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ÁFRICA: Cidade da Nigéria vira as costas para passado afro-brasileiro

Poucas pessoas ainda falam o português em Lagos, e os edifícios da época, que ainda guardam o requinte das fachadas sob a pintura descascada, estão em ruínas

 

Por: AFP – Agence France-Presse

Publicado em: 16/03/2016 14:46 Atualizado em:

Catedral de Lagos, com inspiração barroca. Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP
Catedral de Lagos, com inspiração barroca. Foto: Pius Utomi Ekpei/AFP

Em sua casa de paredes em tons pastéis no bairro de Campos, coração de Lagos, Yewande Oyediran é uma das últimas pessoas a preservar a cultura brasileira trazida por ex-escravos há mais de um século.

Afundada em uma grande poltrona, a octogenário evoca seu bisavô, João Esan da Rocha, natural do estado de Osun, no sudoeste da Nigéria, capturado em 1850 e levado para a América do Sul como um escravo, tendo sido libertado anos mais tarde.

Foi assim que o “frejon” (conhecido como feijão de coco no Brasil), um prato feito a partir de grãos de feijão e leite de coco, degustado principalmente durante a Semana Santa, se tornou um prato muito popular em sua família e nas casas de muitos outros da etnia yoruba, no sul da Nigéria.

“Eu não espero a Sexta-feira Santa para comer frejon, eu cozinho e como ao longo de todo o ano”, afirma.

Mas esta cultura está se perdendo. Poucas pessoas ainda falam o português em Lagos, e os edifícios da época, que ainda guardam o requinte das fachadas sob a pintura descascada, estão em ruínas.

Uma casa de 1895, nas cores rosa e bege e com janelas ornadas com grades de ferro forjado, ainda está de pé, bem como a catedral católica, não muito longe. Mas a mesquita de Shitta, construída em 1892 no mesmo bairro e inspirada nas igrejas coloridas da Bahia, foi destruída.

Apenas o carnaval anual de Lagos, muito colorido, e alguns nomes de família, tais como Cardoso, Almeida, da Costa, da Silva ou Gonçalves, existem para lembrar os laços históricos entre a Nigéria e o Brasil.

40 casas ainda de pé

Também é possível constatar alguma influência afro-brasileira nas construções da cidade costeira de Badagry, cerca de sessenta quilômetros de Lagos, de onde partiram milhares de escravos nigerianos para Salvador.

A partir de 1850, os escravos libertos, convertidos ao catolicismo em sua maioria, começaram a voltar para a Nigéria, trazendo com eles novas crenças e novas influências culturais e arquitetônicas.

Entre os ex-escravos, muitos tornaram-se políticos e empresários ricos, que queriam mostrar seu novo status social. Desta forma, construíram edifícios impressionantes.

O avô da sra. Oyediran foi o primeiro milionário da Nigéria, segundo a lenda.

Lagos passou por uma verdadeira metamorfose ao longo das décadas para se tornar a cidade mais populosa da África, com cerca de 20 milhões de habitantes, e seu patrimônio arquitetônico tem sido negligenciado.

As “fracas” tentativas de preservação da herança afro-brasileira têm “sido dificultadas pela falta de recursos e corrupção”, afirma um funcionário do ministério do Turismo, que pediu anonimato.

“Os filhos dos proprietários destes edifícios não ajudam. Muitos deles não têm ideia do valor histórico dos edifícios em que vivem”, acrescentou.

Guia turístico, Abiola Kosoko lamenta que a maioria dos edifícios antigos afro-brasileiros foram demolidos para dar lugar a grandes edifícios sem charme, mas mais rentáveis.

“Há algumas décadas, contávamos com cerca de 900 destes edifícios na ilha de Lagos, (nos subúrbios de) Epe, Badagry e Ikorodu. Menos de 40 ainda estão de pé hoje”, disse ele.

“Mesmo o carnaval, que atraía muitos turistas estrangeiros, perdeu o seu esplendor”, especialmente por causa das gangues locais, que semeiam a confusão, lamenta Dayo Medeiros, cujos ancestrais foram escravos no Brasil.

Uma das casas de estilo afro-brasileiro desabou recentemente no subúrbio de Lagos, explica Kosoko, que é bisneto de um antigo rei de Lagos e que escreveu um livro sobre a história da cidade.

“Ninguém tentou preservá-lo. Eles deixaram a construção de um andar, uma jóia arquitetônica, desintegrar-se”, lamenta.

 

Extraído do site do Jornal Diário de Pernambuco / Recife – PE
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/mundo/2016/03/16/interna_mundo,632969/cidade-da-nigeria-vira-as-costas-para-passado-afro-brasileiro.shtml

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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