Benjamin Abras pesquisa a relação entre as corporeidades afro-brasileiras e a oralidade (Divulgação)

| DANÇA | Benjamin Abras ministra aula-espetáculo “O Gume da Palavra”, nesta quarta-feira (22), no Porto Iracema. O mineiro é tutor do projeto “CorpoCatimbó”, que integra o Laboratório de Dança 2018

01:30 | 21/08/2018

Benjamin Abras pesquisa a relação entre as corporeidades afro-brasileiras e a oralidade (Divulgação)

Benjamin Abras, 43, define-se como um “artista de intermídias”. Bailarino afro tradicional e contemporâneo, o mineiro é ainda ator de teatro e de cinema, diretor de dança e de teatro, poeta, ensaísta, dramaturgo, artista visual, cantor e compositor. “O fato de mergulhar nas tradições afro-brasileiras me permite ser poderoso. A minha palavra, o que eu mantenho dentro de mim, é uma conscientização da minha liberdade. Mesmo no mundo contemporâneo, a gente precisa ter uma consciência, uma chave para acessar outras relações filosóficas”, resume sobre sua pesquisa.

 

Com sete espetáculos ao longo de sua trajetória, dentre eles Kalundu e Como Caibo Neste Mundo, Benjamin mantém-se em constante ponte aérea para países como Dinamarca, Itália e Portugal. “As poesias visuais vieram em primeiro lugar e a dança deu corpo para essas outras coisas. Comecei como assistente de cenografia, cantando, dançando, preparando o elenco para espetáculos e, assim, assimilando essas linguagens”, afirma. O Gume da Palavra, um de seus solos, será destaque em formato de aula-espetáculo nesta quarta-feira, 22, às 19 horas, na Sala de Teatro da Escola Porto Iracema das Artes (Praia de Iracema).

O Gume da Palavra faz parte de uma investigação que eu realizo já faz 15 anos acerca da relação entre as corporeidades afro-brasileiras e a oralidade. A base dela são os cânticos de trabalho, as incelências, numa tradição também vinda da festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Porque eu sou moçambiqueiro (integrante das Festas de Reinado, em Minas Gerais) e as minhas bases de trabalho são o reinado, o candomblé, a capoeira e a umbanda. Todos esses pilares estão dentro da minha produção em arte contemporânea, na minha música – também sou compositor – e serão os elementos principais da minha oficina”, explica.

Para participar da atividade no Porto, os interessados deverão estar vestidos com roupas brancas. “É para que as pessoas entrem no ritual, nesse fragmento de espetáculo, que é o corpo oral, o corpo sonoro. A palavra enquanto presença da ancestralidade dessa esfera, que também se expande para o cotidiano, a música… Vou trabalhar com um elemento muito característico que tem uma representatividade dentro dos grilhões da escravidão. É uma coisa de opressão que, de certa forma, torna-se uma brincadeira. Um dançar dentro daquela temática de aprisionamento”, contextualiza o bailarino, que já integrou a Cia. Será Quê?, dirigida pelo coreógrafo Rui Moreira.

Benjamin encontra-se na cidade de Itapipoca para encontros de pesquisa e imersão em CorpoCatimbó, projeto do qual é tutor dentro do Laboratório de Dança 2018 do Porto Iracema. “Ser convidado para este projeto e estar ao lado de Pai Mesquita de Ogum, para mim, é uma honra, porque estou tendo a oportunidade de conhecer as raízes afro-ameríndias daqui. Minha pesquisa era voltada para as corporeidades da umbanda, do caboclo, Zé Pilintra, etc. A experiência aqui tem sido uma novidade que ampliou muito o meu universo”, relata. O ponto de partida de CorpoCatimbó reside na investigação da Jurema Sagrada.

“Dentro da Cia. Balé Baião, já vinha investigando há alguns anos a corporeidade de origem afro-brasileira, a partir de uma construção energética. De lá para cá, me iniciei no candomblé, sendo aqui também uma casa de jurema. Comecei a vir como pesquisador – para um espetáculo chamado Negrume, que virou um solo – e desde então não saí mais da casa. Quando abriram as inscrições (para o Laboratório), disse: ‘Quero trazer algo dessa pesquisa, desse corpo que trabalha com essas tensões’. Queria falar sobre esse lugar, mas não do candomblé”, explica Viana Júnior, bailarino e proponente do projeto em questão ao lado de Gerson Moreno e Pai Mesquita de Ogum.

“Catimbó é a fumaça, muito presente na jurema. É a comunicação usada para curar esse corpo, que é fumaça, que é forma e que não é… Mas dentro da estética do catimbó, descobri que é um culto nordestino cuja pajelança vai dialogando com outras coisas. Da semente à raiz, existe uma preciosidade e uma força imensas”, complementa Viana Júnior. “Em dezembro, a gente conclui esse processo. Essa parceria nasceu em 2015 e acho que não tem mais fim”, antecipa Benjamin.

 

Aula-espetáculo O Gume da Palavra, com Benjamin Abras (MG)

Quando: quarta-feira, 22, às 19 horas

Onde: Escola Porto Iracema das Artes (rua Dragão do Mar, 160 – P. Iracema) – os participantes da atividade deverão ir com roupa branca

Acesso gratuito

 

 Extraído do site do Jornal O Povo / Fortaleza – CE
https://www.opovo.com.br/jornal/vidaearte/2018/08/corpo-ancestral.html

 

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