Breaking News

Bancadas evangélicas abrem guerra contra peça de teatro

Deputados e vereadores propõem repúdio a espetáculo que satiriza relação entre política e religião

02/06/16 às 00:00 – Atualizado às 12:00 Ivan Santos

 

Mara Lima: personagem “Nara Lira” seria “ofensa” (foto: Franklin de Freitas)
Mara Lima: personagem “Nara Lira” seria “ofensa” (foto: Franklin de Freitas)

Uma peça de teatro intitulada “Porno Gospel” que se propõe a satirizar as relações entre religião, política e sexo no Brasil atual se tornou o novo “cavalo de batalha” das bancadas evangélicas na Assembleia Legislativa e Câmara Municipal de Curitiba. Ontem, a deputada estadual e cantora gospel Mara Lima (PSDB) apresentou uma moção de repúdio, com o apoio de outros sete parlamentares, acusando o espetáculo de promover a “intolerância religiosa”. Na véspera, treze vereadores da Capital fizeram o mesmo. A votação de ambos acabou adiada para a semana que vem.

A peça, que está sendo apresentada desde o dia 19 de maio, em temporada que vai até o próximo domingo, no mini-teatro Guaíra, é produzida pelos grupos independentes A Fantástica Cia de Teatro, Serafim Cia. Teatral, Companhia de Variedades e Cia Variedades Produções Artísticas. A história se passa em uma cidade fictícia chamada “Paradise City”, que segundo os autores, liderada pela Igreja Missionária do Senhor do Pastor Jair Malagaia e da cantora gospel “Nara Lira”.
Na segunda-feira, treze vereadores da Câmara assinaram requerimento em repúdio à peça, defendendo a sua proibição. Na sessão de ontem da Assembleia, a deputada Mara Lima apresentou requerimento com argumentos semelhantes. Na justificativa do pedido, os deputados alegam que “pelo próprio nome”, a peça “já carrega o caráter ofensivo conotado de intolerância religiosa e discriminação motivada em função do credo”. Eles afirmam ainda que “nas entrelinhas da sinopse da peça, ressalta-se a prática da violência simbólica, caracterizada pelo constrangimento e exposição vexatória de pessoas baseado na crença”. Os parlamentares apresentaram outro requerimento, pedindo informações à Secretaria de Cultura, sobre se o espetáculo teria recebido algum tipo de incentivo público.

A deputada Mara Lima alegou ainda aos colegas ter se sentido ofendida pelo enredo da peça, que inclui uma personagem de nome “Nara Lira”, definida como uma “cantora gospel e dona de uma rede de lojas de produtos do Senhor (livros, cds, camisetas, presentes…), e agora lançando no mercado, uma linha de produtos eróticos, feita especialmente para crentes”.
Promoção – No caso da Câmara, o requerimento não chegou a ser votado por falta de tempo. Na Assembleia, a própria Mara Lima retirou a proposta de pauta a pedido do líder do governo, deputado Luiz Cláudio Romanelli (PSDB). Ele argumentou que seria melhor esperar a resposta da secretaria ao pedido de informações. Apesar do adiamento, o líder governista defendeu a aprovação do requerimento. “Com certeza a moção será aprovada porque é muito grave o que ela repudia”, alegou. “Pelo que eu ouvi a peça veicula de forma grotesta um ataque a uma parlamentar”, explicou.
O deputado Tadeu Veneri (PT) criticou a iniciativa. “Na verdade estão promovendo a peça. Quando alguém faz uma peça, faz para quem quiser assistir”, defendeu.

Ficção – Fernando Cardoso, um dos produtores do espetáculo, nega qualquer intenção de ofensa à religiões ou ao segmento evangélico. “Na peça, não há qualquer menção ao evangelho ou a Cristo. Simplesmente pegamos reportagens sobre acontecimentos dos últimos anos para fazer uma ficção baseada em fatos reais”, diz. “Eu inclusive sou evangélico”, conta, relatando ainda que sua mãe é ministra da Igreja do Evangelho Quadrangular. “Falam tanto em intolerância, mas quem está sendo intolerante são eles”, critica o produtor, confirmando que o grupo tem sido alvo de ameaças pelas redes sociais. Sobre a personagem “Nara Lira”, ele nega relação direta com a deputada. “A peça é uma sátira que usa referências para buscar identificação com o público”. Ele explica ainda que o trabalho é uma produção independente, bancada por financiamento coletivo, sem uso de recursos públicos. A única relação com a Secretaria de Cultura é pelo fato do espetáculo estar sendo apresentado no teatro Guaíra, a partir de um edital de ocupação do espaço.
Sobre o nome da peça, Cardoso conta que foi inspirado em notícias reais de jornais brasileiros sobre o lançamento de produtos eróticos voltados para o público evangélico, que podem ser encontradas por qualquer um em uma simples busca na internet.

 

Extraído do site de notícias Bem Paraná / Curitiba – PR
https://www.bemparana.com.br/noticia/446684/bancadas-evangelicas-abrem-guerra-contra-peca-de-teatro

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *