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A disputa da fé alheia

Crivella tenta se descolar da Igreja Universal, do seu tio Edir Macedo. E, ao mesmo tempo, colar imagem à tolerância, ao aparecer na TV com pai de santo

24/09/2016 0:00

carinha_colunista_zuenir_venturaEu não queria estar no lugar de Jesus nestas eleições para a prefeitura do Rio. Já muito assediado, não se sabe ainda que partido Ele vai tomar, se é que vai tomar algum. Em tese, ninguém admite misturar religião e política, pois, como se diz, vivemos num Estado laico. Mas, na prática, é evidente a mistura. E hoje há uma corrida aos votos de fieis de outras crenças, em acirrada disputa pela fé alheia. Por via das dúvidas, deve ter candidato rezando e orando para agradar aos dois lados. O do PMDB, por exemplo, Pedro Paulo, fez vídeo em que aparece segurando a Bíblia no templo da Assembleia de Deus, Ministério de Madureira, como se fosse crente desde criancinha. Mas o campeão desse novo sincretismo religioso para efeito eleitoral é Marcelo Crivella, do PRB, que está atacando em dois planos. Bispo licenciado, ele vem tentando se descolar da Igreja Universal do Reino de Deus, do seu tio Edir Macedo, para diminuir a rejeição. E, ao mesmo tempo, tenta colar sua imagem à tolerância, ao aparecer na televisão acompanhado de um pai de santo.

Trata-se de uma ousada estratégia de marketing, que prevê lances eticamente reprováveis, como o uso não autorizado da foto do encontro com o cardeal arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, a quem foi apresentar seu plano de governo, como fizeram os outros candidatos. Só que, ao contrário destes, Crivella produziu peças com a imagem risonha dos dois e panfletou em portas de igreja e de metrô. A Arquidiocese protestou com indignação contra a indevida propaganda e aproveitou para avisar: “O cardeal não apoia nenhum candidato à prefeitura ou à Câmara Municipal”. Por meio de sua campanha, o senador começou negando que tivesse distribuído o material, mas depois confessou a má ação, embora alegando que o “único objetivo foi dar transparência à população dos programas assumidos junto ao cardeal”. Quer dizer, tergiversou, confessou, mas não se penitenciou do erro, isto é, do que a igreja de dom Orani classificaria de pecado sem remissão, porque sem reconhecimento da falta e sem arrependimento.

Durante sua última campanha, a ex-presidente Dilma Rousseff deu um conselho: “Nós podemos fazer o diabo quando é hora de eleição”. Não se sabe se ela incluía aí usar o santo nome em vão. Talvez seja muita pretensão achar que Deus, com tantos problemas graves para resolver no mundo, vai dar atenção às nossas eleições municipais, ainda mais sabendo que elas transformaram a fé em moeda de troca de votos.

 

Extraído da coluna do escritor Zuenir Ventura do Jornal O Globo / RJ
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Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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