Breaking News

A literatura africana na escola

 

junho 26, 2015 – por Marcelo Brito – Fonte:

 

 

Marcelo-Brito-da-Silva-02-06-151Historicamente, o livro didático de literatura na escola brasileira tem privilegiado obras de escritores portugueses em detrimento dos africanos, o que já foi chamado de “neocoloniadade curricular”. Autores canônicos como Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa são figuras conhecidas do estudante brasileiro. Esses escritores, de inegável importância para a nossa língua, refletem em suas obras a visão de mundo do homem europeu. Mas onde ficam escritores africanos que também engrandecem a língua portuguesa e através dela registram a cosmovisão de quem vive no continente africano, suas lutas e dificuldades, sua história, tradições e toda uma riqueza cultural e linguística? Como esses escritores trabalham a língua portuguesa? Que pontos de contatos existem entre a literatura brasileira e a africana?
Certamente a história do Brasil e a de alguns países africanos têm pontos em comum, como podem atestar na escola as disciplinas de História e Geografia. E é com elas que a Literatura pode dialogar para colocar em evidência tais intercessões, especialmente com os países que, como o nosso, carrega o emblema de ex-colônia portuguesa. É justamente essa evidente afinidade histórico-cultural que a Lei nº 10.639 procurou contemplar, apontando a Literatura como uma das disciplinas privilegiadas para trabalhar os conteúdos relacionados à cultura afro-brasileira.
Assim prescreve a lei supracitada: “Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. O conteúdo programático […] incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.”
Acredito que o ensino formal deve evitar a visão eurocêntrica que insiste em reduzir à questão da escravidão os laços que ligam Brasil e África. Penso que a disciplina de Literatura enseja oportunidades ímpares de trazer à luz o conhecimento sobre a África lusófona e suas afinidades com o Brasil, desse modo mitigando preconceitos e estereótipos sobre a África e os afrodescendentes. Na oportunidade, quero sugerir como porta de entrada no universo da literatura africana de língua portuguesa a obra do escritor moçambicano Mia Couto, ganhador do Prêmio Camões em 2013 e um verdadeiro artesão da “última flor do Lácio”.

(*) Marcelo Brito da Silva é mestre em Literatura e professor do IFMT campus Rondonópolis

 

 

Extraído do site do Jornal A Tribuna Mato Grosso / Cuiabá – MT
http://www.atribunamt.com.br/2015/06/a-literatura-africana-na-escola/