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A dona da História

 

OliveiraFLÁVIA OLIVEIRA SOCIEDADE

03/08/2017 4:30

 

Na festa da palavra escrita, brilhou a oralitura. Foi o livrofalado da professora Diva Guimarães que encantou a Flip 2017

Na mais negra de todas as edições da Festa Literária de Paraty (Flip) foi a palavra falada que encantou. E ecoou. Ao fim da mesa entre o escritor, ator e diretor brasileiro Lázaro Ramos e a autora portuguesa Joana Gorjão Henriques, a professora Diva Guimarães ficou de pé, tomou o microfone e entrou para a História. Em 12 minutos de desabafo claro, contundente e emocionado, ela produziu um livro falado. O depoimento visceral da paranaense chacoalhou o público e apresentou o valor da oralitura a um país dominado pela visão de mundo que valida a escrita e despreza a transmissão oral de conhecimento, típica dos povos tradicionais.

Voz embargada, lágrimas nos olhos, a mulher de 77 anos libertou memórias de quatro séculos de opressão escravocrata, mas também de resistência ancestral do povo negro. Neta de escravizados, filha de uma lavadeira, submetida ao trabalho infantil não remunerado numa escola católica, torturada pela ideologia de supremacia branca de freiras, ameaçada pelo racismo da capital para onde migrou, a professora fez de sua trajetória pessoal profissão de fé na herança dos antepassados e na educação. Com seu livro recitado, atravessou a História, cruzou divisas. Até ontem, o vídeo divulgado pelos organizadores da Flip 2017 ultrapassara 11 milhões de visualizações.

Oralitura, explica o também professor Renato Noguera, doutor em filosofia pela UFRJ, foi termo cunhado nos anos 1960 pelo linguista Pio Zirimu, nascido em Uganda. Trata do conjunto de formas verbais orais, artísticas ou não, que se contrapõe – ou se soma – à literatura ancorada no grafocentrismo ocidental. Tem a ver com legitimar outros modos de produção e transmissão de conhecimento, história, tradições. É o registro oral reconhecido, valorizado.

“O conceito de oralitura é adotado pelos escritores antilhanos a partir da década de 1980, e a justificativa para o uso de tal nomenclatura está no fato de a literatura tradicional, da forma como é concebida, não oferecer espaço que abrigue de forma satisfatória as questões ligadas à produção literária. Esses escritores proclamam um movimento intitulado de créolité cujo objetivo maior é abrir caminhos que conduzam a uma reflexão mais ampla sobre o ser antilhano, de forma a prezar pela memória coletiva local, que está essencialmente forjada na oralidade e representa as suas tradições”, escreveu a professora Margarete Nascimento dos Santos, da Universidade do Estado da Bahia, no artigo “Entre o oral e o escrito: a criação de uma oralitura”, de 2011.

Dias desses, Ronaldo Mota, reitor da Universidade Estácio de Sá, contou num almoço a história do aluno de ensino à distância premiado por alcançar a maior nota entre os formandos. O jovem contou que não assistiu às aulas em vídeo nem leu todos os textos sugeridos. Morador da Zona Oeste, ouvia as lições gravadas em áudio nas intermináveis viagens de ônibus que enfrentava. Aprendeu de ouvido. Convenceu o mestre da importância da genômica educacional. “É o reconhecimento de que cada aluno aprende de maneira única. Por isso, cabe às instituições oferecerem percursos múltiplos de aprendizado, para que todos encontrem o melhor caminho”, resume Mota.

Diva Guimarães encarnou na Flip 2017 a oralitura e suas possibilidades de ensino, aprendizado, perpetuação. Assim, expandiu os limites do evento que, este ano, reverenciou a produção literária do carioca Lima Barreto e celebrou a mineira Conceição Evaristo, autora negra que fez da vivência escrita. A professora do Paraná deu aula prática sobre o que significa valorizar cultura, tradições e saberes populares, afro-brasileiros, indígenas. Ensinou a somar, em vez de subtrair potências. Lembremos da lição.

Extraído da Coluna Sociedade do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
https://oglobo.globo.com/sociedade/a-dona-da-historia-21662126#ixzz4pFQ5TWk0 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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