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Baiano Ayrson Heráclito disputa prêmio de arte em Portugal

Eduarda Uzêda | Dom, 09/08/2015 às 21:00

 

 

 

 

Divulgação Artista baiano ressignifica ritual de purificação
Divulgação
Artista baiano ressignifica ritual de purificação

O baiano Ayrson Heráclito, artista visual, curador, doutorando em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, foi o único brasileiro selecionado para o NOVO BANCO Photo 2015, o mais importante prêmio de arte contemporânea realizado em Portugal.

Heráclito, que vem tendo grande reconhecimento internacional, desde junho (e até 11 de outubro) apresenta trabalho inédito no Museu Berardo, o principal de Portugal,  junto com apenas  dois outros artistas selecionados: Ângela Ferreira (Lisboa) e Edson Chagas (Luanda).

O  trabalho de Heráclito, que reflete tanto sobre colonialismo, escravidão e religiões afro-brasileira, apresenta dois dípticos (um, em vídeo,  e outro em fotografias). Um conjunto concerne à  Maison des Esclaves em  Gorée, no Senegal,  e o  outro, à Casa da Torre  (Castelo Garcia D’Ávila, Mata de São João, na Bahia) Sacudimento.

A  relação com as culturas africanas é manifestada nos três  trabalhos, mas   Heráclito, que é  professor do curso de Artes Visuais do Centro de Artes Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB),  apresenta  nos dois lugares emblemáticos de práticas escravistas  “e de passado de dor e desrespeito total à humanidade” um ritual de sacudimento (no culto afro é feito pelo povo de santo com folhas), também chamado ritual de purificação.

“São oito fotografias e dois vídeos que mostram este ritual realizados com folhas gun (quentes)   para livrar os eguns (espírito dos mortos)  e para debelar, dispersar  as energias ruins acumuladas ou estagnadas”, afirma o artista.

Não só isto. Heráclito explica que neste  trabalho “o  sacudimento ou  batimento de folhas  quer, na verdade,  afastar as consequências nefastas  e atualíssimas,   no Brasil e  na África, da  história da colonização e da escravização”,  obra que mereceu elogios do jornal francês Le Monde, que frisou que este era o trabalho mais completo dos três  expostos.

Ayrson Heráclito conta que nos dois locais encontrou, na frente das casas, árvores sagradas. Na Casa da Torre, há, nas ruínas, uma gigantesca gameleira  e, em Gorée, um grande baobá – ambas estão associadas à ideia de  passagem e de transposição.

Grande chance

Se na primeira fase do prêmio português, cada um dos artistas recebeu uma bolsa para a produção da mostra,  no próximo  mês, um  júri de composição internacional, com nacionalidades distintas  das dos artistas  escolhidos, elegerá, a partir da exposição efetuada no Museu Coleção Berardo, o vencedor  do prêmio NOVO BANCO Photo 2015. O agraciado receberá 40 mil euros.

Ayrson Heráclito, que tem  obras que transitam pela instalação, performance, fotografia e audiovisual, lidando, com frequência, com elementos da cultura afro-brasileira,  não surpreenderá se for o grande vencedor deste prêmio. Até porque ele sabe do que trata no universo de suas obras.

Pesquisador nato, é ogã de um terreiro de nação jeje, de Mapele. Com orgulho diz que é neto da família de Gaiaku Luiza (uma das mais importantes sacerdotisas das chamadas religiões de matriz africana, que faleceu em 2005).

Talento, criatividade e sobretudo, originalidade, o artista, nascido há 47 anos em Macaúbas, filho de Lourdes , historiadora, e Alberto, militar,  tem de sobra. Nos trabalhos de Heráclito encontramos dendê, charque, açúcar, peixe, entre outros elementos  da culinária.

Com outras exposições agendadas em Viena, Mali e Brasil (entre elas o elogiado Bo ri, que apresenta oferendas de culto afro nas cabeças), Ayrson Heráclito demonstra que é um artista singular conectado com seu tempo,  mas que preserva a memória de ancestrais.

 

 

Extraído do site do jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/cultura/noticias/1702712-baiano-ayrson-heraclito-disputa-premio-de-arte-em-portugal

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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