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Crimes motivados por intolerância assustam religiosos em MT

Em menos de 15 dias, um centro espírita e um "terreiro" foram incendiados no Estado COTIDIANO / FÉ E VIOLÊNCIA 09.08.2015 | 08h10
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Intolerância religiosa foi alvo de manifestação na Praça da Mandioca, na semana passada. / Bruno Cidade/MidiaNews
VINÍCIUS LEMOS  DA REDAÇÃO Um Centro Espírita foi incendiado na noite de 28 de julho, em Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá), quando vândalos invadiram e atearam fogo no local. Uma casa que realiza cerimônia de umbanda, em Cuiabá, teve parte de sua estrutura queimada por invasores, em 1º de agosto. Os dois casos possuem em comum o fato de serem tratados como intolerância religiosa, quando uma determinada crença é desrespeitada. Conforme a Constituição Federal, o Brasil é um Estado laico, onde cada cidadão tem liberdade de escolher qual religião seguir. A intolerância religiosa é considerada crime inafiançável, podendo ocasionar prisão de até três anos, conforme a Constituição. A Casa Espírita Virgem Imaculada Conceição, do segmento da umbanda, foi invadida 30 vezes, somente neste ano. Localizada no bairro Santa Laura II, em Cuiabá, a última invasão ao local terminou em incêndio e roubo de itens utilizados em rituais, além do desaparecimento de santos. A presidente do “terreiro”, Andréia Araújo, contou que o ocorrido é um caso de intolerância religiosa. “Pela forma como praticaram o crime, acredito que tenha sido causado por intolerância religiosa. Os invasores sabiam o que estavam fazendo, destruíram imagens, queimaram o local, eles estavam ciente de tudo”, lamentou. O local existe há 26 anos e, conforme os responsáveis pela casa, sempre sofreu preconceito por pertencer à umbanda. “É um absurdo essa intolerância religiosa, somos livres para pensar e ter a religião que quisermos. É triste uma situação dessas”, disse.

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Outro caso que chamou a atenção recentemente foi o ataque à Associação A Caminho da Luz, um Centro Espírita de Rondonópolis. O local foi arrombado e incendiado por invasores, que fugiram após a ação. A presidente da Associação, Elcha Britto, relatou que foi a quarta vez que invadiram o local neste ano. Porém, foi a primeira vez que atearam fogo no Centro Espírita. As chamas se apagaram sozinhas. “Não houve intervenção de bombeiro, nem de ninguém, o fogo parou sozinho”, disse. Apesar de a invasão ainda estar sendo investigada, a hipótese é de que tenha sido motivada por intolerância. “Há a possibilidade de ser um caso de intolerância religiosa, pois arrombaram e colocaram fogo em três salas. Porém, não descartamos a possibilidade de ter sido puro vandalismo”, afirmou Elcha Britto. Ela lamentou a possibilidade de o incidente ter sido motivado por desrespeito à crença religiosa do espiritismo. “Infelizmente, acontecem casos assim. Na medida em que não tolero a religião do outro, estou desconsiderando a minha. Falar que a minha é a melhor, que o outro é indigno do meu respeito, é ir contra princípios das próprias religiões e do cristianismo”, declarou. Os dois casos de vandalismo estão sendo investigados pela Polícia Civil. Encontro contra a intolerância Na última quarta-feira (5), aconteceu o Encontro Contra Intolerância Religiosa, organizado por líderes de religiões africanas, como umbanda, candomblé e quimbanda. O evento, realizado na Praça da Mandioca, no Centro Histórico de Cuiabá, tinha a intenção de reunir diversas crenças. Porém, somente praticantes de crenças afro compareceram ao local. Segundo um dos representantes do movimento, Jorge Barajac, diversos líderes de outras religiões foram convocados para participar do encontro. “Convidamos católicos, integrantes da Mesquita [muçulmanos], budistas, evangélicos e espíritas, mas ninguém apareceu. Eles não compactuam conosco, são intolerantes”, disse.
Encontro sobre intolerância religiosa, na Praça da Mandioca, contou somente com integrantes de religiões africanas
Encontro sobre intolerância religiosa, na Praça da Mandioca, contou somente com integrantes de religiões africanas / Bruno Cidade/MidiaNews
A falta de união e respeito entre as religiões teria sido o principal motivo para que as outras crenças não comparecessem ao movimento. “Algumas religiões são muito fundamentalistas, acreditam que só a deles atinge Deus. Nós [das religiões africanas] também acreditamos em um só Deus, os outros são divindades, que correspondem aos santos em outras religiões”, pontuou. Crenças comentam sobre desrespeito Para comentar sobre o preconceito contra determinadas religiões, o MidiaNews ouviu alguns integrantes de diferentes crenças. O pastor Paulo Roberto Alves, presidente da Catedral dos Milagres, contou que casos de desrespeito religioso ocorrem há muito tempo. “A intolerância religiosa existe desde os primórdios. A Bíblia diz que não é por força nem violência que se conquista a religião. Não respeitar a crença alheia é uma coisa maligna, diabólica”, disse. “O papel da religião é pregar o evangelho, é muito mais do que a placa de uma igreja”, completou. Alves observou que não se preocupa com a crença dos integrantes de sua igreja. “Nunca pergunto aos frequentadores da igreja a qual religião eles pertencem, não preciso saber isso para orar pelas pessoas”, disse. O padre Antônio Bartolomeu da Cruz, da Congregação Missionária Sagrado Coração de Jesus, em Cuiabá, reiterou que a liberdade de escolha é um dos princípios que devem ser seguidos na religião. “A questão religiosa é livre para todo ser humano, que tem a liberdade de escolha. Ela é o ponto mais forte para que o ser humano tenha contato com Deus”, observou. Conforme o padre, qualquer tipo de desrespeito é errado e tentar definir a melhor religião não faz parte dos princípios que movem a sociedade. “A intolerância ultrapassa qualquer religião. Não cabe a nós definir a melhor crença, não é com brigas que melhoraremos algo”, disse. Agnóstico, o recepcionista Jarison Costa Leite afirma que não acredita no Deus ensinado por grande parte das religiões. “Não acredito no mesmo Deus que pregam as religiões, mas acredito que há algo complexo no mundo”, contou. Porém, ele afirma que, mesmo não concordando, é importante respeitar a crença de todos e seguir o bom senso. “Tudo em excesso faz mal, quem segue uma religião não precisa viver extremamente em função disso. Assim como quem não acredita em Deus, não deve exigir que todos sejam ateus”, completou. Intolerância religiosa é crime A prática de ataques à crença do outro é considerada crime, conforme a Constituição Federal. O texto constitucional declara que a liberdade de crença é inviolável, sendo livre o exercício dos cultos religiosos. Os locais de culto e as liturgias devem ser protegidos por lei.  
Centro Espírita de Rondonópolis foi incendiado por vândalos
Centro Espírita de Rondonópolis foi incendiado por vândalos / Reprodução
A Lei 9.459, do ano de 1997, considera crime a discriminação ou preconceito contra religiões. Ninguém pode ser discriminado em razão de credo religioso. O crime de discriminação religiosa é inafiançável e imprescritível. A pena prevista é a prisão por um a três anos, além de multa. Em caso de intolerância religiosa, a vítima deve ligar para o Disque 100, Central de Denúncias da Secretaria de Direitos Humanos. Conforme informações do Senado Federal, a vítima deve procurar uma delegacia de polícia e registrar a ocorrência. O delegado tem o dever de instaurar inquérito, colher provas e enviar o relatório para o Judiciário. A partir de então, terá início o processo penal. GALERIA DE FOTOS
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Centro Espírita de Rondonópolis foi incendiado por vândalos
Centro Espírita de Rondonópolis foi incendiado por vândalos
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CASA DE UMBANDA TAMBÉM FOI ALVO DE INVASORES, QUE INCENDIARAM O LOCAL E ROUBARAM SANTOS
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About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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