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Culto e criado no candomblé, Tiganá Santana brilha e expande atuação artística

Radicado em São Paulo desde 2011, Tiganá contrariou o desejo materno que o queria diplomata e hoje compõe em vários idiomas

Roberto Midlej (roberto.midlej@redebahia.com.br)

07/06/2015 14:45:00Atualizado em 07/06/2015 15:09:29

 

 

Tiganá Santana, 32 anos, se apresenta na Caixa Cultural (Foto: José de Holanda/Dvulgação)
Tiganá Santana, 32 anos, se apresenta na Caixa Cultural
(Foto: José de Holanda/Dvulgação)

O cantor e compositor baiano Tiganá Santana, 32 anos, ainda adolescente, sofria pressão familiar para se tornar diplomata. Era um desejo especialmente da mãe, a educadora Arany Santana, atual diretora do Centro de Culturas Populares e Identitárias.

Mesmo muito novo, Tiganá já revelava alguns dos ingredientes fundamentais ao cargo, como o vasto conhecimento cultural e a habilidade em aprender idiomas, além de uma elegância até na maneira de falar. Chegar ao Itamaraty parecia ser uma questão de tempo. Mas a música acabou desviando seu caminho.

Aos 16 anos, muito hábil ao violão, já compunha em idiomas estrangeiros, inclusive africanos. A carreira profissional como compositor começou em 2010, com o álbum Maçalê, que tinha a participação de artistas prestigiados, como Roberto Mendes e Virgínia Rodrigues. Depois, vieram mais dois álbuns: The Invention of Colour (2012) e Tempo & Magma (2015).

Outros caminhos
Desde 2011, Tiganá vive em São Paulo,  buscando “caminhos longe da zona de conforto”, como observa o artista. Nos últimos quatro anos, produziu muito e ampliou sua área de atuação, tendo sido coprodutor de um álbum de Virgínia Rodrigues, Mama Kalunga (2015), e curador de uma exposição dedicada à Dona Ivone Lara, em cartaz em São Paulo.

A seguir, Tiganá Santana – que estreia show quinta-feira na Caixa Cultural Salvador – fala sobre a  sua música, candomblé – essencial em sua formação intelectual e musical – e a importante experiência que teve em uma residência cultural que realizou no Senegal, em 2014.

O candomblé já foi uma religião marginalizada. A situação hoje é bem melhor?

Seria incoerente afirmar que não houve avanços, no que toca, minimamente, a se admitir, socialmente, que o candomblé é uma cosmovisão possível. Há debate, estudos, experiências, arte e perspectivas, cada vez mais diversificados, a versar sobre candomblé e outras religiões de matrizes africanas, mais abertamente. É de se ressaltar, no entanto, que há uma longa (talvez infindável) trilha pela frente, no que diz respeito ao combate efetivo ao racismo – e etnocentrismo  – que, sistematicamente, reduz ao nada as ontologias, culturas, pensares, sistemas e profundezas do outro (nesse caso, notadamente, o/a outro/a negro/a), donde se origina a marginalização e, mesmo, a criminalização do candomblé.

Embora você reconheça a influência do candomblé na sua música, não costuma usar cânticos religiosos em suas canções. No entanto, costumamos ouvir canções carnavalescas e pop que usam esses cânticos. Você concorda com isso?

Num contexto sócio-histórico mais atual, acho bem crítica e complexa essa situação. O que fizeram os afoxés, por exemplo, se retomarmos um fio histórico de mais de um século, levando às ruas parte do que se vivenciara nos terreiros de candomblé, é de grande força afirmativa de um  referencial negro profundo. O que fazem os maracatus, no estabelecimento dessa ponte entre liturgia e vivência extensiva dessa liturgia (já que o profano – da língua grega, aquilo que está fora do templo – não condiz com um pensar inclusivo do sagrado, em que o negror do universo vasto pode ser visitado na própria pele). Entretanto é preciso atentar para o contexto atual, dentro do mercado e ideologia cruéis do Carnaval (não só no que se refere a Salvador), que elegem, fatalmente, as musas duma classe média pretensamente branca como suas representantes oficiais e não devolvem aos afrodescendentes, em forma sequer de reconhecimento, nada do que estes sempre forneceram ao Carnaval (hoje uma indústria indubitavelmente robusta), isto é, seu conteúdo mais interessante e autêntico. Nesse cenário nada confiável, em que a comunidade negra só tem valor de uso, quando se entoam cânticos sagrados do candomblé (frequências que nos são caras), fora de contexto e de uma situação de mínima concentração / atenção / reverência, ao contrário do que se verifica em outras manifestações religiosas, sou levado a crer que se trata de mais uma forte colaboração para a folclorização de manifestações negras (reduzindo-as a corpos sem pensamento ou revigorando a assertiva clerical dos “corpos sem alma”), revestida de suposto proselitismo e acesso de tais manifestações a todos. Atenção… Isso é um embuste.

Espaço da exposição sobre Dona Ivone Lara; Tiganá fez a curadoria  (Foto: Christina Rufatto)
Espaço da exposição sobre Dona Ivone Lara; Tiganá fez a curadoria  (Foto: Christina Rufatto)

Como era o seu dia a dia na residência artística do Senegal, na África?

Cada dia era aprender o tempo. Diz-se, no país, que os ocidentais têm o relógio, ao passo que os senegaleses vivem o tempo. Conversar, pensar, beber chá, trabalhar, ver o belo e o terrível irmanados, sentir o ritmo das coisas… Uma delas era a música. Dialogávamos musicalmente todas as noites. Fiquei, ao longo de quatro meses e meio, na praieira cidade de Toubab Dialaw, a ouvir o cântico-chamado às mesquitas (que materializam a presença milenar da religião mulçumana no Senegal), vendo Gorée no horizonte, trabalhando nas composições, supondo ler um pedaço do mundo nas danças, diálogos, vestes, silêncios e pedras (repousadas sobre fina areia) do Senegal.

É verdade que pensava em ser diplomata? Por que desistiu?

Sim… a princípio, desisti da carreira diplomática. Não me sinto inclinado ou vocacionado a representar governos. Mas reconheço que o que a minha mãe desejava, legitimamente, era, ao menos, a desestabilização da hegemonia eurocêntrica do Itamaraty, o que é muitíssimo válido.

Como foi sua iniciação no candomblé? Seu interesse inicial era mais cultural ou religioso?

O candomblé é a minha realidade desde criança. Nunca me pareceu algo diferente duma casa onde se mora, a desvelar reentrâncias e camadas de habitar com o passar do tempo. Não há motivos ou questões. Trata-se duma força estruturante para mim.

Muita gente classifica seu som como ‘sofisticado’. Você concorda ou essa classificação pode elitizar seu público?

Não compro essa ideia. Acho-a equivocada e perigosa, já  que o sofisticado, no Brasil, segrega.

A sua família é muito ligada à cultura negra. Esse sempre foi um tema presente no dia a dia de vocês? Conversavam sobre cultura negra e afirmação racial?

Claro… Entre tantas matérias, falávamos também desta a atingir-nos diariamente em nossa existência social. No Ocidente (aqui entendido como cosmovisão), se você é negro, já se trata dum senão a priori.

Por que decidiu morar em São Paulo? Hoje, mesmo com a decadência das gravadoras, é necessário um artista independente viver em um grande centro cultural e econômico?

Migrei para São Paulo por uma movimentação pessoal, pelos encontros, pela possibilidade de desenhar caminhos longe da zona de conforto de um território-cultura de toda a vida. Desconfio (refuto) da ideia de um lugar melhor e “mais reluzente”. Eu acredito nos nossos punhos pincelando caminhadas, tropeços e superações.

Circuito Música Bahia

Show Tiganá Santana

Data De quinta-feira (11) a domingo (14)/ horários: às 20h, de quinta a sábado; e 19h, domingo

Local Caixa Cultural Salvador, Rua Carlos Gomes, 57, Centro

Ingressos R$ 8/R$ 4

Informações (71) 3421-4200

 

Extraído do site do Jornal Correio*/Salvador-BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/culto-e-criado-no-candomble-tigana-santana-brilha-e-expande-atuacao-artistica/?cHash=573a4fd696153ac74eba0b2ce1e3e056

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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