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Balaio de Ideias: A cozinha de Jorge Amado

postado por Cleidiana Ramos @ 6:36 PM

20 de novembro de 2015

 

 

Elementos para trabalhar com a fantástica cozinha baiana são variados. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE Gildeci de Oliveira Leite
Elementos para trabalhar com a fantástica cozinha baiana são variados. Foto: Marco Aurélio Martins/ Ag. A TARDE
Gildeci de Oliveira Leite

A comida na obra de Jorge Amado representa identidades que o autor quer fazer aparecer. O romance Dona Flor e Seus Dois Maridos é o mais culinário dos livros amadianos. A obra tem como protagonista uma baiana com características africanas, ameríndias e europeias. Florípedes ou Dona Flor é cozinheira e professora de culinária. A relação de Flor com a cozinha pode ser comparada à relação das Baianas do Acarajé com o tabuleiro e também às Iabassês com o Axé, cozinheiras sagradas dos candomblés.

Assim como as Baianas do Acarajé, Flor consegue a sua independência financeira através da cozinha. Com o primeiro marido, Vadinho, é obrigada a sustentar a casa. Com o segundo marido, filho de Oxalá, músico erudito, que toca fagote, instrumento que lembra o opaxorô ou cajado de Oxalá, não há necessidade de sustentar a casa. As economias de Flor, entretanto, garantem a casa própria, quando casada com Teodoro.

Em alguns candomblés, atribui-se a Oxum o matronato sobre a cozinha, Dona Flor é filha de Oxum. Assim como nos tabuleiros de Acarajé e nos candomblés, o sentido de cozinha no romance não é associado à subserviência, mas à autoridade conferida àquela que tem o poder de manipular os temperos e conquistar outro. No candomblé, a energia de quem cozinha pode determinar parte da energia do Axé. Em “Dona Flor” a sua comida conquista diversos segmentos sociais. As camadas mais abastadas da sociedade a convidam para as festas. Sobre isso, Manuel Querino fala do costume de chamar o cozinheiro ou cozinheira à sala para receber os agradecimentos e os “vivas”. No caso de Dona Flor, não era um chamamento provisório à sala. Ela fazia parte das festas, tendo como suas alunas na escola de culinária “Sabor e Arte” moças ricas. O nome da escola, por sugestão de Vadinho, filho de Exu, pode ser lido “saborearte”.

Flor conhecia a cozinha afro-baiana e a comida europeia da Bahia. Jorge Amado deixa clara a convivência em complementaridade das duas cozinhas. Através do personagem Mirandão, afirma que entre as comidas, a de dendê é a nossa principal identidade.

Em um caruru de Ibejis na casa de um Major, que por graça alcançada, referente à saúde da esposa, cumpria a promessa anualmente, a importância do azeite é revelada. No evento, além do caruru, para contemplar outros gostos, havia outras comidas que não as de dendê. Mirandão, filho de Xangô, em uma cena memorável e aparentemente despretensiosa, de boca cheia, diz que brutos são aqueles que não gostam de azeite de dendê.

Há uma inversão dos valores propagados pela parcela racista da sociedade, pois a comida de maior valor passa a ser a comida negra. Brincando, Jorge Amado diz o que pensa e demonstra seu compromisso com a cultura negra. Afinal, azeite de dendê não é óleo de maquina.

 Gildeci de Oliveira Leite, mestre em Letras e professor de literatura baiana na Uneb 

 

Extraído do Blog Mundo Afro, suplemento do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://mundoafro.atarde.uol.com.br/balaio-de-ideias-a-cozinha-de-jorge-amado/

 

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About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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