Breaking News

Apreendidas nos anos 20, peças de terreiros de candomblé vão para acervo do Museu da Polícia

Espaço precisa de R$ 5 milhões para ser reaberto. Material tombado inclui imagens, vestimentas e instrumentos musicais

POR CÉLIA COSTA

04/10/2014 6:00 / ATUALIZADO 04/10/2014 18:18

PUBLICIDADE

 

db75634704386bf64309eaa1225f45d01c434b97

 

RIO — Na década de 1920, havia vários terreiros de candomblé espalhados pela cidade, além de inúmeras rodas de capoeira. Mas, mesmo cerca de 30 anos após a Abolição da Escravatura, os negros eram impedidos, por lei, de exercer religiões de origem africana e outras manifestações culturais. A polícia recebia grande quantidade de denúncias, feitas por aqueles que temiam os denominados “ritos de magia negra”, e fazia constantes batidas nos terreiros. Todo o material apreendido — como imagens de orixás — era levado para a Repartição Central de Polícia, que funcionava no imponente prédio na esquina das ruas da Relação e dos Inválidos, no Centro, mais tarde sede do Dops. Esse acervo hoje está longe do público e de estudiosos, mas poderá ser visto assim que o Museu da Polícia for reinaugurado — o que ainda não tem data para acontecer.

Uma das peças recolhidas no início do século XX - Marcos Tristão / Agência O Globo
Uma das peças recolhidas no início do século XX – Marcos Tristão / Agência O Globo

MATERIAL É TOMBADO

Durante anos, essas peças ficaram expostas num espaço do prédio com um título carregado de preconceito: Museu da Magia Negra. Com a degradação do edifício, construído em 1910, o material começou a se deteriorar. As peças incluem não só imagens, como vestimentas e instrumentos musicais (como atabaques), cuias, bonecas e palmatórias, além de garrafas com esculturas dentro.

Todo o material foi tombado em 1938 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje Iphan. Em 2009, um catálogo com fotos dos itens foi elaborado. Agora, as peças estão embaladas e encaixotadas, numa sala refrigerada de um prédio anexo.

A museóloga Cláudia Nunes, do Iphan, orientou a Polícia Civil sobre a forma correta de acondicionar o material.

— Quando tive contato com o acervo, as peças estavam em estantes e em condições impróprias de conservação. Orientei para que o material ficasse protegido da luz, da poeira e da umidade — contou.

Garrafas com imagem e escultura: acervo tombado - Marcos Tristão / Agência O Globo
Garrafas com imagem e escultura: acervo tombado – Marcos Tristão / Agência O Globo

O acervo chama a atenção de antropólogos, museólogos e historiadores. E o interesse aumentou com a Comissão Estadual da Verdade, que investiga violações de direitos humanos na ditadura e teve acesso ao prédio do antigo Dops. Nadine Borges, presidente da comissão, disse já ter sido procurada por entidades interessadas no material.

Pâmela de Oliveira, museóloga do Parque Lage, ressaltou o valor do acervo:

— Esse material conta a história do que ocorria desde o Império, quando os negros eram proibidos de praticar suas religiões. Ele mostra como foi a repressão às religiões afro, mas também abre um debate muito contemporâneo, porque ainda enfrentamos graves problemas com a intolerância religiosa.

OBRAS DE R$ 5 MILHÕES

 

A Polícia Civil, dona do edifício, tem um projeto para modernizar o espaço e reabrir o museu. A restauração da fachada já está quase concluída. No entanto, segundo o delegado Cyro Advincula da Silva, curador do museu, faltam as obras de reforço estrutural.

A Comissão da Verdade e diversos movimentos sociais querem que o prédio seja um memorial da resistência, com mostras sobre a ditadura e a tortura no Brasil. Já a polícia quer manter seu museu no local. Para o delegado Gilbert Stivanello, da Assessoria Especial para Assuntos Institucionais da Polícia Civil, é possível conciliar as propostas:

— Estamos tentando conseguir patrocínio para as obras no interior do prédio, estimadas em R$ 5 milhões.
Extraído do site do Jornal O Globo
Read more: http://oglobo.globo.com/rio/apreendidas-nos-anos-20-pecas-de-terreiros-de-candomble-vao-para-acervo-do-museu-da-policia-14137582#ixzz3FOFND4Cb

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *