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“Dar 50% do seu trabalho aos galeristas é taca!”

Ronaldo Jacobina Seg, 16/05/2016 às 11:36 | Atualizado em: 16/05/2016 às 11:40   Lúcio Távora | Ag. A TARDE    
Lúcio Távora | Ag. A TARDE O escultor Tatti Moreno irá comemorar os 45 anos de carreira com um livro
Lúcio Távora | Ag. A TARDE
O escultor Tatti Moreno irá comemorar os 45 anos de carreira com um livro
Octavio de Castro Moreno Filho, 72, queria ser bailarino. O preconceito da época o demoveu da ideia. Apaixonado pela dança, encontrou na arte a forma de trabalhar com o movimento. Discípulo do mestre Mario Cravo Junior, aprendeu a esculpir em ferro, aço e latão. Há 45 anos, virou Tatti Moreno, um dos escultores mais respeitados do Brasil. A data será celebrada com um livro, feito em parceria com o editor Claudius Portugal e editado pela P55, que será lançado em junho, em local e data a serem definidos em conjunto com os patrocinadores. Autor do conjunto de orixás que embeleza o Dique do Tororó desde o final dos anos 1990, Tatti passou os últimos 25 anos criando peças inspiradas no candomblé, religião com que se identificou e praticamente  adotou, como bom baiano, juntamente com o catolicismo. Suas peças, disputadas por colecionadores, podem ser vistas em bancos, institutos, hospitais, hotéis, shopping centers, edifícios do Brasil e de outros países. Sua obra tem uma identidade tão forte que é difícil duvidar de sua autenticidade quando estamos diante de uma de suas peças. Embora tenha uma boa relação com galeristas, não tem um marchand que o represente. "Eles querem 50% do valor da peça para eles", reclama. Com a mesma delicadeza com que descreve a feitura de uma obra, diz que até recentemente não gostava de arte contemporânea. "Achava que era uma coisa passageira". A boa relação que mantém com os três filhos (dois artistas visuais e uma atriz) o fez querer pesquisar sobre esse movimento artístico. Rendeu-se a ele. "Estou pensando em dar uma virada radical. Acredito que não vou sair da temática que trabalho porque me identifico com ela, mas acho que chegou a hora de mudar, de fazer uma releitura daquilo que produzo numa linguagem mais contemporânea". Casado com a arquiteta Gisele há 25 anos, com quem trabalha os grandes projetos, divide-se entre um ateliê no Carmo e outro em Interlagos. O senhor é religioso? Sou sim, católico. Todo mês vou à igreja, a do Bonfim ou a da Vitória e, como bom baiano, tenho duas religiões. O candomblé, eu descobri nas minhas pesquisas sobre a cultura afro. Hoje tenho um respeito muito grande por essa religião. Acho que a grande questão da religiosidade é a fé. A fé move montanhas. Eu, quando peço a Oxalá, o Deus que enxergo como a natureza, é a mesma fé que eu rezo para o Senhor do Bonfim. Essa dualidade está na sua obra? Sim. Embora a maioria das pessoas só conheça os orixás, já fiz muita imagem sacra. Pela religião católica, pela beleza das igrejas, pela coisa plástica, né... Fiz uma série de cristos, onde massifiquei a figura Dele. Tenho vontade de voltar a fazer. Recentemente fiz um Cristo em Lima, no Peru, com 20 metros de altura, que virou ponto turístico lá. Mas foi a cultura africana que mais influenciou sua obra? Sim, sim. Eu me apaixonei primeiro pela dança, pelo ritmo... Foi assim, imbuído pela música, que eu cheguei ao candomblé, na capoeira... Eu já pesquisava as igrejas, o barroco, pelo qual sempre fui apaixonado, pela cor do ouro, pela beleza do rococó, enfim... Já no candomblé, me encantava ainda a indumentária, com os seus rendados, com as cores africanas. Aquilo estava dentro de mim. Se pensarmos hoje sobre a africanidade, nós, baianos, estamos cada vez mais ligados e mais parecidos com a nossa África. Essa sua fascinação pela dança vem lá de trás, porque o senhor chegou a pensar em ser bailarino. O que o impediu? Na época, por mais que eu falasse, me tiravam a ideia. Creio que por causa do preconceito, de naquela época associarem a dança a gays, e isso não tem nada a ver. Mas, naquela época, o preconceito era grande. Com relação aos orixás do Dique do Tororó, o senhor recebeu manifestações contrárias a sua instalação na época. Esses ataques partiram de onde? Sim, muitas. Da comunidade evangélica, que não aceitava a instalação dos orixás ali. Foi terrível. Também sofri ataques em outros estados durante a exposição itinerante com as réplicas desses orixás, que fizemos em lagos e lagoas de outras cidades brasileiras, como Rio, São Paulo, Brasília, Goiânia, Porto Seguro... Algumas destas peças ficaram em Porto Seguro. Qual o estado de conservação delas hoje? No meio da itinerância, o banco que patrocinava foi vendido e nos abandonou no meio do caminho. Com a  ajuda do governador César Borges, levamos de Brasília até lá. Como não tínhamos onde colocá-las aqui, deixamos algumas lá e trouxemos outras para a sede dos Correios. Soube que estão se deteriorando numa área externa do centro de convenções de lá porque os evangélicos não queriam as obras lá, que é onde fazem seus cultos e tal. Falando em patrocínio, está mais fácil consegui-lo para as artes plásticas? Não existe mais patrocínio. Hoje você não consegue mais viabilizar um projeto por falta de patrocínio. A arte não vive sem ajuda do governo? Todas as grandes potências mundiais investem, ajudam as artes, sabem da importância dela, sabem que a cultura é uma coisa básica. E o artista, a maioria, é gente batalhadora, que depende de seu trabalho.  Fazer uma obra grande sem patrocínio não tem como viabilizar. A gente banca a produção pequena, do dia a dia, mas obras públicas e de grande porte não tem como fazer. Como anda a relação com os galeristas? Difícil. Os galeristas cobram dos artistas quase 50%, o que fica inviável para nós. No caso dos escultores, e eu não quero dizer que os escultores devem cobrar mais que os pintores, mas a produção é muito mais cara, porque ele trabalha com solda, oxigênio, material ferroso, a mão de obra do escultor é muito mais abrangente do que a de um pintor, mas volto a dizer que não é por isso que sua obra deva ser mais cara que a do pintor, o que quero dizer é que o trabalho do escultor é mais braçal de volume, precisa de uma oficina, fundição, uma área muito maior, então não dá para dividir meio a meio. E como fica o mercado de arte, já que essa relação tornou-se delicada? Em primeiro lugar, acabaram-se os críticos, que eram importantíssimos para difundir a obra dos artistas, então as galerias tomaram um rumo diferente. Eles formaram um núcleo de arquitetos e decoradores para quem pagam comissão, e esse grupo é quem manda hoje nos artistas, no mercado de artistas que dependem de galeria. Eu não tenho galerista, não deixo peça em consignação. Às vezes, um ou outro me pede uma obra para mostrar a clientes e eu mando, mas, se o negócio não for concretizado, mando buscar de volta. E eu não sou contra os galeristas, todos são meus amigos, estão fazendo o negócio deles, para mim é que não dá para trabalhar desse jeito. Dar 50% é taca! Primeiro que hoje para você vender já está difícil, todo mundo quer desconto, e agora só quer 50% porque sabe que a galeria cobra isso e ninguém é besta... E como você faz para vender sua arte, é você mesmo quem faz esse papel? Sim. O cara procura nas galerias e não acha, então vem até  mim. Eu soube recentemente que tem uma galeria que tem três peças minhas lá, mas são de clientes que decidiram vender e colocaram lá. Em sua opinião, a crise econômica afetou o mercado de arte? Totalmente. Qualquer anúncio de crise já afeta nosso mercado, imagina uma como essa. Estou com três grandes projetos aprovados, no Rio Grande do Sul, em Sergipe e em Maricá (RJ), mas a Lava Jato chegou e abortou tudo. Eu e Gisele, minha mulher, que é arquiteta, trabalhamos três anos nesses projetos e, na hora de executar, o dinheiro não sai. Fizemos viagens, investimos tempo e dinheiro para nada. É uma zorra! Qual sua rotina de produção hoje? Com a crise, eu diminuí o número de empregados. Tinha seis, hoje tenho um. Eu produzia uma média de três a quatro peças por quinzena, hoje produzo uma nesse tempo. O senhor ainda mantém dois ateliês? Um, que fica em Interlagos, está fechado há seis meses. É lá onde produzo obras de grandes dimensões. Como não tenho feito, está  stand by. As peças pequenas produzo no ateliê de meu filho, André, no Carmo. Futuramente,  penso em abrir uma galeria para expor o meu trabalho e  dos meus filhos André e Gustavo. O senhor acha que sua arte é popular, é regional? Como definiria sua obra? Eu nunca me preocupei em explicar minha obra. O que me levou à escultura foi a vontade de trabalhar com ela. No começo, pintei, fiz colagem, mas o prazer estava na escultura, e me dediquei a ela sem nunca me ocupar  com crítica ou com opiniões. Gosto de ouvir a opinião popular, das pessoas que trabalham comigo. Nunca me preocupei se estava fazendo arte popular, universal, sempre fiz as coisas dos meus sentimentos, do modo como a coisa vem. Acontecem coisas comigo que não têm explicação. Sonho muito à noite com a realidade. Eu sonho com os objetivos vivos, como se eu estivesse vendo, fazendo. É intuitivo? Sim. Eu uso a intuição de forma frequente para produzir. Vem tudo na cabeça, ganha forma. Trabalhei com muitos materiais, com arte sacra, e, sem perceber, vieram os orixás, que fiz por mais de 20 anos. Fiz ainda muitas máscaras, mas deixei. O senhor é supersticioso? Eu não diria que sou supersticioso, mas, sim, que tem coisas que acontecem comigo que não têm explicação. Existe uma força sublime, superior à gente, talvez coisas vividas em vidas passadas. Nessa época das máscaras, eu lembro que acordava suando. Sonhava com guerras e sempre o guerreiro vitorioso tinha um olho vazado, umas dessas máscaras tinha uma espada que atravessava o olho direito. Eu fiz 33 máscaras, sonhava de noite e levantava e as descrevia, às vezes as desenhava. Essas máscaras foram todas vendidas... No dia que a última máscara saiu de casa, uma semana depois, na mesma hora, teve o acidente. Foi um tiro acidental disparado por seu filho de sete anos? Sim. Estávamos de mudança e deixei a arma sobre uma mala aos cuidados do caseiro; meu filho pequeno pegou e, primeiro, apontou para a mãe, brincando, depois para mim, que estava agachado e não vi. Sem noção do que estava fazendo, acabou disparando e acertando meu olho direito. O incrível de tudo isso é que na hora em que fui anestesiado, eu sonhei com todas as máscaras que havia criado, todas com a boca aberta, me mordendo, querendo me devorar. Qual a explicação? O senhor nunca mais fez máscaras? (Risos) Nunca mais fiz máscara. Mas essa história foi superada? Sim, claro. Meu filho era uma criança de sete anos, não teve culpa nenhuma, foi um acidente. Eu digo que a gente tem que tirar proveito dos acidentes. Você veja o seguinte: o acidente me deu uma beleza física, minha viseira é um charme. Seus  filhos André e Gustavo são artistas plásticos, Paula é atriz, como lida com tantos artistas na família? (Risos) Muito duro, viu. Porque viver de arte é muito difícil. Nossa família não tem outro meio de sobrevivência que não seja as artes. Eu sempre os alertei para isso, eu tive sorte na vida, porque hoje, se você analisar, uma pessoa viver, como eu vivo, exclusivamente de escultura, é um privilégio muito grande. Quem consome obra de arte hoje que o dinheiro mudou de mão? Às vezes é complicado, porque alguns querem uma obra rosa e branca para combinar com o sofá, o quadro tem que combinar com a cortina e por aí vai (risos), mas ainda tem gente com sensibilidade. Como vê a arte contemporânea? Confesso que antes eu torcia o nariz, achava que era passageira, mas hoje vejo que é a atualização da arte e reconheço que estava errado. Meu filho Gustavo jogou alguns grãos na minha cabeça e eu quase piro. Comecei a pensar, a criar coisas novas, estou com vontade de dar uma mudada radical no meu trabalho. Corremos o risco de um novo artista contemporâneo? Corre o risco (risos). Vou lhe confessar que já estou estudando, pesquisando e creio que, depois desse livro, que lançarei em junho sobre os 45 anos de carreira, encerro um ciclo e inicio um outro. Na verdade, eu já venho experimentando uma releitura do meu trabalho, ensaiando novas formas, mas quero mudar muito mais. Quero fazer uma coisa mais limpa, voltar a trabalhar com outros materiais, como o aço etc. O livro te ajudou a perceber essa necessidade de mudança? Sim. Primeiro foi o start do meu filho, depois, revendo minha obra, catalogada com esmero por minha mulher, Gisele, para o livro. Revi peças geométricas do passado, os instrumentos musicais que fiz, mas que não dei vazão, que estavam aqui (aponta para o coração) guardadas e que me deu vontade de fazer um resgate dentro de uma linguagem contemporânea, mais limpa do que o rococó. Talvez não mudando a temática dos santos, dos orixás, que são a minha emoção e que deram certo, mas fazendo uma nova leitura do que sempre fiz. Que balanço faz desses 45 anos? Eu não tenho que me queixar de nada. A vida me deu mais do que eu merecia. Tive uma infância feliz, uma família bacana que me passou valores importantes, que passo para os meus filhos. Vivo da minha arte e sou um sujeito que se alimento do seu trabalho, e que trabalha por prazer. Me sinto feliz por estar buscando novos caminhos para o meu trabalho, pesquisando, estudando... enfim, só tenho que agradecer.     Extraído da versão digital do Jornal A Tarde / Salvador – BA http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1771072-dar-50-do-seu-trabalho-aos-galeristas-e-taca

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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