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Cantos, batuques e danças de terreiro

Publicação: 25 de Julho de 2014 às 00:00 | Comentários: 0

 

Dácio Galvão [ daciogalvao@globo.com ]

Os cantos os pontos ou linhas oriundas de rituais da Jurema Sagrada carregam pertinência no substrato oral. Permeia o cancioneiro. Abre brechas no repertório exigente e sofisticado de músicos e cantores ocupantes de lugares destacados no cenário nacional.  O cantar catimbozeiro é de afirmação. Afirmação de poderes de mestres que habitam mundo transcendental. Trabalham manipulando ervas beberagem maracá cachimbo e  bacia. Trabalham para o bem e para o mal. Pessoas que morreram “desmaterializaram” e os espíritos continuam atuando em meio aos vivos. Os espíritos se anunciam cantando. Cada qual se traduzindo explicando. Se colocando. A jurema espinhenta muito comum no semiárido nordestino é metáfora da oliveira árvore de folhas largas. O Monte das Oliveiras situado em Jerusalém antigo é ícone para cristandade povos mulçumanos e judaicos. As comunidades de terreiros que cultuam umbanda candomblé e o rito juremeiro são cambiantes. Esse muito de base indígena. Da pajelança fazendo pontes recíprocas em plataformas religiosas africanas e europeias. Catimbó, portanto, não é umbanda nem candomblé. Se imbricam mas há limiares. Fronteiras. Delimitações. Também vértices. Convergências. Existe enorme preconceito instalado nos extratos dominantes da sociedade brasileira desfavorável a essa realidade religiosa. A partir do léxico. Do filológico. Do étimo. Catimbó é palavra que soa mal. Não para antropólogos estudiosos do assunto como o professor Luiz Assunção doutor pela Universidade de São Paulo – USP com tese sobre o tema. Ele diz: “A prática da Jurema nordestina, também conhecida como Catimbó, é parte de um longo processo de transformação e assimilações culturais que se difundem pela região, sendo encontrada nas comunidades indígenas e no interior de diferentes e religiões afro-brasileiras. A Jurema compõe um complexo de concepções e representações em torno da planta da jurema e se fundamenta no culto de possessão aos mestres…”

Na jurema não tem orixás. Tem Mestres. Tem Caboclos. O maior deles é o Mestre Carlos. O catador de lixo e agricultor de subsistência Pantico morador do Carcará entoou assim: “No pé da jurema preta / dois pitiguari cantou. / Um canta e outro responde / Mestre Carlos já chegou. / Mestre Carlos é bom mestre / que trabalhou sem se ensinar. / Passou três dias caído / Debaixo do Juremá!”. A cantora Mônica Salmaso e o percussionista Naná Vasconcelos fizeram no CD Toques & Cantares (mapeamento sonoro de Tibau do Sul) releitura de dois pontos que recolhemos do catimbozeiro Pantico do Carcará. O primeiro: “Eu te abalo o galho da jurema / eu te abalo galho por galho. / Tenha cuidado na semente da jurema, ai meu Mestre! / Que ela é verde se balança mas não cai.” E o segundo numa mesma faixa: “Eu sou Dona Benedita / sou uma mestra rainha / Eu sou D. Benedita da flor da jurema. / Se concentra meus irmãos / com a flor da jurema. / eu sou Dona Benedita do tronco da jurema”. Esse documento sonoro encampa jornadas de Drama, Lapinha, Farinhada, Faxina, Excelência, Romance, Toada de Boi de Reis, Bambelô…

Mário de Andrade autor do livro “Música de feitiçaria no Brasil” coletou aqui em Natal nos bairros do Alecrim e Rocas, na primeira metade do século passado, dezesseis linhas de Jurema. Anotou e as transcreveu em solfas partituras. Três delas foram para audição concertista. Agrupamos e gravamos no CD “Potiguar”: a parteira “mestra Faustina”. A protetora de embarcações “Mestra Laurinda”. E o ponto do espírito encantado dançarino “Mestre Pai Joaquim”. A essa trilogia juremeira chamamos de “Suíte Encantaria”. Foi regente o saudoso maestro Osvaldo D’amore tendo na execução a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte. Sob encomenda o arranjo sinfônico ficou a cargo do renomado maestro Gil Jardim. Arranjo percussivo por Naná Vasconcelos ganhador do Gammy Latino de música 2011, na categoria melhor álbum de raízes brasileiras – regional nativas. Vale salientar que dessa vez a oralidade ficou de fora.  As melodias é que foram absorvidas por questões de concepção artística. O disco tinha direção predominantemente instrumental.

As vozes dos juremeiros Geraldo Caboclo, Babá José Clementino, Geraldo Guedes, Babá Karol foto documentados por Assunção no encarte do CD “Pontos de Jurema” são eternos ecos desta tradição religiosa. Cultuam mesas e participam do registro fonográfico Jeová, Cleone Marcone, Claudinho, Melque, Rogério atuantes em terreiros de Natal. Mantenedores de ciência fina como diria Geraldo Caboclo cujo sincretismo provocou em Câmara Cascudo o “Meleagro – pesquisa do Catimbó e notas da magia Branca no Brasil”. Neste ensaio estão listados vários mestres: Tupã, Nanãgiê, Manicoré, Pinavaruçu, Canguruçu, Filipe Camarão…

De na voz poderosa e rascante a intérprete Maria Bethânia se apropriando de linha de jurema de domínio público fez sucesso na versão de “Cabocla Jurema”: “Cabocla seu penacho é verde / é da cor do mar. / É a cor da cabocla Jurema / Juremá. / Eu vou me banhar / lá nas águas claras / nas águas de Janaína / lá nas águas claras”. Nosso sambista maior Zeca Pagodinho não deixando por menos disparou: “Meu doce cambucá / minha flor cheirosa de alfazema / tem pena desse Caboclo. / O eu que te peço é tão pouco / Minha linda Cabocla Jurema…” É inconteste a resistência juremeira no plano religioso e acentuadamente na recepção estética por parte de artistas formadores de opinião. Eles transitam seus produtos criativos num estado laico e não hesitam na recriação de pontos de Jurema retirando-os dos terreiros e os propagando para a cultura massiva fomentadora de vastos territórios. Estes territórios sem transcendência. Será? Só Deus sabe. O que sabemos é que é salutar para retradicionalizar cantares no Brasil. Noutra ponta como exemplo: o canto gregoriano influenciou Milton Nascimento. Canto negro, barroco, mineiro. Pluralizar tribalizar tendências traz à tona o caldeamento cultural. Isso é fato.

 

Extraído do site Tribuna do Norte

http://tribunadonorte.com.br/noticia/cantos-batuques-e-dancas-de-terreiro-9/288650

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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