ÁGUA QUE GERA E TERRA QUE FECUNDA

ÁGUA QUE GERA E TERRA QUE FECUNDA

4 de novembro de 2017 0 Por Sérgio D`Giyan

ESPETÁCULO SARAVÁ, DO GRUPO TRAJES, COMÉDIA E CIA. FOI ASSISTIDO PELO PROFESSOR JOSÉ ACIOLI FILHO NO TEATRO DEODORO É O MAIOR BARATO

FOTO: ADALBERTO FARIAS/DITEAL
Saravá mostra força dos elementos

 

A atração do Teatro Deodoro é o Maior Barato da quarta-feira, dia 25 de outubro, ficou a cargo do espetáculo Saravá, do Grupo Trajes, Comédia e Cia. É visível que existe uma pesquisa de linguagem sobre a religião afro-brasileira Candomblé, com enfoque na orixá Oxumaré. A pesquisa e direção é de Denis Angola, contando com uma equipe primorosa formada pelo ator Alexandre Constantino, o também bailarino Jailton Oliveira, a luz de Carlos Alberto Barros, e na música do espetáculo, Izaias Chico. Keka Rabelo assina a produção que faz circular o espetáculo, chegando a públicos que não teriam acesso ao ele sem o Edital Eris Maximiniano.

A palavra “saravá” é uma interjeição de saudação que é formada a partir da fala dos escravizados de origem bantu a pronunciar a palavra “salvar”, que passa para “salavá” até chegar em “saravá” – expressão relacionada com rituais do Candomblé e da Umbanda, sendo sons místicos ou sagrados, ou seja, sons específicos que elevam o espírito e significa: SA (força, senhor), RA (reinar, movimento) e VÁ (natureza, energia). “Saravá” significa então a força que movimenta a natureza.

Inicialmente existe uma luz tênue que sinaliza que o espetáculo já começou e que algo a qualquer momento acontecerá, criando, assim, uma ambiência que gera uma expectativa. Em um dado momento, a luz cria um belo arco-íris que nos remete ao símbolo básico da orixá pesquisada, que habilmente Carlos Alberto Barros consegue nos trazer através da luz incidida sobre a água da piscina e arremessada pelos corpos, nos fazendo ver a decomposição das cores em forma de arco-íris. Quando se fala da Orixá Oxumarê, vem logo alguns conceitos: movimento, fertilidade, cobra, arco-íris, e também as expressões “continuidade do movimento”, “ciclo vital”, “continuidade da vida”, “comunicação ente o céu e a

terra” “a grande cobra colorida”.

Sabemos que o Candomblé insere e junta e sintetiza as várias religiões do negro africano escravizado. Também há sobrevivências religiosas dos indígenas brasileiros, consolidando a pesquisa com uma característica criativa de não se reproduzir o sagrado artisticamente no palco, mas, sim, criar a partir da pesquisa formas de se dizer, ou de representar metaforicamente, esse sagrado, o qual se mostra através de uma dramaturgia corporal. 

O som nos transporta para uma mata e em seguida para diversos espaços imaginários. Izaias Chico, além de tocar, encanta o espetáculo com a força da sua voz. Três corpos em cena, muito diferentes em sua estrutura muscular, que são os Saravás. Somando-se a estes na cena, tem-se também o músico que dá conta do instrumental e da voz no espetáculo. 

Cada intérprete com suas características em seus corpos: Denis Angola, a capoeira, Jailton Oliveira, a dança afro, e Alexandre Constantino, o teatro. Corpos estes construídos na maioria das vezes a partir de técnicas somáticas, que trazem o trabalho da conscientização do corpo e do movimento. Não há definição de técnicas, pois os movimentos específicos de cada intérprete-criador emergem de sua própria noção de corporalidade, na busca de um sentido mais experimental, menos estratificado.

Em Saravá todos os corpos são ideais; não existe um único corpo ideal, como na dança clássica. São corpos multiculturais, que têm e assumem suas várias referências, os quais espelham o contemporâneo do contexto globalizado em que a dança contemporânea se move. Em Saravá, o corpo não se apresenta como o único veículo de comunicação – todo o contexto temático que arquiteta a criação encerra uma sintaxe. O corpo é que instiga o discurso simbólico; o corpo é o catalisador da emoção, do pensamento, da atitude política, da sexualidade. Saravá é muita sinceridade corporal posta em cena.

Os movimentos, braços-cobras, duelam, dialogam e se recolhem. O corpo-energia na água e os dois corpos-energias na terra começam a nascer, num despertar de um eterno. Oxumarê está representada sutilmente, saravando todas as pessoas presentes. 

* É professor da Universidade Federal de Alagoas, cenógrafo, figurinista, artista visual e bonequeiro. Graduado em Educação Artística – Artes Plásticas/Cesmac; especialista em Docência do Ensino Superior/Cesmac; mestre em Educação/Ufal; e doutor em Ciências da Educação/ UAA.

 

 

Extraído do site do Jornal Gazeta de Alagoas / Maceió – AL
http://gazetaweb.globo.com/gazetadealagoas/noticia.php?c=314710