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A dança do rei

Tatiana Mendonça | Sáb, 31/05/2014 às 08:20

Mestre King no palco do TCA Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Mestre King no palco do TCA
Fernando Vivas | Ag. A TARDE

A vida de mestre King, pioneiro na dança afro no país, que inspirou o espetáculo  Raimundos, encenado por Bruno de Jesus em 2013, deve virar documentário em breve. Aos 70 anos, King ainda dá aulas e deve estrear novo trabalho este ano

Mestre King, 70, está de volta ao imponente Teatro Castro Alves. Quando pisou ali pela primeira vez, em 1972, era ainda Raimundo Bispo dos Santos, mais um entre os integrantes do Conjunto Folclórico Olodumaré, cujas coreografias tomavam emprestado movimentos da capoeira e do maculelê. De frente para a plateia vazia, aponta um canto do palco. “Caí aqui uma vez. E depois um colega meu tropeçou também. Tem alguma coisa nesse lugar”, diz, como se assim provasse a existência do misterioso. E talvez a vida em retrospectiva seja sempre isso, a prova de um mistério. Naquele mesmo ano, 1972, Raimundo entrava para a Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, para figurar para sempre na sua história como o primeiro aluno homem – e negro – a ingressar ali.

Pode ser que tenha tomado gosto pelo pioneirismo. Ainda na faculdade, começou por conta própria a pesquisar o jeito que os deuses dançavam. Durante mais de ano, frequentou terreiros todos os fins de semana. Ia ver como os orixás, inquices, voduns e caboclos se mostravam aos homens. Gravava seus movimentos, toques, cantos. Nas casas de candomblé, já diziam que ele era  “fura-roncó”, como se estivesse se metendo demais nos segredos da religião. Na Escola de Dança, onde passou a repetir o que via, falavam que era macumbeiro.
Nem uma coisa, nem outra. Raimundo queria saber mais dos que tinham a pele igual a sua. Acabou tornando-se um dos precursores da dança afro no Brasil, ao lado de grandes nomes, como Mercedes Baptista e Valter Ribeiro. Passados mais de quarenta anos, ele ainda não se sente confortável com o título. “Não criei nada. O que fiz foi transformar, como Lavoisier”. Não vá apressadamente pensar que em seu peito bate um coração modesto. “Mas é verdade que mudei a forma de dançar na Bahia”, diz, já na voz e corpo de mestre King.

Essa nova forma uniu a dança dos orixás aos movimentos da capoeira, do samba de roda, do maculelê. “Veja o Balé Bolshoi. Aquelas peças clássicas todas surgem a partir do folclore russo. Me baseei nessa filosofia”. Foi, com o passar dos anos, aprimorando sua metodologia, que espalhou por periferias e escolas públicas de Salvador, com escalas no seletivo Clube Bahiano de Tênis e em universidades do exterior.

É que antes de virar estudante na Escola de Dança, ele já era professor. Começou a dar aulas em meados da década de 1960 e, em 1969, foi chamado para o Serviço Social do Comércio (Sesc), para ficar seis meses. Está lá até hoje.  “Sou aposentado, mas, como ainda não me mandaram embora, estou lá. Vou dar aula até ter forças para andar”.

Vítimas da varinha

A precisão e a elegância de outros tempos foram sendo saqueadas por uma artrose aqui, uma hérnia acolá.  Antes de subir ao palco do TCA para produzir o ensaio fotográfico que acompanha esta reportagem, King reclamava dos joelhos – “é só mudar o tempo que eles ficam assim” – e da coluna, desgastada com uma tarde de ensaios no dia anterior. Seu grupo, Gênesis, formado há 36 anos, deve estrear ainda este ano um novo espetáculo.

Também como professor King, sente o peso do tempo.  Nas manhãs de sábado,  dá aulas na Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), que ajudou a fundar.  O espaço tem dois cursos de qualificação profissional de dança afro e oito cursos livres dedicados a esse estilo. A de mestre King não está nos amplos painéis que anunciam as turmas, mas é uma das mais procuradas.  “A dança afro cresceu muito, mas eu digo a você: na Bahia, tem um clã que faz um bom trabalho, mas o rei desse clã sou eu. Não sou professor de dança. Sou o professor de dança”.

Ele sobe com esforço as escadas que levam à ampla sala espelhada e espera que os alunos cheguem. Marcada para as 9h, a aula só começa de fato às 9h30, seguida de nenhuma reclamação, fato impensável em outras épocas.  “Ele era extremamente exigente. Se não chegasse no horário, era uma pagação. Isso quando deixava entrar”, lembra a dançarina e pesquisadora Leda Ornelas, que começou a ter aulas com King aos 16 anos, no Sesc.  “Meu pé era chato, largo, e aí ele ficava me batendo com uma varinha para eu esticar o pé direito”, conta, rindo.
E ela foi só uma das inúmeras vítimas da varinha de mestre King. “Hoje, não uso mais, porque, senão, nego me leva para o Ministério Público por assédio moral”, diz, matreiro. O que ainda faz é dar uns tapas sonoros nas pernas dos alunos para que se alinhem direito.  Apesar de mais relaxado, King se mantém exigente. Reclama da turma que não está acompanhando – “vamos ter que fazer o básico, vamos voltar para a alfabetização” –  aos percussionistas que não estão tocando direito – “até o toque está difícil hoje. Acerta essa porra”.  Mas, no finalzinho da aula, sai um elogio, de dar inveja a seus antigos pupilos, pouco acostumados a palavras de aprovação. “Vou raspar essa moça!”,  grita, mais alto que os atabaques, numa referência às iaôs,  filhas de santo.

 

Extraído da Revista Muito, do Portal de Notícias A Tarde

http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/a-danca-do-rei-1595550

About The Author

Iniciou-se no candomblé aos 13 anos de idade no dia 25 de novembro de 2005. Morador de Saquarema-RJ. É babalorixá do candomblé nação Efon, Filho de Denison D`Osun, Neto de Francisco D`Iemanjá e Bisneto do saudoso Waldomiro Bahiano D`Sango. Além de ser o Webdesigner responsável pelo site do Jornal Awúre. Telefones para contato: (22) 99798-8469 / (22) 99231-0309

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