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Braga: ‘Sou criança em relação a esse mundo milenar’

 

Cleidiana Ramos | Seg, 26/01/2015 às 10:27 | Atualizado em: 26/01/2015 às 10:31

 

 

 

 

Fernando Vivas | Ag. A TARDE Julio Braga prepara uma coletânea de poemas que publica no Facebook
Fernando Vivas | Ag. A TARDE
Julio Braga prepara uma coletânea de poemas que publica no Facebook

Os 42 anos da experiência de magistério em universidades como a Federal da Bahia, a Estadual de Feira de Santana e a Nacional do Zaire forjaram o discurso envolvente de Julio Braga, 72. Doutor em antropologia e babalorixá, ele domina o código acadêmico, mas também o da oralidade cheia de sabedoria das religiões afro-brasileiras. Transitar entre esses dois mundos parece confortável para o autor de 11 livros, dentre os quais  Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens,  com lançamento previsto para o dia 7 de fevereiro, na biblioteca pública de Itaparica. Além desse, Julio Braga já prepara uma coletânea de poemas que divide com amigos do Facebook e que chama de  “prosemas”, misturando poesia e a prosa em que é mestre.   Para perceber isso, basta ouvi-lo narrar a aventura da primeira viagem internacional para Dakar, Senegal, onde tomou  forma a melhor definição que encontrou para si mesmo: o antrópologo na encruzilhada, título de um dos seus livros.  Nessa entrevista, ele conta que, em sua trajetória, o estranhamento, próprio de quem vê a encruzilhada, não veio do povo de santo ter dentre os seus pares um homem da academia, mas, curiosamente, desta. “Eu  era professor e macumbeiro. Foi  difícil”.  Nada que curvasse um filho de Iansã, orixá a quem é consagrado, e de quem, em suas pesquisas, descobriu novas faces, como a da lealdade.

 

O senhor formou gerações de cientistas sociais. Aposentou-se após 42 anos de ensino na Ufba e Uefs, de onde saiu em 2010. Qual é a sensação de ficar longe da sala de aula?
É  uma sensação de perda. Mas eu  sou aposentado, inativo nunca (risos). Tenho um candomblé, o Terreiro Axeloiá, que me dá prazer em administrar. Além disso, continuo minhas pesquisas e  já estou com o  livro   Candomblé: a cidade das mulheres e dos homens pronto. Ele será lançado dia 7, em Itaparica. Esse livro objetiva um foco distinto do  trabalho de Ruth Landes (A Cidade das Mulheres), mas a ele não se opõe. Pelo contrário, procura verificar em que medida, ao lado das mulheres, os homens contribuíram para manter e consolidar as religiões afro-brasileiras na Bahia. Andei também  fazendo umas tentativas poéticas no Facebook, que chamo de “prosemas”. Esse é o título da coletânea que vai trazer  50  desses textos.    Ela deve sair no primeiro semestre desse ano ao lado do livro  Dá-me licença aí Sereiá – A pesca de xaréu na Bahia.

O senhor participou de um período  rico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFCH) da Ufba. Conviveu com personalidades como Pedro Agostinho, Vivaldo da Costa Lima.
Entrei na universidade muito jovem. Primeiro, eu fiz filosofia. No meu  terceiro ano como estudante da Ufba, o Ceao (Centro de Estudos Afro-Orientais) resolveu, em 1963-1964,  retomar os estudos afro-brasileiros, numa perspectiva antropológica mais elaborada a partir de pesquisa de campo extremamente cuidadosa do ponto de vista metodológico. E eu entrei nessa plêiade de grandes nomes como pesquisador. Dez dias depois de terminar a licenciatura, fui morar na África. Viajei em 1967.

Qual foi o seu primeiro destino?
Fui para Dakar, no Senegal. Não sabia falar  francês e enfrentei minha primeira viagem de avião. Embarquei para o Rio , de onde o voo sairia. Mas aí o avião quebrou e nós fomos levados para o Hotel Glória. Imagine eu, pobre, instalado naquele hotel. Quando seguimos viagem,  ocorreu  uma escala na Libéria, onde estava acontecendo um golpe de Estado, e nos levaram para um hotel com escolta policial. Finalmente, cheguei a Dakar. O problema é que a pessoa que ficou de me esperar aguardava meu desembarque para dias antes. Como disse, não falava francês. Aí, como bom retirante, sentei na mala porque assim não tinha como ninguém roubá-la. De madrugada, chegou um avião de Buenos Aires onde vinha um francês que era professor da Universidade de Dakar, para onde eu havia sido enviado. Ele me levou para o campus da universidade.  Tempos depois,  Pierre Verger, que regularmente ia à África, apareceu por lá e me convenceu a ir para o Benim.

Foi onde começaram suas pesquisas?
Eu tinha começado uma pesquisa no Senegal, mas por sugestão de Verger, fui para Cotonou, no Benim, e depois  Porto Novo, que fica na fronteira  com a Nigéria. Mas aí Verger, que tinha me recebido lá, teve que viajar e fiquei um pouco isolado.  Aí aconteceram coisas que redefiniram meu projeto existencial.  A primeira é que tive  malária e perdi 25 quilos. Além disso, namorava uma mulher extraordinária e muito inteligente. Eu a acompanhava em suas pesquisas , mas aí aconteceu um acidente trágico. Uma criança atravessou de bicicleta na frente do carro dela. Foi terrível. Ela teve que ir embora e  sofreu muito com isso. Aí conheci uma pessoa que  me disse para me cuidar espiritualmente.  Verger voltou  e fui passar um tempo na casa dele em Sakatê (região entre Nigéria e Benim). Então um  sacerdote disse que eu tinha que fazer  a obrigação  “de cabeça” e outra como ojé, que é aquela que dá o título a quem passou pela última etapa iniciática ao culto  de  babá Egum, um espírito ancestral. E assim o fiz. Em 1968, foi a vez da minha obrigação de cabeça e Iansã veio para dizer que meu nome era Oyá Tundé, que significa “Iansã voltou”. Comecei minhas pesquisas sobre a religião dos orixás. Obviamente, já como filho de Iansã, me concentrei nas coisas desse orixá.  Foi assim que descobri que Iansã é um orixá das águas para descontentamento  de muita gente no Brasil (risos). Ela é a rainha do Rio Níger. A   históra maior de Iansã está entrelaçada com a travessia que ela faz do país nupé, atravessando o Rio Níger para se encontrar com Xangô no reino de Oyó.

Como foi para um  homem de ciência se tornar um sacerdote?
Vou contar uma história como os africanos fariam, que é paradigmática para explicar minhas  dificuldades. Eu me candidatei a diretor da faculdade (de Filosofia e Ciências Humanas), nos anos 80,  numa época  em que  professores, alunos e funcionários podiam votar.  O candidato  mais forte era o professor Mário Nascimento, que acabou se tornando o diretor porque eu  fui vítima de um jornalista, veja só. Ele estava fazendo matéria para um jornal da universidade. Mário Nascimento disse que, se fosse eleito, como era católico, mandaria celebrar uma missa. Eu disse que, como era de candomblé, iria  sacrificar dois galos na porteira da faculdade. Isso caiu como uma bomba. Eu fui eleito, mas a congregação não permitiu a minha posse.  Acho que isso é bem sintomático das dificuldades que são colocadas para uma pessoa que zelou  pela inteligência, pela interpretação das coisas etnológicas e, ao mesmo tempo, se entregou de corpo e alma, muito mais de alma, à religião afro-brasileira.  Havia escárnio a cada instante. Até o próprio departamento  era intolerante.

E do lado do povo de santo? Ninguém nunca lhe viu com desconfiança por ser um pesquisador ?
Nunca. Porque nunca perguntei nada a ninguém como antropólogo. Eu tive a felicidade de, ao voltar da África, ser recebido no Aganju, casa de Obaraín (nome sagrado do babalorixá Balbino Daniel de Pa