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A casa da Tia Ciata

A História da MPB: Capítulo 4

por: Ronaldo Victoria

21/10/2017 às 10:07

 

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As chamadas “tias” baianas tiveram um papel importantíssimo para o surgimento do samba no Rio de Janeiro no final do século 19. Tanto que até hoje, no desfile das escolas de samba, a ala das baianas é obrigatória, mesmo que não conte ponto na apuração. Sinal de reverência ao passado. As baianas eram as transmissoras da cultura popular, pois nas casas delas é que aconteciam as festas onde se reuniam os primeiros sambistas.

Elas também eram quase todas mães-de-santo, sacerdotisas de ritos e tradições da matriz africana. Dentre elas, a mais famosa era a Tia Ciata, até hoje reverenciada em enredos. Era o apelido pelo qual ficou conhecida Hilária Batista de Almeida, que nasceu em 1854 em Santo Amoro da Purificação (a mesma cidade de Caetano Veloso e Maria Bethânia). Mudou-se para o Rio de Janeiro aos 22 anos e aquele período ficou conhecido como “diáspora baiana”, pois vinham fugidas da perseguição religiosa que enfrentavam no Estado de Origem. À frente de seu tempo, teve um relacionamento com Norberto da Silva Guimarães e ficou grávida de Isabel, sua primeira filha. Mas não se casou com ele. Formou família depois com o funcionário público João Batista da Silva, com quem teve nada menos que 14 filhos.

Tia Ciata, como toda baiana daquele tempo, era excelente quituteira, e montou banca à rua Sete de Setembro, bem no centro do Rio, sempre com o traje típico, toda de branco. Era seu jeito de criar sozinha a primogênita. Também alugava roupas para o teatro e o carnaval. Foi confirmada como mãe-de-santo, com o nome de Tia Ciata de Oxum, no terreiro de João Alabá, onde também havia o famoso cortiço Cabeça de Porco. Sempre celebrava os seus orixás e as ocasiões mais movimentadas eram o Dia de São Cosme e São Damião e de Nossa Senhora da Conceição. Mas promovia festas profanas, onde havia rodas de partido-alto. Nessas rodas se dançava o miudinho, forma de sambar de pés juntos, em que a baiana era mestra.

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A Casa da Tia Ciata ficava no número 117 da Rua Visconde de Itaúna. Hoje existe um centro cultural com esse nome à Rua Camerino, no centro do Rio. Essa região, próxima à Praça Onze, passou a ser conhecida como Pequena África, porque era o ponto de encontro de ex-escravos e negros baianos que moravam nos morros próximos. A chamada capital dessa região era mesmo a Casa da Tia Ciata, onde sempre apareciam Pixinguinha, Sinhô, Donga, João da Baiana e Mauro de Almeida, entre tantos outros. Os historiadores garantem que foi lá que nasceu o samba.

 

Outras baianas famosas eram Tia Amélia (mãe de Donga), Tia Prisciliana (mãe de João da Baiana), Tia Veridiana (mãe de Chico da Baiana) e Tia Mônica (mãe de Pendengo). A tradição popular as identificava como mães do samba, do carnaval e dos pobres. No começo dos desfiles de escola de samba, no final dos anos 20, não havia percurso sem horário determinado. O fundamental era que as agremiações passassem pela Praça Onze e em frente à casa das tias, para a benção das baianas. O desfile só foi regulamentado em 1935, pelo prefeito Pedro Ernesto.

 

Extraído do blog A Província / Piracicaba – SP
https://www.aprovincia.com.br/cultura-entretenimento/emporio-cultural/historia/casa-da-tia-ciata-22564/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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