Breaking News

A herança religiosa da “Mãe África”

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite*   “A Ciência sem a Religião é manca, a Religião sem a Ciência é cega” Albert Einstein cand1 Estudar as religiões de matriz africana e seu universo ritualístico representa um mergulho num passado secular na história do Brasil. Existe uma diversidade ritualística do culto aos orixás entre as diferentes regiões do nosso país, embora toda a tradição provenha da “Mãe África”. Os orixás atravessaram o Oceano Atlântico dentro do coração do negro escravizado, sendo a religiosidade uma das formas de sua resistência cultural.  Em recente pesquisa na Universidade de Emory, em Atlanta, foi registrado 4,8 milhões de escravizados que vieram para o Brasil. A caminho do Rio de Janeiro, que era a porta principal de entrada de navios negreiros, 300 mil morreram, tendo o mar como sepultura. A expressão “Calunga Grande”, que em yorubá significa cemitério, é bastante utilizada pelos praticantes de cultos de matriz africana numa referência ao mar. Este serviu de sepultura para os escravizados que morriam ou adoeciam gravemente durante o transporte nos tumbeiros. cand11 Tratados como mercadorias, os escravos eram transportados nos tumbeiros (navios negreiros), nos quais se misturavam escravizados de diferentes locais da África, que falavam diferentes dialetos. Esta era a forma de dificultar a comunicação e enfraquecer a sua identidade cultural, enquanto grupo étnico, visando a anular qualquer articulação de insurreição, durante o transporte, ou uma fuga em massa. O tratamento desumano e o sofrimento dos escravizados, nestas embarcações, foram denunciados no épico poema “Navio Negreiro” do Castro Alves (1847-1871).  Este clássico de nossa literatura narra a situação de dor e maus tratos dos africanos que eram “arrancados” da sua terra e trazidos para o Brasil na condição de escravizados. Segue, abaixo, uma estrofe desta obra ícone da poesia brasileira que, atravessando gerações, continua a encantar por sua temática e qualidade literária.   cand12   “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão! “ cand13cand14 No Brasil, seus orixás foram sincretizados com os santos católicos, para driblar a cultura dominante branca e cristã, a exemplo de Yemanjá associada à Nossa Senhora dos Navegantes. Este capítulo da nossa história é do conhecimento da grande parte dos interessados no estudo da cultura afro-brasileira, porém a questão à qual se deve estar atento, nesse processo de aculturação, é a forma como tem sido tratada esta herança religiosa, legada pelos ancestrais africanos. Infelizmente, não generalizando, percebemos em nosso cotidiano o mercantilismo desrespeitoso e de má fé, que se apropria desta tradição milenar que atravessou o Oceano Atlântico e plantou as suas raízes em solo brasileiro. cand15   A mistura dos grupos étnicos, oriundos de diferentes regiões da África, torna este resgate histórico bastante difícil, embora o empenho dos pesquisadores, ligados, principalmente, às áreas da História e da Antropologia. O Batuque ou Nação dos Orixás, como é conhecido no Rio Grande do Sul, tem suas raízes nos cultos dos povos da Costa da Guiné e da Nigéria representado pelas nações Jêje, Ijexá, Oyó, Cabinda e Nagô. O Batuque não possui um livro escrito de cunho sagrado, a exemplo da Bíblia, que foi a primeira obra impressa, em 1455, a partir da prensa criada pelo alemão Gutenberg. Na inexistência de um registro escrito, o conhecimento, baseado na tradição oral, constituiu-se num canal de perpetuação das religiões de matriz africana até os dias de hoje, ainda que tenham ocorrido adaptações no culto ao longo do tempo. [1] cand16  É notório que os interesses econômicos invadem os “terreiros” que representam o espaço sacralizado de uma cultura e a sua forma de comunicação com o Divino ( Orum), transformando o culto aos orixás numa simulação para "Inglês ver”. O sagrado não pode ser banalizado, na forma de um grande pregão, no qual tudo se vende, incluindo felicidade. Diante desse quadro, faz-se urgente uma análise crítica e reflexiva quanto aos reais valores cultivados pela  tradição africana, pois estes fazem parte do cadinho, no qual se formou o povo brasileiro marcado pela diversidade cultural de vários brasis. Kolofé Olorum!  (Deus nos abençoe).     Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e Coordenador do setor de imprensa do Musecom*   Bibliografia:    FERREIRA, Walter Calixto (Borel). Agô-iê, vamos falar de orixás. Porto Alegre: Renascença, 1997.   CORREA, Norton Figueiredo.  O Batuque do Rio Grande do Sul, Porto Alegre: Ed. Universidade/ UFRGS, 1992.    ORO, Ari. Religiões Afro-brasileiras do Rio grande do Sul: Passado e presente. Estudos Afro-Asiáticos vol. 24, nº 02, Rio de Jane http://yalorixamaedenisedeoya.blogspot.com.br/2011/09/falando-de-religiao.html acessado em 22/08/2015 [1]  Infelizmente, com o tempo muitos dos rituais iniciáticos e de formação de novos sacerdotes ( aprontamento) foram se adaptando e perdendo  algumas características  originais.

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *