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ÁGUA QUE GERA E TERRA QUE FECUNDA

ESPETÁCULO SARAVÁ, DO GRUPO TRAJES, COMÉDIA E CIA. FOI ASSISTIDO PELO PROFESSOR JOSÉ ACIOLI FILHO NO TEATRO DEODORO É O MAIOR BARATO

FOTO: ADALBERTO FARIAS/DITEAL
Saravá mostra força dos elementos

 

A atração do Teatro Deodoro é o Maior Barato da quarta-feira, dia 25 de outubro, ficou a cargo do espetáculo Saravá, do Grupo Trajes, Comédia e Cia. É visível que existe uma pesquisa de linguagem sobre a religião afro-brasileira Candomblé, com enfoque na orixá Oxumaré. A pesquisa e direção é de Denis Angola, contando com uma equipe primorosa formada pelo ator Alexandre Constantino, o também bailarino Jailton Oliveira, a luz de Carlos Alberto Barros, e na música do espetáculo, Izaias Chico. Keka Rabelo assina a produção que faz circular o espetáculo, chegando a públicos que não teriam acesso ao ele sem o Edital Eris Maximiniano.

A palavra “saravá” é uma interjeição de saudação que é formada a partir da fala dos escravizados de origem bantu a pronunciar a palavra “salvar”, que passa para “salavá” até chegar em “saravá” – expressão relacionada com rituais do Candomblé e da Umbanda, sendo sons místicos ou sagrados, ou seja, sons específicos que elevam o espírito e significa: SA (força, senhor), RA (reinar, movimento) e VÁ (natureza, energia). “Saravá” significa então a força que movimenta a natureza.

Inicialmente existe uma luz tênue que sinaliza que o espetáculo já começou e que algo a qualquer momento acontecerá, criando, assim, uma ambiência que gera uma expectativa. Em um dado momento, a luz cria um belo arco-íris que nos remete ao símbolo básico da orixá pesquisada, que habilmente Carlos Alberto Barros consegue nos trazer através da luz incidida sobre a água da piscina e arremessada pelos corpos, nos fazendo ver a decomposição das cores em forma de arco-íris. Quando se fala da Orixá Oxumarê, vem logo alguns conceitos: movimento, fertilidade, cobra, arco-íris, e também as expressões “continuidade do movimento”, “ciclo vital”, “continuidade da vida”, “comunicação ente o céu e a

terra” “a grande cobra colorida”.

Sabemos que o Candomblé insere e junta e sintetiza as várias religiões do negro africano escravizado. Também há sobrevivências religiosas dos indígenas brasileiros, consolidando a pesquisa com uma característica criativa de não se reproduzir o sagrado artisticamente no palco, mas, sim, criar a partir da pesquisa formas de se dizer, ou de representar metaforicamente, esse sagrado, o qual se mostra através de uma dramaturgia corporal. 

O som nos transporta para uma mata e em seguida para diversos espaços imaginários. Izaias Chico, além de tocar, encanta o espetáculo com a força da sua voz. Três corpos em cena, muito diferentes em sua estrutura muscular, que são os Saravás. Somando-se a estes na cena, tem-se também o músico que dá conta do instrumental e da voz no espetáculo. 

Cada intérprete com suas características em seus corpos: Denis Angola, a capoeira, Jailton Oliveira, a dança afro, e Alexandre Constantino, o teatro. Corpos estes construídos na maioria das vezes a partir de técnicas somáticas, que trazem o trabalho da conscientização do corpo e do movimento. Não há definição de técnicas, pois os movimentos específicos de cada intérprete-criador emergem de sua própria noção de corporalidade, na busca de um sentido mais experimental, menos estratificado.

Em Saravá todos os corpos são ideais; não existe um único corpo ideal, como na dança clássica. São corpos multiculturais, que têm e assumem suas várias referências, os quais espelham o contemporâneo do contexto globalizado em que a dança contemporânea se move. Em Saravá, o corpo não se apresenta como o único veículo de comunicação – todo o contexto temático que arquiteta a criação encerra uma sintaxe. O corpo é que instiga o discurso simbólico; o corpo é o catalisador da emoção, do pensamento, da atitude política, da sexualidade. Saravá é muita sinceridade corporal posta em cena.

Os movimentos, braços-cobras, duelam, dialogam e se recolhem. O corpo-energia na água e os dois corpos-energias na terra começam a nascer, num despertar de um eterno. Oxumarê está representada sutilmente, saravando todas as pessoas presentes. 

* É professor da Universidade Federal de Alagoas, cenógrafo, figurinista, artista visual e bonequeiro. Graduado em Educação Artística – Artes Plásticas/Cesmac; especialista em Docência do Ensino Superior/Cesmac; mestre em Educação/Ufal; e doutor em Ciências da Educação/ UAA.

 

 

Extraído do site do Jornal Gazeta de Alagoas / Maceió – AL
http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=314710

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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