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A santa guerra entre os orixás e o pastor

 

Por Jolivaldo Freitas | Publicada em 16/09/2014 18:14:48

 

 

Já começo o texto perdido. Tonto pela ignorância cultural do pastor candidato a deputado na Bahia que quer retirar os símbolos aos deuses africanos do Dique do Tororó e os fixar na Limpurb ou no fundo do mar; tanto como pela minha ignorância em não saber mais se ainda é respeitada a regra linguística de que o termo orixá não tem plural. Seria orixá no singular e os orixá no plural? Pelo menos aprendi assim, mas vejo que hoje a regra não se aplica mais. É igual a Pataxó. Tanto faz singular como plural é o mesmo Pataxó. Não “vareia”, como diriam os locutores futebolísticos.

Mas a ignorância é minha e não é da sua conta, e nem sei porque estou dando satisfação, assim como o pastor não quer dar satisfação sobre sua atitude obscurantista. O que o obreiro de Jesus na terra não sabe é que a figura dos orixás, representadas por seus elementos, como espadas, lanças, abadás, entremeios, pano da costa e tantos mais, extrapolou ao universo religioso.

Faz parte de uma cultura. Da nossa cultura. São elementos culturais respeitados também por quem não é de santo, como eu cuja religião é o Jazz. O orixá como é representado, é mais uma marca da baianidade, assim como o Farol da Barra, o Elevador Lacerda, o Esporte Clube Bahia, Jorge Amado ou mesmo a punheta, que todo mundo sabe é bolinho de estudante, mas é que falar punheta enche a boca e é mais característico e é bom saber que se chama punheta porque a massa é amassada (é pleonasmo?) na mão grande, ou no estilo big hand, como diria Michael Jackson que nada tem a ver com esta história, mas é que estou ainda tonto com o radicalismo do pastor xiita e que, graças a Deus, não é do Estado Islâmico, senão mandaria cortar minha cabeça, que por sinal já está ruim. Estou cada vez mais ruim da cabeça.

Se bem que acho que ele quer mesmo é chamar a atenção do seu eleitor, fazendo a divisão entre fiéis e infiéis ou incréus, para aliciar aquela parte da população que tem preconceito e intolerância religiosa. Ele que me diga que nunca comeu um acarajé, uma cocada ou abará num tabuleiro da baiana.

Na verdade o pastor sofre da inveja de semiótica e da sintaxe de linguagem visual. O que o pastor não sabe é que a Igreja Católica, que já foi apostólica e romana tem um monte de símbolos que ajudam à sua identificação “mercadológica” e conceitual, a exemplo de verdadeiras logomarcas (publicitário diz que logo e marca são a mesma coisa, mas eles que se lixem) como a cruz (até mesmo a de Caravaca), os campanários, as asas dos anjos e até os escudos romanos ou mesmo o peixe (um dos primeiros símbolos cristãos baseado nas primeiras letras gregas de Jesus Cristo de Deus Filho Salvador, Ieosus Christos Theou Yios Soter, que forma Icthus, o vocábulo grego para peixe) e o arco-íris, que na tradição judaico-cristã representa o pacto entre Deus e a humanidade.

A religião afro-brasileira tem sua representação estética nos elementos que já citei acima e muitos outros, como o atabaque, o espelho de Oxum ou o tridente de Oxossi, só para citar alguns. O problema da religião do pastor é que os símbolos inexistem. Não existe um deles que seja uno. Como a cruz. Tanto que cada vertente das igrejas surgidas no país usam os seus próprios, como a Quadrangular que usa uma cruz torta e outras que se representam com a imagem de uma pomba estilizada, uma taça – que deve ser o Santo Graal ou coroa de três pontas.

Os evangélicos não gostam da personificação de Cristo e não têm santos que os representem. Em compensação eles não se queixam ao bispo: falam direto com quem manda. Ligação direta com Jesus. Daí que apenas sua representação visual é a Bíblia. Mas esta também pertence aos católicos e apostólicos e não fica bonita numa corrente de ouro, num brinco ou pintada numa camiseta. Nem mesmo na capa de disco de Madonna. Falta estética. Pergunto a ele: porque ao invés de retirar os símbolos afro-brasileiros das áreas de Salvador não manda espalhar obras (estátuas, tótens) com a Bíblia representada? Mandava até colocar lá mesmo, no Dique do Tororó.

O que o pastor sofre é de uma terrível crise de identidade. E da insegurança do voto.

 

Extraído do site Tribuna da Bahia

http://www.tribunadabahia.com.br/2014/09/16/santa-guerra-entre-os-orixas-o-pastor

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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