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Cultura: Axé, a força que realiza

 

por Pai Rodney — publicado 18/08/2017 07h00, última modificação 18/08/2017 08h54

 

Não, não se trata aqui do gênero musical baiano, mas do poder, devir, energia vital dos orixás

CCO Creative Commons
Axé é música e tudo mais

A velha mãe-de-santo explicava: “Axé é tudo, meu filho, e tudo é axé”. Eis o princípio da vida. Força que emana de tudo que é vivo. Poder, magia, dom. As mãos que abençoam têm axé. A palavra proferida tem axé. Os saberes e sabores do terreiro têm axé. Energia que se dá e se recebe, que se ganha e se perde, que se acumula e se dissipa. Axé é vida.

A palavra se popularizou, virou sinônimo de gênero musical baiano, mas bem antes disso estava presente na MPB, nas festas populares e carnavais, no cotidiano da gente da Bahia e do Brasil. Contudo, em verdade, o axé define a energia essencial que move todos os seres e todas as coisas que existem na natureza. No candomblé, é a força que realiza, o poder de criar e transformar as coisas. É justamente o que dá movimento à vida e, ao ser renovado, permite a permanência, a perpetuação de tudo.

Em termos práticos, além de ser a força sagrada de cada orixá, axé também designa o conjunto de objetos e materiais indispensáveis ao culto, bem como as pedras, árvores, comidas, ferramentas e adereços de cada divindade e de seus respectivos assentamentos. Essa força é revigorada por meio de rituais, oferendas e sacrifícios. Está no sangue, na seiva das folhas, nos pós das sementes e frutos.


Em qualquer candomblé, o axé é o conteúdo mais valioso, tanto que cada terreiro tem um “plantado”, ou seja, um conjunto de elementos sagrados enterrado aos pés de uma coluna central, ainda que simbólica, e representa a pedra fundamental, o alicerce e a base de tudo.

Deste fundamento emana a força que assegura a existência dinâmica da comunidade e a partir dele as possibilidades se concretizam. Uma vez plantado, esse axé passa a ser transmitido a tudo e a todos que compõem o terreiro. É força que se planta, cultiva e amplia, mas que também pode diminuir quando as obrigações rituais não são observadas ou quando as regras e interditos são transgredidos.

Gestos, olhares e palavras que abençoam o transmitem. Saudação para quem chega e para quem vai. Gratidão, súplica e desejo. Axé expressa alegria, regozijo, prazer. Dos alimentos sagrados, as partes ofertadas aos orixás são chamadas de axés. Sinônimo de sabedoria e dignidade, é a fonte da autoridade dos mais velhos, poder que se expressa nas figuras emblemáticas de pais e mães-de-santo, na nobreza das casas mais tradicionais e antigas.

Possuir axé significa ter respeito, origem, linhagem. É referência de tudo que permanece e se eterniza, é o que nos permite ser e estar neste mundo.

Aliás, a visão de mundo preservada no candomblé pressupõe uma interpretação muito própria das leis que regem a vida e o universo. Nas tradições negro-africanas, o pensamento é circular, bem distante da linearidade cartesiana que define as civilizações ocidentais.

A energia de todas as coisas (Foto: CCO)

Toda forma de transmissão de conhecimento dos terreiros, por mais que se tente negar, marca profundamente a cultura e o povo brasileiro. Na religiosidade africana reside um grande legado de valores e costumes preservados neste País, das palavras que modificaram a estrutura da língua portuguesa aos hábitos alimentares, posturas e jeitos de movimentar o corpo.

Por fim, axé é essência, fundamento, e de fato está na base de toda musicalidade da Bahia. Os tambores e agogôs dos afoxés, como os Filhos de Gandhy, Korin Efan e Badauê, e dos blocos afros, como o Ilê Aiyê, Araketu e Olodum, encontram sustentação rítmica nos toques sagrados dos orixás.

Isso prova que a relação entre os terreiros de candomblé e as manifestações da cultura popular baiana e afro-brasileira em geral (como maracatus e escolas de samba) vem de longa data e sempre mantiveram o respeito à religiosidade e à ancestralidade africana. Nem afoxés, nem maracatus, nem escolas de samba saem às ruas pra brincar o carnaval sem que sejam cumpridas as obrigações com os orixás.

Guardadas as devidas proporções, nessa mesma fonte sorveram Margareth Menezes, Daniela Mercury, Ivete Sangalo e tantos outros, popularizando ainda mais o termo axé e mostrando que no bojo da nossa cultura está o poder dos terreiros. Um poder que tudo realiza e tudo transforma: o axé.

 

Extraído do site da Revista Carta Capital / São Paulo – SP
https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/axe-a-forca-que-realiza

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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