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Amar com fé: casais de religiões diferentes contam histórias de superação

Em tempos de intolerância, amar é um ato revolucionário: conheça casais formados por gente de religiões diferentes

Victor Villarpando (victor.villarpando@redebahia.com.br)

01/12/2015 09:30:00Atualizado em 01/12/2015 16:23:34

 

Nem todo muçulmano é terrorista do Estado Islâmico, assim como nem todo evangélico chuta estátua de santo católico ou difama adeptos do candomblé. Se não focarmos nas minorias extremamente radicais de cada religião, dá para fazer mais pontes do que muros. E isso pode ir além de amizades.

Para saber o que  as doutrinas orientam sobre namoro e casamento de pessoas com crenças diferentes, conversamos com seis líderes religiosos: um padre, um pastor, um pai de santo, um rabino, um sheik e um médium. Como o coração desconhece muita coisa, inclusive recomendações de sacerdotes e livros sagrados, fomos atrás de histórias reais. Três casais religiosamente improváveis toparam compartilhar conosco suas histórias de amor, tolerância e superação. Confira.

Matheus e Thais

O assessor parlamentar Matheus Maciel, do candomblé, e a jornalista Thais Mascarenhas, evangélica: vencendo preconceitos das famílias (fotos de Angeluci Figueiredo)
O assessor parlamentar Matheus Maciel, do candomblé, e a jornalista Thais Mascarenhas, evangélica: vencendo preconceitos das famílias (fotos de Angeluci Figueiredo)

 

Ela é evangélica. Ele, do candomblé. Ela frequenta a Igreja Evangélica Vida Nova, pentecostal. Ele, o terreiro Ilê Asé Ondô Nire, de nação Ketu. Antes de namorar com o assessor parlamentar Matheus Maciel, 22, a jornalista Thais Mascarenhas, 22, achava que todo filho de santo comia dendê.

Seu amado, por exemplo, nem chega perto do azeite, pois é filho de Oxalá. “Descobri quando, na paquera no WhatsApp, perguntei o que ele gostava de comer”, conta a moça. Outra surpresa para ela foi o resguardo. “Há períodos em que ficamos sem beijar na boca, só de mãos dadas”, afirma Thais.

 

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O rapaz conhecia mais do Cristianismo pela família, que tem até tio pastor. “Temendo o preconceito de meus pais, não comentei da religião dele quando os apresentei. Não adiantou. Minha mãe fuçou o facebook dele, viu e demonstrou preocupação”, diz Thais.

Do outro lado, a notícia não poderia ter sido melhor: “minha família viu a chance de eu me salvar desse mundo que eles acham ‘de satanás’”, explica, aos risos, Matheus. Para ele, a fala é fruto de ignorância. A mãe de santo sabe da relação e está de boa. O pastor nem sonha. Da parte dos pombinhos não há problema agora. Nem no futuro. “As coisas têm melhorado. A tendência é essa, pois meus pais vão vendo o quanto a relação está sendo boa”, conta a garota.

Lea e Luiz

Os arquitetos Lea Ester e Luiz Roberto: casados há 38 anos, ela é judia, ele católico e ogã de candomblé
Os arquitetos Lea Ester e Luiz Roberto: casados há 38 anos, ela é judia, ele católico e ogã de candomblé

“Transgressão é o que muda o mundo. As coisas só se desenvolvem quando a gente transgride”, afirma a arquiteta Lea Ester Sandes, 65. E ela diz com propriedade. Há 38 anos, a gaúcha desafiou os pais e a religião, o judaísmo, para casar com o amor de sua vida, o também arquiteto Luiz Roberto Sobral, 65.

O porquê? Ele não era judeu. “Minha família tinha grande preconceito com um jovem católico, baiano e de cabelo crespo”, diz Lea. Do lado de lá, a resistência também existia: “A família dele não sabia absolutamente nada sobre o judaísmo” relembra Lea.

O casal se conheceu há 43 anos, num congresso de estudantes de arquitetura. “Namoramos à distância por cinco anos e moramos juntos em Londres, onde fizemos especialização, por um. Casamos lá e quando acabou o curso, viemos para Salvador”, conta Luiz.

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Um ingrediente surgido no meio do caminho bota ainda mais cor na mistura: há alguns anos, Luiz virou ogã de um terreiro de candomblé. “Decidi me iniciar quando nasceu um Iroko, árvore que é orixá, no quintal de minha casa de praia em Jauá”, conta Luiz.Em casa, candelabros e estrelas de David convivem com santos e Nossas Senhoras. “Comemoramos todos os rituais judaicos. Nossos quatro filhos – David, Ari, Rafael e Ida – foram educados assim e optaram pelo judaísmo”, afirma Lea.

Como conciliar diferenças por tanto tempo? “Mais importante que religião é o temperamento. O resto é amor”, indica Lea, que arremata: “transgredi os rituais, assumi os riscos e hoje posso dizer que valeu a pena”.

Osman e Roseli

Osman Santos é muçulmano e Roseli Ferreira, evangélica: casal se conheceu no trabalho há 11 anos e está junto há 10
Osman Santos é muçulmano e Roseli Ferreira, evangélica: casal se conheceu no trabalho há 11 anos e está junto há 10

Sabe aquela história de muçulmano ter várias esposas? Se depender de Roseli Ferreira, 41, o marido dela, Osman Santos, 50, vai ficar com uma só. “Aqui não tem poligamia”, afirma a secretária. Ele concorda: “o Alcorão estabelece regras de conduta, financeiras e sexuais tão rígidas para quem quer ter mais de uma mul