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Cemitérios podem ganhar áreas oficiais para cultos

Proposta da Santa Casa, feita após denúncia do DIA sobre proibição de entrada de adepta do candomblé em Ricardo de Albuquerque, divide opiniões

FRANCISCO EDSON ALVES | 05/12/2014 00:41:33 – Atualizada às 05/12/2014 00:49:44

 

Rio – Francisco Horta, novo provedor da Santa Casa de Misericórdia, ainda responsável pela administração dos cemitérios públicos do Rio, negou que tenha partido dele a orientação para que funcionários impeçam que adeptos de religiões de matrizes africanas façam cultos nos túmulos em homenagem a seus parentes, conforme O DIA publicou nesta quinta-feira com exclusividade. Ele argumentou, porém, que é preciso “haver regras”, adiantando que vai propor aos administradores a polêmica criação de espaços reservados para rituais religiosos, sobretudo para os seguidores de umbanda e candomblé.

 

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Oferendas em um cruzeiro no Cemitério do Caju: Santa Casa da Misericórdia diz que não há orientação para proibir realização de cultos afro Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

“Essa ordem não partiu da provedoria. Foi uma atitude intempestiva e impensada de alguns administradores, que têm autonomia, mas pensaram só nos seus cemitérios e não na instituição (Santa Casa) como um todo”, afirmou Horta. “Mas é razoável, depois de 432 anos de administração dos cemitérios, propor uma discussão com eles (administradores) para a criação de locais adequados, onde os religiosos possam ter acesso sem sofrer nenhum tipo de discriminação”, justificou o provedor.

 

No dia 30, a mãe de santo Rosiane Rodrigues, de 42 anos, adepta do Candomblé, que postou vídeo em seu perfil na rede social para provar a denúncia, foi barrada por um funcionário no portão do Cemitério de Ricardo de Albuquerque.

 

Em companhia de duas filhas, ela ia fazer uma oferenda, levando comidas caseiras, frutas, canjica, pipoca, velas e refrigerantes, nos jazigos perpétuos de seus avós e da mãe, enterrados lá desde 1950. “O funcionário, que não tem culpa, trancou o portão e nos impediu de entrar. Foi muito constrangedor”, lembra Rosiane. Ela acende nova polêmica, ao discordar da proposta de Francisco Horta.

 

“Querem nos segregar? Transformar espaços em guetos de macumbeiros para sermos ainda mais alvo da intolerância religiosa?”, desabafou Rosiane, ressaltando que umbandistas e candomblecistas sempre fazem suas oferendas encruzilhadas, cruzeiros e em alguns jazigos perpétuos. Nesta quinta, ela recebeu centenas de homenagens e apoios pessoalmente e pela internet.

 

Já Ana Paula Miranda, antropóloga e professora da Universidade Federal Fluminense, pesquisadora da cultura negra, acha a delimitação de espaços para os religiosos positiva. “É uma iniciativa bastante louvável, pois é uma forma de assegurar a prática de rituais em pontos sagrados”, opinou.

 

 

Rosiane Rodrigues foi impedida de entrar em Ricardo de Albuquerque Foto:  Estefan Radovicz / Agência O Dia
Rosiane Rodrigues foi impedida de entrar em Ricardo de Albuquerque
Foto: Estefan Radovicz / Agência O Dia

Provedor cobra explicação dos administradores

O provedor da Santa Casa de Misericórdia, Francisco Horta, começou a convocar ontem os administradores de cemitérios para prestarem esclarecimentos sobre a suposta ordem para barrar cultos afro. O primeiro foi o de Ricardo Albuquerque, Luiz Salgado.

“Ele argumentou que o portão foi fechado para aquela senhora (Rosiane Rodrigues) no dia 30, às 17h, horário em que o cemitério encerra deu expediente”, detalhou Horta. Rosiane, porém, garantiu que tinha chegado antes das 17h e que, inclusive, ainda havia um corpo sendo velado e que foi enterrado depois.

Seguranças confirmam restrição

Intimidados durante o dia por seguranças particulares do Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, segundo testemunhas, alguns fiéis de religiões afro estão se arriscando para fazer suas oferendas no local à noite. Na quarta-feira, sem saber que estava falando com a reportagem, um funcionário confirmou a proibição e ainda orientou como um grupo poderia agir para enganar os seguranças, levando alimentos escondidos em sacolas.

A orientação, negada pela direção do Caju, desobedece o Decreto Municipal 39.094, assinado pelo prefeito Eduardo Paes no dia 12 de agosto deste ano, no qual, em um de seus artigos, o 3º, lê-se: “Nos cemitérios não se permitirá (…) o desrespeito aos sentimentos alheios e às convicções religiosas”.

Apoio político e institucional

Vanuce Barros, presidente da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa da OAB-RJ, adiantou ontem que vai convocar todos os administradores de cemitérios públicos da cidade e, inclusive, o provedor Francisco Horta, para “prestar esclarecimentos”. “As notícias sobre o assunto endossam as denúncias que nos chegam regularmente. Vamos ouvi-los, junto com representantes do Ministério Público, para depois tomarmos as providências cabíveis”, comentou.

 

Vídeo:  Religiosa é proibida de entrar em cemitério