Breaking News

Costureira vira especialista em roupas para agradar aos “espíritos iluminados”

Elverson Cardozo | 11/02/2015 07:00

 

 

 

Seguidora do Candomblé, Luzia Ogawa tem a difícil missão de agradar "espíritos mais iluminados". (Foto: Marcelo Calazans)
Seguidora do Candomblé, Luzia Ogawa tem a difícil missão de agradar “espíritos mais iluminados”. (Foto: Marcelo Calazans)

O trabalho de Luzia Ogawa, 50 anos, não é nada fácil. Costurar bem já é tarefa para poucos, agora imagina agradar “espíritos mais iluminados”. Ela faz as duas coisas. Seguidora do Candomblé há 5 anos e com uma vivência de 15 nos centros de Umbanda, a mulher trabalha para agradar entidades.

 

Ela faz roupas para rituais e se destaca porque, diferente das “costureiras comuns”, entende os fundamentos espirituais das religiões e, justamente por isso, se atém aos mínimos detalhes das vestimentas.

Na arara, roupas feitas por Luzia (Foto: Marcelo Calazans)
Na arara, roupas feitas por Luzia (Foto: Marcelo Calazans)

Enquanto outra profissional sem formação espiritual reproduz um molde, ela cria sem qualquer dificuldade. A medida exata de uma bata, por exemplo, é importante, mas, para Luzia, o que mais pesa é a vontade da entidade que o cliente incorpora.

Médium, ela diz que sente. Quem manda na roupa é o espírito. Se não seguir o pedido, tudo começa a dar errado. “Você vai costurar e não consegue: quebra agulha, máquina engole linha… É um sacrifício”, explica.

A regra é agradar, para não botar tudo a perder, como já aconteceu. “Uma vez fui costurar uma roupa normal para uma cliente e ela não me avisou quem era o espírito que tinha ganhado o tecido. Eu errei o corte. Estraguei o pano, coisa que nunca aconteceu comigo”, relembra.

Em outra situação, foi preciso adicionar detalhes a uma peça. “A pessoa queria fazer uma roupa para Pomba-Gira e me deu o modelo.

 

310x467-6a5a6f766ad025de88c76470c580ccc2Eu fiz, mas a entidade que ela incorpora não gostou e pediu para modificar. Aí acrescentei uns detalhes. Era um vestido. Ela queria umas rosas”, relata.

Entidades exigentes – Não é que seja difícil costurar para os espíritos, afirma, porque é só fazer tudo certo que nada dá errado, mas algumas entidades são exigente. A maioria, diz, gosta de perfeição.

Tem até aquelas que preferem as roupas de época. A que ela incorpora, por exemplo, a Pomba-Gira Maria Farrapo, adora babados.

Para agradá-la, Luzia passou 15 dias fazendo uma saia vermelha com cerca de 700 pétalas. “Ela gosta das coisas certinhas. Não gosta de nada errado”, explica.

No mercado, a mulher virou uma referência, tanto é que foi chamada para trabalhar em uma loja que vende artigos religiosos, tanto para os seguidores da Umbanda como do Candomblé.

A proprietária do estabelecimento, Sandra Alberti, de 50 anos, só tem elogios à profissional. É difícil, declarou, achar uma costureira que faz roupas de rituais com conhecimento de causa. Algumas até aceitam confeccionar, mas o trabalho passa longe da perfeição e isso é um problema.

Outras, por preconceito mesmo, negam de cara. Mãe de Santo há 25 anos, Sandra abriu o comércio há pouco mais de um ano justamente para suprir essa “carência do setor”. Tem dado certo. A média de 15 a 20 encomendas por mês.

 

Luzia e a proprietária da loja, Sandra Alberti. (Foto: Marcelo Calazans)
Luzia e a proprietária da loja, Sandra Alberti. (Foto: Marcelo Calazans)

Luzia, que já trabalha com isso há 10 anos, além de ajudar muita gente, encontrou uma oportunidade de crescimento na carreira. E pensar que ela aprendeu a costurar sozinha, por necessidade, depois de separar do marido.

Serviço – A mulher atende na loja Elite Recanto dos Orixás e Orientais, que fica na Avenida Júlio de Castilho, 2660. O contato pode ser feito pelo telefone (67) 3026-3908.

 

Extraído do site Campo Grande News
http://www.campograndenews.com.br/lado-b/comportamento-23-08-2011-08/costureira-vira-especialista-em-roupas-para-agradar-aos-espiritos-iluminados

 

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *