar ainda, de grandes mestre-salas, como Ronaldinho do Salgueiro, o nosso querido Reinaldo Teixeira, que tão cedo nos deixou e que bailava como um pássaro, sempre cortejando e protegendo sua porta-bandeira, homenageado neste carnaval pela dança de Marcela e Sidclei do Salgueiro, que reproduziram passos característicos deste grande bailarino e que, não tiveram o devido reconhecimento dos jurados pelo trabalho apresentado.

A dança do mestre-sala e da porta-bandeira não representa apenas a afirmação pessoal de uma cultura, mas o reconhecimento coletivo de valores, padrões culturais e maneira de ser de toda uma comunidade que se orgulha do que é e se afirma por suas cores, seu canto e sua dança. Termina o carnaval, mas o orgulho da comunidade se mantém e se revela através da arte de seus pés.

 

Helena Theodoro

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* Os textos desta seção não representam necessariamente a opinião deste veículo e são de responsabilidade exclusiva de seu autor.CARNAVAL. Carioca, escritora, doutora em Filosofia, mestre em Educação, pesquisadora de cultura afro-brasileira, coordenadora do curso de Pós-graduação de Figurino e Carnaval da UVA.

 

Extraído da Coluna de Helena Theodoro no Blog do Jornalista Sidney Rezende
http://www.sidneyrezende.com/noticia/245994+a+arte+dos+pes

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Ilé Asé Omin Oiyn, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Hoje, é editor do Jornal Awùre. Diretor Financeiro da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. Colabora com a assessoria de comunicação do PPLE - Partido Popular da Liberdade de Expressão Afro-Brasileira. É sócio diretor na agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras.

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