Campanha pede liberação de objetos que já foram considerados provas de crimes

 

Simone Candida – O Globo

Publicado em 11/06/17 04:30

 

R IO – Maria do Nascimento, mais conhecida como Mãe Meninazinha de Oxum, cresceu em casas de candomblé do Rio e sempre ouviu os mais velhos contarem que existia um lugar no Centro do Rio onde roupas de santo e uma infinidade de peças sagradas de religiões com matriz africana eram mantidas “aprisionadas”. Por serem consideradas provas de crimes pelo antigo Código Penal de 1890, que proibia a “prática do espiritismo, da magia e seus sortilégios”, no passado elas eram apreendidas em terreiros e guardadas na Repartição Central da Polícia, no prédio onde hoje funciona a sede da Polícia Civil.

Há dez anos, Mãe Meninazinha foi à instituição e encontrou, além de imagens, instrumentos musicais — como agogôs e atabaques —, cuias, búzios e palmatórias, tudo exposto no Museu da Polícia Civil. Recentemente, ela tentou repetir a experiência, mas descobriu que a exposição tinha sido desmontada, e boa parte do material está armazenado. Desde então, acalentando o sonho de ver tudo liberado, juntou-se a outras mães de santo, militantes do movimento negro, intelectuais e políticos na campanha “Libertem Nosso Sagrado”, lançada pela Comissão de Direito Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e que pode ser acompanhada na página www.facebook.com/libertenossosagrado.

A ideia do grupo, que pretende marcar uma visita ao edifício e, em seguida, uma audiência pública para discutir a situação de “prisão” do acervo, é que tudo seja transferido para um outro museu. São cerca de 200 objetos que foram integrados a um conjunto batizado de coleção “Magia Negra”, tombado em 1938 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, atual Iphan.

— Conversei com outros babalorixás e ialorixás e queremos tirar tudo de lá. São peças que fazem parte da historia de nossa religião — diz Mãe Meninazinha, de 79 anos, que desde 1972 está à frente de um dos mais tradicionais terreiros do estado, o Ilê Omolu Oxum, da nação Ketu, no bairro São Mateus, em São João de Meriti.

Incêndio teria destruído peças

Para o historiador Jorge Amilcar de Castro Santana, militante do movimento negro e um dos idealizados da campanha, o fato de as peças religiosas terem sido reunidas na coleção “Magia Negra” demonstra preconceito, que precisa ser reparado.

— Situação muito parecida acontecia no Museu da Polícia de Salvador, mas o movimento negro, junto com o Ministério Público, agiu e as imagens foram transferidas — diz Jorge Amilcar, que espera solução parecida para o Rio. — Eram 200 peças, mas em 1989 teve um incêndio no prédio e soube que 40 teriam sido destruídas. A Polícia Civil não dá informações. Estive lá na semana passada e vi que só 10% do acervo estão expostos, e num prédio anexo.

Fernando Sousa, aluno do curso de mestrado em ciências sociais da Uerj, conta que tentou ver e filmar o acervo em duas ocasiões, mas recebeu a mesma resposta da direção: o material não estava disponível para consulta, mas o catálogo, como fotos das peças, poderia ser consultado.

— Acho que esta postura, além de dificultar o trabalho acadêmico e cultural, contribui para que continue existindo desconhecimento sobre essas religiões — critica Fernando.

O deputado Flávio Serafini conta que foi procurado por líderes religiosos e, para entender o que estava ocorrendo, fez uma visita ao museu:

— O Estado Brasileiro já reconheceu que o racismo institucional foi um equívoco, então, ele precisa agora de uma medida de reparação.

No arquivo do Iphan, documentos com carimbo da Polícia do Distrito Federal, do Serviço de Tóxicos e Mistificações, listam objetos apreendidos, como uma imagem de São Jerônimo (Pai Xangô Ogodô), o homem de machado, do raio e do trovão e uma guia de Nanã-Buruquê (Sant’Ana).

Procurada, a Polícia Civil, responsável pelo museu, não respondeu às perguntas do GLOBO. Por meio de nota, a Superintendência do Iphan no Rio disse que “está buscando parcerias junto à Secretaria estadual de Cultura para catalogar o acervo e diagnosticar o estado das peças”. Ainda segundo o órgão, conforme vistoria em maio de 2016, a situação de acondicionamento “não era apropriada”.

 

Extraído do site do Jornal Extra on line / Rio de Janeiro  – RJ
https://extra.globo.com/noticias/rio/campanha-pede-liberacao-de-objetos-que-ja-foram-considerados-provas-de-crimes-21463275.html

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