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Contra a intolerância, ubuntu já!

26 de Setembro de 2017

Pela primeira vez na série histórica, a média de mortes ligadas à homofobia passou de um assassinato por dia no Brasil. Só este ano, até 20 de setembro, foram registrados 277 homicídios. Os dados, divulgados na última segunda-feira (25), são da Grupo Gay da Bahia (GGB), associação mais antiga de defesa dos direitos humanos dos homossexuais no Brasil.

Cartazes com dizeres neonazistas e xenófobos estão sem espalhados pela cidade de Blumenau (SC), a poucas semanas do início da Oktoberfest, maior festa da colônia alemã no Brasil, na cidade. Nas redes sociais, internautas denunciam as ameaças dos cartazes: “Negro, comunista, antifa e macumbeiro. Estamos de olho em você”.

Essa recente escalada das forças conservadoras, autoritárias e intolerantes sobre setores historicamente excluídos da nossa sociedade revelam a necessidade de uma ação imediata daqueles que acreditam na democracia, na diversidade e na convivência pacífica entre os seres humanos. Os abusos não são isolados. Em menos de mês, a sociedade brasileira foi surpreendida com agressões contra terreiros de religiões de matriz africana, com a censura em uma exposição de arte e com a liberação do tratamento de homossexualidade como doença.

Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, criminosos gravaram e divulgaram nas redes sociais vídeos em que aparecem atacando um templo de candomblé. Os delinquentes, além de invadir o terreiro, obrigaram a mãe de santo a quebrar objetos litúrgicos e imagens de santos do templo.

Dados do Disque 100, canal oficial de denúncias do Governo Federal para atos contra os direitos humanos, comprovam o avanço da intolerância religiosa no país. Em 2016, foram registradas 776 ocorrências, um aumento de 36,5% em relação ao ano anterior. De 2014 para 2015, a situação foi ainda mais dramática. Os relatos passaram de 149 para 556, um crescimento de 273,1%.

Espanta, também, a conclusão do relatório “Índice de Hostilidades Sociais por motivações religiosas”, segundo a qual o Brasil passou da posição de um dos 25 países mais populosos com menor taxa de hostilidade social por motivos religiosos, em 2007, para um dos países com alta taxa em 2013. Esse indicador é elaborado pela Fundação Pew, a partir da identificação sistemática da ocorrência de episódios de intolerância e violência religiosa, considerando a intensidade com que ocorrem.

Nas artes, a mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi suspensa, em Porto Alegre, após críticas de movimentos religiosos e de grupos de extrema direita. A exposição tinha, ao todo, 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade. Em reação a essa censura, no último sábado (23), em um evento batizado de NY Loves Queermuseu, dezenas de obras da exposição foram projetadas na fachada do New Museum, do Whitney Museum of American Art e do Bushwick Museum, em Nova Iorque, nos Estados Unidos.

O avanço da intolerância não para por aí. Recente decisão da Justiça Federal do Distrito Federal, condenada pela Organização das Nações Unidas (ONU), concedeu liminar que permite psicólogos tratem homossexualidade como doença, autorizando que esses profissionais adotem terapias de “reversão sexual”, sem sofrerem qualquer tipo de censura por parte dos conselhos de classe. Tal conduta é proibida por uma resolução do Conselho Federal de Psicologia desde 1999.

Assim como nos casos de intolerância religiosa, os dados de violência contra homossexuais também são apavorantes em nosso país. Segundo a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais, 340 LGBTs foram mortos no Brasil em 2016. A associação Transgender Europe coloca o Brasil como um dos países com o maior número de assassinatos de transexuais em números relativos no mundo, entre 2008 e 2016.

Esses indicadores retratam apenas parte do desafio da sociedade brasileira no avanço da cidadania e do respeito integral à diversidade e à pluralidade de pensamentos e práticas. A intolerância parece ser a conduta rançosa daqueles avessos a mudanças e incapazes de compreender o diferente. Um traço dos que não conseguiram superar as mazelas do nosso passado de desigualdades, escravista e de exclusão social.

Em geral, formam parte de grupos conservadores, fundamentalistas e organizados que sempre se posicionam de forma radical contra qualquer avanço civilizatório para os grupos minoritários. Foi assim no caso da política de cotas, no casamento igualitário, no uso do nome social, entre outros.

É fundamental que o enfrentamento de toda essa intolerância seja colocado dentro da agenda do Estado brasileiro. Se a questão continuar a ser tratada como um problema menor, quase sempre sem a correta punição de agressores e a devida reparação dos violados, corremos o risco de regredirmos à barbárie, na qual serão aceitos como normais esses crimes de ódio que atentam contra a dignidade humana e a liberdade.

Dentro do enfrentamento cultural, vem ao caso incorporarmos e aprendermos com o conceito de ubuntu, existente nos idiomas de origem banto, zulu e xhosa, da África do Sul. O conceito parte do conto de um antropólogo, estudioso dos costumes de uma tribo da África, que sugeriu uma brincadeira para as crianças daquele povo.

O estudioso teria comprado uma porção de doces e colocado dentro de um cesto, debaixo de uma árvore. Ele combinou com as crianças da tribo que quando ele desse o comando, eles deveriam correr até o cesto e a criança que chegasse primeiro ganharia todos os doces.

Para a surpresa do antropólogo, quando ele disse “já!”, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Quando chegaram no cesto, repartiram e compartilharam os doces entre si.

Ao questionar o motivo de todas as crianças terem ido juntas ao cesto, o pesquisador foi surpreendido pela resposta “”ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”. Assim, ubuntu significa: “sou o que sou pelo que nós somos!”, ou, ainda, “eu só existo porque nós existimos”.

Esse conceito, nos remete à decisão civilizatória de que a agressão e a intolerância, contra qualquer grupo que seja, devem ser encaradas como um problema de toda a sociedade. Quando um grupo sofre violência, todos nós sofremos da mesma violência. Por isso, contra a qualquer tipo de intolerância, ubuntu já!

DANILO MOLINA

Jornalista, foi assessor do Ministério da Educação e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) durante o governo Dilma Rousseff e servidor do Ministério durante o governo Lula

 

Extraído do site de notícias Brasil 247 / Grande ABC – SP
https://www.brasil247.com/pt/colunistas/geral/319276/Contra-a-intoler%C3%A2ncia-ubuntu-j%C3%A1!.htm

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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