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Awùre entrevista candidatos na reta final das eleições 2014

Por Sérgio d´Giyan | 03/10/2014 21:34

 

O Jornal Awùre enviou seis questões para serem respondidas pelos candidatos à Deputado Federal e Estadual pelo Estado do Rio de Janeiro que representam a religiosidade de matriz africana. São eles: Marcelo Monteiro, Átila Nunes, Átila Alexandre Nunes, Luiz Eduardo Negrogun, Edelzuita d´Osogiyan e Sancler Mello, Gina Almeida.

Até o momento do fechamento dessa edição somente a candidata Gina de Almeida havia encaminhado suas respostas, os outros candidatos não responderam e os não citados aqui não foram convidados para participar da entrevista.

 

As perguntas:

1ª – Sr. candidato, recentes casos de intolerância religiosa vieram à tona, um dos principais casos foi o do incêndio provocado num terreiro de candomblé em Duque de Caxias, e o de um aluno da rede municipal que foi barrado por estar portando paramentos de sua religião. O Jornal Awùre e seus leitores gostariam de saber como o senhor pretende combater esse absurdo contra a Constituição, contra o direito da livre exercício da democracia e da liberdade religiosa.

GINA ALMEIDA – As liberdades de expressão e de culto são asseguradas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e pela Constituição Federal. Em nosso país considera-se crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões, temos que garantir os direitos civis. A saída é uma só: a conscientização da lei, o conhecimento dos direitos, organização e sobretudo, uma união. Com relação ao caso do menino Rian, a educação é direito de todos, universal e laica. A intolerância religiosa precisa ser tratada com mais seriedade no Brasil, aja visto que precisamos unir forças através de parcerias onde haverá um fortalecimento dos direitos da minoria. Temos que em primeiro lugar nos conscientizar que nós adeptos das religiões de matrizes africanas, precisamos ser tolerantes diante de nós mesmo. A intolerância religiosa é um crime inafiançável, porém precisamos de representantes nossos na bancada política, já que o Estado é omisso. Sendo assim, é possível que tenhamos mais rigor nesta que a cada dia nos agride e nos exclui da sociedade.

 

2ª – Algumas comunidades de terreiro praticam algumas ações de responsabilidade social, como dar garantias a essas casas que com poucos recursos garantem e/ou pretendem garantir ações de cidadania à seus vizinhos. Muitas ainda precisam ser legalizadas, entenda-se que legalizar uma casa de santo, acarretam investimentos que são difíceis de serem aplicadas, como a contratação de um contador, custos cartoriais, etc. Como o candidato pretende buscar e quais os meios serão colhidos para atender a essa demanda?

GINA ALMEIDA – Somos adeptos de uma Religião e não Seita como falam por ai, muito rica de cultura, encantamento e aprendizado. Vejo o Turismo como o maior arrecadador de investimentos e recursos para um Estado. Muitos países apostam nesse meio como fonte de renda, como é o caso de Israel. Só em 2012, 60 mil brasileiros viajaram para Jerusalém, em busca do Turismo Religioso. Vivemos em um país plural, multicultural. Por que não investirmos neste setor aqui mesmo em nosso país ou estado? Como eu já citei, a união faz a força, temos que buscar parcerias, visando a implementação das casas de candomblé e da umbanda, a inclusão dessas casas nos roteiros turísticos, o reconhecimento de casas como patrimônio histórico e cultural, a inserção de projetos como realização de eventos, feiras, apresentação de nossa gastronomia, palestras, história do samba e do carnaval ligados a cultura afro… Enfim, o candomblé e a umbanda, voltados também para o turista, com a preservação de nossas raízes. A criação de cursos profissionalizantes não só de matriz africana, entre outros, ostensivo para as comunidades. Tudo isso parte de um planejamento, estudo das áreas, revitalização e etc. Acredito que assim, poderemos preservar a memória cultural e atender as necessidades das casas de candomblé e da umbanda.

 

3ª – Sr. Candidato, sabemos que toda candidatura requer uma plataforma de compromissos com seus eleitores e que serão alcançados ao longo do mandato ao cargo pleiteado. O Jornal Awùre gostaria que suas reinvindicações fossem apresentadas aos nossos leitores em poucas e breves linhas.

GINA ALMEIDA – Eu, Mãe Gina de Iansã, firmo aqui o compromisso com o meu povo, de que lutarei Contra a Intolerância Religiosa e Homofobia, a Favor dos Direitos da Mulher. Quero um basta neste quadro, onde nós adeptos de religiões de matrizes africanas, somos a minoria e vistos como marginais. Sonho com o nosso Direito de cidadãos comuns. Somos pertencentes da religião mais antiga do mundo e que na qual por todos esses anos fôra alvo de perseguissões, ocasionando dor, morte e sofrimento. Temos o direito de ir e vir, o livre arbítrio e exijo Respeito! Com relação à comunidade LGBT, a cada 28 horas por dia, um homossexual é morto em nosso país, vítimas de ações homofóbicas. Defendo o casamento igualitário, a fim de fornecer a dignidade e preservar a família, o amor, haja vista também a adoção de crianças para casais gays. Projetos de inserção da comunidade LGBT ao mercado de trabalho, a saúde e etc. Os Direitos da Mulher no geral. A cada 12 segundos, uma mulher, adolescente ou criança é estuprada no Brasil. A Lei Maria da Penha é boa, porém ela precisa de emendas, apresentando rigor e mais segurança a vítima. Muitas mulheres não têm acesso a exames preventivos, mamografia, já que os hospitais não atendem a demanda. Por que o Estado não investe na capacitação de profissionais para a realização desses exames, já que no Brasil têm aparelhos entregues as traças? Centenas de mulheres morrem nas filas, vítimas de câncer à espera de um atendimento digno. Precisamos legalizar e dar cidadania as prostitutas, visando também o fim do tráfico humano. As mães saem para trabalhar e não têm com quem deixar seus filhos, faltam crechês.

 

4ª – Sr. Candidato, durante o processo eleitoral, nas entrevistas e debates realizados nos diversos veículos de comunicação, e até mesmo na exibição das propagandas do horário eleitoral, pouco se falou nas questões que envolvem as religiões de matriz africana e seus adeptos. Na sua percepção, quais dos candidatos a Presidência da República e a Governador do Estado do Rio de Janeiro são comprometidos com a liberdade de culto das religiões afro-brasileiras?

GINA ALMEIDA – Sabemos que no Brasil, existe um fundamentalismo religioso, onde consiste uma grande influência nas políticas públicas. Junto a presidente Dilma Rousseff, há o Estatuto da Igualdade Racial, onde alteram os mecanismos já existentes na Constituição referentes à discriminação de raça, crimes de ódio e exclusão social. Busca efetivar a igualdade de oportunidades da população negra, defender os direitos étnicos individuais e combater formas de intolerância étnica, procurando difundir o respeito às religiões de matriz africana. Precisamos realmente de líderes na bancada. E com relação ao governo do Estado, fui convidada para a militância pelo PR do então candidato, Sr. Anthony Garotinho. Porém, preferi migrar para o PT do B, que não é evangélico, mas é coligado ao Partido Republicano. Como todos sabem o Sr. Deputado Garotinho é cristão. Aceitei o convite sim, pois diante de tudo que vivênciei ao longo de minha trajetória no candomblé, estou certa de que tenho uma missão a ser cumprida, que é e sempre foi lutar pelo meu povo. Cultuamos o amor, a natureza, a humildade. Então, com toda a minha fé e esperança de dias melhores, vejo a minha candidatura, como um desafio, um grito de alerta e um grande salto para a história de nossa religião, já que eu, uma Doné fui convidada a entrar em um partido de maioria evangélica. Precisamos meus irmãos, lutar para obtermos a paz e os nossos direitos, precisamos de garantias de que o nosso legado será mantido, e rogo a minha Mãe Iansã pela união dos povos e o fim de qualquer tipo de preconceito.

 

5ª – A aprovação da Lei Federal 10.639/03 modificou a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) ao instituir a obrigatoriedade dos sistemas de ensinos municipal, estadual e federal que precisam incluir aulas sobre questões étnico-culturais em seus currículos. Antes da aprovação da lei, alguns municípios, de outros estados já haviam incluído em seu currículo o estudo das relações étnico-culturais ou raciais. No entanto, a promulgação da lei, embora represente um avanço no sentido da promoção da igualdade racial, infelizmente, não garante sua realização. Durante seu mandato, qual será a sua contribuição para a aplicação da Lei 10.639 no sistema de ensino?

GINA ALMEIDA – O que me choca, é o fato de que o preconceito ainda persiste em nosso país, que é plural, de etnias, de cultura… A lei 10.639, promulgada em 2003, foi criada justamente com o intuito de valorizar as raízes africanas do país e superar o racismo. Em meu mandato, realizarei cursos de capacitação de professores para que estejam aptos a oferecerem aulas de cultura afro-brasileira, realizarei investimentos para a inclusão de livros didáticos com esse tema e trabalhos de conscientização a todos, onde se entende que não haverá espaço para nenhum tipo de preconceito.

 

6ª – Considerações finais do candidato.

GINA ALMEIDA – Meus queridos amigos, Eu, Mãe Gina de Iansã, candidata a deputada estadual pelo PT do B, n° 70.779, decidi entrar para a política, pois vejo como uma missão recebida por Deus e os Orixás a fim de lutar por tudo aquilo que acredito, pois apesar dos tropeços que eu como ser humano passei, ainda tenho muita fé em meu coração! Fé esta que pulsa em minhas veias e que me faz sentir uma reunião de sentimentos, tais como amor, indignação, revolta… passamos por transformações, mas ainda falta muita, muita coisa! Tenho recebido muitas manifestações de carinho e algumas críticas por fazer parte de um partido Coligado aos Evangélicos… lembram das transformações que acabei de relatar? Vejo esse convite para a militância, como um grande passo dado a nossa Religião, pois acredito e rezo, torço pela união dos povos, pela paz! É esse legado que quero deixar para os meus filhos, netos… temos que ser visionários nesse momento, pois o que será de nossos herdeiros, de nossa essência e raízes, nossa ancestralidade que nas quais deram todo o sangue e suor para chegarmos até aqui? Levanto aqui essa questão, pois ainda somos discriminados! A Intolerância Religiosa se faz presente gritando pela Misericórdia Divina aos quatro cantos do mundo e nós candomblecistas, umbandistas, espíritas, exotéricos, não temos representação alguma no governo! Relato aqui que durante esse período de campanha, venho sofrendo Preconceito Religioso e estou sentindo na pele aquilo que para nós que somos a minoria, se estende por longos e dolorosos anos! Conto com todos vocês no dia 05/10/2014, é chegada a hora da renovação! Estamos TODOS JUNTOS E MISTURADOS! DEUS É UM SÓ… Kolofé…

Mais informações sobre os candidatos, acesse a página do Awùre / Eleições 2014

http://awure.jor.br/home/?page_id=3462

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About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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