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Com trilha do Metá Metá e voz de Elza Soares, espetáculo fica em cartaz até domingo no Rio

SC – “Gira”, do Grupo Corpo – Divulgação/José Luiz Pederneiras / Divulgação/José Luiz Pederneiras

 

POR FLAVIA MARTIN*

22/08/2017 4:30 / atualizado 22/08/2017 11:08

 

BELO HORIZONTE — “É ele quem dá movimento a tudo no mundo, é o deus da dinâmica, a ‘banda larga’ no culto aos orixás… Sem ele seria como um telefone sem linha.” Essa é a definição (e a dimensão) que o guitarrista Kiko Dinucci oferece para Exu, uma das entidades mais importantes do candomblé e da umbanda e espécie de protagonista de “Gira”, espetáculo do Grupo Corpo que estreia nesta quarta-feira, no Teatro Municipal, no Rio, e para o qual Kiko e seus companheiros do Metá Metá, Juçara Marçal e Thiago França, sugeriram a temática e compuseram a trilha — praticamente desde o começo, há 42 anos, a companhia de dança mineira trabalha com a mesma dinâmica: convida os compositores para criar a trilha e, apenas depois, entra com a coreografia.

Um dos fundadores do Corpo, o coreógrafo Rodrigo Pederneiras diz ter “embarcado de primeira” no tema proposto pelo grupo paulistano, cujos integrantes são do candomblé. E não hesita em contar que sua criação católica o fez um “ignorante total e absoluto” nos ritos da religião.

— Passei a frequentar terreiros e agora sou assíduo, tornei-me parte deles também. Foi um aprendizado total. Exu é o bailarino mais poderoso, a entidade mais humana, mais próxima de nós. É dança total, a ideia era fazer uma festa pra ele — explica Rodrigo, que, depois do Rio (até domingo), leva o espetáculo para Belo Horizonte (de 2 a 7 de setembro) e Porto Alegre (7 e 8 de outubro).

Em tempos de intolerância de todos os tipos, incluindo a religiosa, para Kiko, além de uma celebração, “falar de Exu de uma maneira respeitosa é um tremendo ato político”:

— As religiões de matriz africana sempre sofreram e sofrem diariamente muita perseguição. Dos anos 1980 pra cá cresceu a onda de perseguições religiosas. A demonização de Exu se dá também muito por conta do nosso racismo institucional brasileiro de todo dia. Rodrigo e Paulo (Pederneiras, diretor artístico da companhia) nunca demonstraram nenhuma preocupação e muito menos sugeriram qualquer mudança do tema, nos deram muita liberdade para sugeri-lo. Mas imagino que não deva ter sido fácil pra eles, porque, vindo de família católica, acabou sendo um ambiente muito novo. Talvez seja justamente esse o combustível para “Gira”. O contato com o novo. Isso é bem Exu, ele abre os caminhos para mudanças.

CENOGRAFIA MÍNIMA

No palco escuro e com poucos elementos, 21 bailarinos se revezam em solos, duplas ou grupos maiores ocupando o espaço da “gira”, nome dado, nos terreiros, ao local onde acontece a tal festa — em muitos momentos, parece que estamos diante de um transe coletivo. Em torno do quadrado luminoso em que está a dança, os que não estão em cena se sentam em cadeiras, com um véu negro sobre suas cabeças e um ponto de luz para marcar a presença da entidade, que logo será chamada de volta à baila.

ÁUDIO: “Pé”, com Elza Soares (Grupo Corpo)

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O figurino assinado por Freusa Zechmeister se resume a uma saia branca — homens e mulheres dançam com o torso nu. A maquiagem é uma tinta vermelha no pescoço. E só.

— Para esse espetáculo, a gente tentou o mínimo… De cenografia, de iluminação, de figurino… Em várias religiões, existe essa tentativa de fazer uma ligação de outro plano com o terrestre. No caso do candomblé e da umbanda, que é mais brasileiro, pensei a cenografia dessa forma — afirma Paulo, responsável pela cenografia do novo espetáculo, que é apresentado em um programa duplo ao lado de “Bach”.

Coreografia de 1996 pescada do repertório do próprio Grupo Corpo, “Bach” (que abre a noite para “Gira”) tem trilha sonora de Marco Antônio Guimarães sobre a obra do compositor que dá nome ao título e é uma mistura do barroco alemão com o mineiro. No palco (cenografia de Fernando Velloso e de Paulo Pederneiras, o último também responsável pela iluminação) e no figurino (Freusa Zechmeister), tons escuros de azul e dourado servem de pano de fundo para os bailarinos, que interagem com enormes tubos metálicos pendurados do teto, na coreografia também assinada por Rodrigo Pederneiras.

VOZ INCONFUNDÍVEL DE ELZA

Em contraponto ao barroco de “Bach”, “Gira” traz uma trilha essencialmente rítmica, jazzística, com baixo e saxofone bem marcados, a exemplo da faixa que acompanha o solo da bailarina Dayanne Amaral, que encarna a entidade Maria Padilha (“Brinca com a saia, tem sensualidade, risinho debochado, usa o ombro… É Maria Padilha pura”, conta Rodrigo).

O artista plástico Nuno Ramos assina a letra de “Pé”, e Elza Soares — cujo álbum “A mulher do fim do mundo” teve participação de Kiko — canta nessa e em outra faixa. “Quando aparece a voz dela no espetáculo, basta uma sílaba pra ser identificada pelo público, é impressionante”, conta o guitarrista, que resume a nova experiência:

— Nunca tínhamos composto para dança, deu trabalho. Fizemos três versões. Tivemos que aprender a pensar a composição de outra maneira, com mais espaços para os outros elementos do espetáculo, a luz, o cenário, o figurino, os bailarinos. Nesse caso, a música teria que ser mais um dos elementos, não o principal. Algumas delas, no processo de reelaboração da trilha, perderam vozes, instrumentos, ou usamos somente um trecho.

Ele conta ainda que as mudanças eram sugeridas pelo próprio Grupo Corpo a partir de suas necessidades:

— Parceria é isso, tem choque, doação, sugestões, tudo correu bem, e ficamos todos satisfeitos com o resultado. “Gira” é de tirar o fôlego. Exu deve estar feliz com a homenagem. Laroiê!

 “GIRA” E “BACH”

Onde: Teatro Municipal — Praça Floriano s/nº, Centro (2332-9191). Quando: Qua. a sex., às 20h. Sáb. às 21h. Dom. às 17h. De 23 a 27/8 (ingressos disponíveis para galeria, quarta e quinta; frisas e camarotes, todos os dias). Quanto: R$ 60 a R$ 720. Classificação: 14 anos.

*Flavia Martin viajou a convite do Grupo Corpo.

Extraído do site do Jornal O Globo / Rio de Janeiro – RJ
Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/teatro/grupo-corpo-estreia-gira-coreografia-sobre-ritos-da-umbanda-21731662#ixzz4qp9h6hib

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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