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Conquistas e desafios da cultura afro-brasileira em pauta

23.08.2016 – 19:10

A Fundação Cultural Palmares (FCP), instituição vinculada ao Ministério da Cultura (MinC) dedicada à proteção, à preservação e à promoção da cultura negra no Brasil, completou 28 anos de criação nesta segunda-feira (22). Entre as grandes conquistas desses anos, estão políticas de promoção da igualdade, da memória da cultura afro-brasileira e as cotas raciais. A caminhada, entretanto, ainda é longa e envolve, sobretudo, dar mais visibilidade à Palmares e à cultura afro-brasileira, além de gerar oportunidades de mobilidade social pela cultura a jovens da periferia. Em entrevista ao portal do MinC, o presidente da FCP, o professor baiano Erivaldo Oliveira da Silva, fala sobre os desafios da Palmares para os próximos anos e sobre projetos e ações que vêm sendo trabalhados pela atual gestão, entre outros temas.

Erivaldo Oliveira da Silva, presidente da Fundação Cultural Palmares (Foto: Acácio Pinheiro)
Erivaldo Oliveira da Silva, presidente da Fundação Cultural Palmares (Foto: Acácio Pinheiro)

Nesta semana, a Fundação Cultural Palmares completa 28 anos de criação. Quais foram as principais conquistas obtidas nesse período?

Esses 28 anos marcam o amadurecimento de uma instituição que sempre lutou pela preservação da cultura e da memória afro-brasileira. Acredito que, nos próximos 200 anos da Palmares, iremos consolidar todos os ideais dos grandes líderes que movimentaram a luta pela libertação e a luta contra a discriminação. Hoje, já temos muitos desses ideais concretizados, como as cotas e o respeito às políticas de promoção da igualdade e da memória da cultura afro. Mas ainda temos muito que caminhar. Precisamos dar mais visibilidade à Palmares. Queremos ocupar os grandes espaços de visibilidade para que a cultura afro-brasileira seja cada vez mais respeitada pela sociedade.

 

Quais são os principais projetos e ações da Palmares para os próximos anos?

Em primeiro lugar, iremos construir a Palmares itinerante. Vamos viajar a cada dois meses para colher as grandes demandas na ponta. A Palmares muitas vezes fica distante da ponta e isso não pode ocorrer. Como nossas regionais são poucas e restritas, vamos levar a equipe aqui da sede para ouvir. Vamos às grandes capitais, que detêm uma cultura afro muito grande. Vamos aos quilombos. Não adianta apenas certificar essas comunidades e deixá-las ao deus dará. Temos que ir, ouvir e levar políticas públicas que efetivamente resolvam os problemas do dia a dia e promovam a mobilidade social de seus habitantes.

 

Já há previsão de quando será a primeira visita?

Vamos começar agora no dia 5 de setembro, na região da Serra da Barriga, em Alagoas. É uma área tombada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), onde ocorre tradicionalmente a grande festa de 20 de novembro, dia da Consciência Negra e de Zumbi dos Palmares. Vamos então começar daí, que é onde tudo começou.

 

Outro projeto da atual gestão da Palmares é o Minuto Afro. Como ele vai funcionar?

Nossa meta é implantar já neste ano. Muitas vezes, a cultura afro-brasileira é apenas oral, não se encontram muitos textos escritos sobre o tema. Nossa ideia é fazer vídeos, que podem ter entre 30 segundos e dois minutos, e falar sobre os orixás, que são os guias espirituais das religiões de matriz africana, sobre jogos e brincadeiras típicas, sobre mitologia afro e sobre os grandes vultos da cultura negra, como Teodoro Sampaio e Assis Brasil, que são desconhecidos do grande público. Vamos publicá-los em nosso site e redes sociais e também na plataforma Google Arts & Culture, para facilitar a busca de quem pesquise sobre esses temas.

 

Nessa segunda-feira (22), foram lançados cinco livros selecionados pela Palmares por meio do Prêmio Oliveira Silveira. Há planos de fomentar mais obras literárias com temática afro-brasileira?

Nosso plano é criar na Palmares um Conselho Editorial exatamente com esse objetivo de produzir mais livros. Os livros do Prêmio Oliveira Silveira foram o pontapé inicial e certamente iremos lançar outros. A ideia é que o Conselho Editorial eleja, por ano, cerca de oito livros para serem publicados por nós, entre romances, poesias, ensaios, biografias e livros de história, entre outros. Funcionaria como uma editora normal voltada à temática afro-brasileira.

 

Para outubro, está prevista a realização, em Brasília, da Virada Cultural Afro. Como será o evento?

Será um evento grande, com diversas atrações, como shows, apresentações de dança, feira do sagrado e exposição de artesanato afro-brasileiro. Nossa meta é fazer, aos poucos, em todos os estados, espalhando a cultura afro para todo o Brasil. Não vamos poupar esforços para que isso ocorra. Contamos com emendas parlamentares para viabilizar o projeto, além de mecanismos de financiamento federais e estaduais.

 

As comunidades quilombolas são um dos públicos prioritários da Palmares? Como seguirá o processo de certificação?

Ontem mesmo, na solenidade em comemoração ao aniversário, entregamos a certificação a mais duas comunidades quilombolas, ambas do estado de Goiás. Mas não adianta apenas certificar, é preciso ter políticas públicas que permitam a mobilidade social. Eles não precisam de cesta básica, mas de oportunidade.

 

E os terreiros de religiões de matriz africana?

Vamos trabalhar em conjunto com o Iphan para intensificar o tombamento de mais terreiros de matriz africana. Também pretendemos aumentar a quantidade de equipamentos culturais estimulando que os grandes terreiros se tornem Pontos de Cultura. Alguns já até são, aliás. Isso, inclusive, estimularia as pessoas a visitarem os terreiros, a conhecê-los melhor. Há vários terreiros em áreas populosas, de alto risco social, que podem contribuir para dar conhecimento e ocupação a crianças e jovens.

 

Esse melhor conhecimento dos terreiros, inclusive, pode ajudar a reduzir a intolerância contra os praticantes de religiões de matriz africana.

A intolerância religiosa é um problema muito sério. Estamos inclusive mapeando os terreiros, começando pelo Distrito Federal, onde contamos com uma emenda parlamentar específica para isso. Outra boa ideia, que foi implantada aqui no DF, são delegacias especializadas no combate à intolerância religiosa. A daqui de Brasília vem funcionando muito bem, tem trabalhado muito em parceria conosco. Vamos espalhar essas secretarias por todo o Brasil, em parceria com os governos estaduais.

 

Alessandro Mendes

Assessoria de Comunicação

Ministério da Cultura

 

Extraído do portal do Ministério da Cultura / Brasília – DF
http://www.cultura.gov.br/noticias-destaques/-/asset_publisher/OiKX3xlR9iTn/content/id/1373796

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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