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Afrodescendentes cruzam oceano em busca da ancestralidade

Meire Oliveira | Sáb, 27/02/2016 às 20:00

 

 

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Lúcio Távora | Ag. A TARDE Mãe Lúcia, do Terreiro São Jorge Filho de Goméia, viajou três vezes para Angola

Ao contrário da viagem forçada nos porões dos tumbeiros (embarcações destinadas ao comércio de escravos), a necessidade de fortalecer elos – subjetivos ou não – faz os afrodescendentes atravessarem o oceano em busca das origens no continente africano.

A religiosidade, o interesse acadêmico e a possibilidade de parcerias por meio do intercâmbio cultural são algumas das motivações para quem faz o caminho inverso dos antepassados.

A contradição entre a história que permeia o imaginário popular e a vivência no Terreiro São Jorge Filho da Goméia fez Mãe Lúcia das Neves, a mameto Kamurici e líder espiritual do templo, visitar Angola três vezes.

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“No candomblé aprendi que nkissi é tudo, que sou filha de reis e rainhas e que temos uma cultura forte e rica. Mas não via essa representação e reconhecimento fora do terreiro”, contou.

O templo localizado no bairro de Portão, em Lauro de Freitas, é de tradição Angola, o que justifica as viagens para a cidade de Benguela e em Barra de Kwanza. “A primeira coisa que fiz lá foi tirar os sapatos, pedir agô (licença) e que as energias que eu cultuo me permitissem encontrar as respostas que precisava”, disse.

Permissão concedida, foram frequentes as situações de identificação. “O jeito como as pessoas vivem parece com o nosso, o que me fez sentir parte daquele universo. Compartilhamos a mesma energia”, disse a sacerdotisa.

No âmbito religioso, as relações se estreitaram mais. “Visitei lugares importantes. Quando cantava em kimbundu (uma das línguas da família bantu), eles respondiam e me reconheceram como sacerdotisa. Alguns rituais são os mesmos, dando a certeza de que fazemos certo aqui”, contou. Como uma das similaridades, cita a festa de Kianda, que ocorre em Luanda, e parece com a que é feita para Kaiala (Iemanjá na tradição ketu).

Realidade

As imbricações também marcaram o diretor do Instituto de Mídia Étnica (IME) – organização social que realiza projetos sobre mídia, tecnologia e relações étnicas- Paulo Rogério.

“Na Nigéria, fiquei encantado com o akará (massa de feijão moída com temperos servida frita com camarão ou peixe) vendido na rua. Lembra o acarajé. A forma como as pessoas ocupam a via pública, como as feiras livres, também parece com a gente”, diz.

Paulo também conheceu a África do Sul, Gana e Moçambique desenvolvendo projetos que visam a conexão com o continente e buscando parcerias. Um deles é o Panáfricas, uma série televisiva sobre o panafricanismo e a diáspora africana.

“Pouco se sabe da realidade desses países. Para além da história africana conhecida, há o atual crescimento econômico da Etiópia, o desenvolvimento tecnológico no Kênia. Na África do Sul, por exemplo, há o programa de Empoderamento Econômico dos Negros – Black Economic Empowerment (BEE) – que consiste na inserção de negros em cargos de poder de decisão nas empresas”, contou.

A oportunidade de ampliar pesquisas acadêmicas também levou o doutor em antropologia e babalorixá do terreiro Axeloiá, Júlio Braga, ao outro lado do oceano, quando ainda era recém formado em filosofia, em 1967. “O Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Ufba retomou os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica, a partir de pesquisa de campo. Fui estudar práticas de possessão”, explica.

Em duas temporadas trabalhando nas universidades nacionais do Zaire e da Costa do Marfim, ele morou no continente por oito anos, passando pelo Senegal, Benin, Nigéria e Gana e, firmou laços mais profundos. Teve filhos africanos e se consagrou ao orixá Iansã em Sakatê (região entre Nigéria e Benim).

“Minha ligação é eterna. Por tudo que vivi e pelo vínculo religioso que irá permanecer, mesmo após a minha morte”, disse Braga.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/bahia/salvador/noticias/1750114-afrodescendentes-cruzam-oceano-em-busca-da-ancestralidade

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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