Breaking News

Balaio de Ideias: Uma crônica para Marlon Marcos: neo-cronista do candomblé

postado por Cleidiana Ramos @ 2:13 PM

24 de abril de 2014

Cláudio Luiz Pereira

Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação
Lançamento de Sob a Égide das Águas será amanhã, das 18h30 às 21 horas, na Katuka. Foto: Divulgação

 

É com júbilo imenso que recebi e li o livro Sob a égide das águas (Editora Kawo Kabiyesile, 2014) de Marlon Marcos Vieira Passos. Posso dizer a propósito do autor que é um homem único e, ao mesmo tempo, paradoxalmente múltiplo. Aqui e acolá, ele está em trânsito entre muitos mundos. Está sempre entre as coisas, é um elo, é ele o “e” do vai-e-vem. E sim, ele trafega o mundo da poesia, do jornalismo, da antropologia. E, como não, o mundo do candomblé, que é aquilo lhes dá força e equilíbrio, e onde ele encontra achego, afetos e aconchegos.

Como poeta suas virtudes são muitas e extraordinárias. Como bom prestidigitador seria capaz de erigir a água de um copo em uma tempestade intempestiva, ao que se seguiria uma carreada de raios e trovões verbais. Típico daqueles que tem uma opinião forte frente a tudo, e frente a qualquer coisa. No seu entre mundo a oralidade não é uma qualidade anódina. Mas sua poesia está escrita, também publicada amiúde, e é reveladora da sua veia espirituosa e, mais que isto, de sua espiritualidade. Na sua poesia ele aparece na completa nudez daqueles que só precisam do abrigo das palavras.

Como jornalista é um participativo contribuinte da crítica da cultura baiana. É defensor de suas devoções intimas. Gosta do velho, mas com o novo se compraz. Mas não é justamente o novo e o velho que separam a qualidade da circunstância em que ele se insere. Ele sempre está presente, seja lá onde for, seja a hora que der, seja como tiver de ser. Ele está tanto no espetáculo Cult, de algum artista quase subterrâneo, quanto no camarim do mais charmoso e chique dos mais cultuados dos mortais…

Como antropólogo é um aprendiz de feiticeiro. E a esta altura dos fatos ele, tão claramente quanto o Quesalid Lévi-straussiano, já sabe quão valioso e  mágico é este conhecimento que ele retém. Querer ser antropólogo é um encanto raro, que só toca profundo naqueles que são capazes da renúncia e da entrega como proezas. A verdadeira antropologia, sabe Marlon Marcos, é intestina e visceral, é uma espécie de embriaguez dilacerante, discursiva e textual, é uma obsessão sem cura, um eterno abismar-se consigo mesmo. Ao discernir algo em torno desta soberba abstração do que é o humano, nos explicamos a nós mesmos, mais que tudo.

*

Acredito que algumas palavras mais podem ser ditas para realçar a importância do livro que no momento Marlon Marcos disponibiliza para seus leitores. Em primeiro lugar é preciso notar que o autor reúne boa parte de seus escritos jornalísticos dedicado ao candomblé e, como tal, demonstra aqui quão informado ele está nos temas e problemas concernente a esta religião. Neste sentido, é preciso notar que são textos públicos, veiculados por importante jornal baiano – A TARDE, e que se traduzem em diálogo com o campo onde ele desenvolve suas pesquisas antropológicas. São crônicas, conforme o próprio autor esclarece, e, como tais, articulam o jornalismo e a poesia, e também a antropologia, que a esta altura tornou-se seu mister preferencial.

Sabemos que o autor está credenciado para sua obra. Está possuído, portanto, deste ímpeto que permite ver esta religião de um ponto de vista êmico, interno, intrínseco. Ele vê o que o candomblé tem de mais vibrante (a experiência do êxtase, da devoção, do axé, tudo que se resguarda na contingência dos segredos, dos interditos, do indizível) e, também, o que nele há de mais prosaico.

Assim sendo, tece o fio da memória dos cultos, das narrativas e das estórias, das trajetórias e dos itinerários, das famas, das lidas e das vidas. Faz mesura diante da lembrança dos que se foram e se posta diante da presença dos que cá estão. Escrevendo sobre eles o autor sabe que servirá de semente aos tantos que virão.

É assim, com esta incrível sensibilidade, que Marlon Marcos trata das mulheres que povoam este universo afro-brasileiro. São todas divas, divindades, entidades, deidades. Chamam-se Marias, ou Stelas, ou Zulmiras, ou Carmélias, ou Luizas e a suas designações de batismo se incorporam seus nomes de santo. São de Nanã, de Oxaguian, de Oxóssi… Todas elas mães guerreiras… mães de todo mundo, mães de uma humanidade que delas tanto carece.

E, mais que isto, o que se vê no livro, é o passar dos anos, entre 2007 e 2013, e tudo que vai acontecendo ao povo de santo. As mortes e os passamentos, a religião como fato da polis, as muitas dinâmicas com que o tempo corre e tudo devora. Escreve sobre as diversas nações, e as ações dos homens, também diversas. Através destes homens ele vislumbra os sonhos, as festas, as celebrações, as conquistas, os embates. E, como não, os debates que ele tanto acompanha quanto participa com interesse entusiasmado.

Conclusivamente, enquanto crônicas, os textos de Sob a égide das águas falam sempre de um tempo presente, e, desse modo, falam também de tudo que permanecerá eterno no mundo do Candomblé, para todo o sempre, e sempre… Axé, Marlon Marcos!

 

Cláudio Luiz Pereira é doutor em antropologia e diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Ufba

 

Serviço

Evento:  Lançamento do livro Sob a égide das águas, escritos jornalísticos sobre candomblé

Autor: Marlon Marcos

Editora: Kawo- Kabiyesile

Dia: 25 de abril, das 18:30  às 21 horas

Local: Katuka- mercado negro// 71 – 3321-0151

Preço sugerido: $ 20,00

Tags: candombléClaudio Luiz PereiraKatukaMarlon MarcosorixásSob a Égide das Águas

– See more at: http://mundoafro.atarde.uol.com.br/?p=5462#sthash.tszqXCFv.dpuf

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *