Desvendando o candomblé

Representatividade. Máscara da madeira, cana e ráfia de pigmento da República Democrática do Congo | Foto: The Michael C. Rockefeller Memorial Collection

O babalorixá Márcio de Jagun é uma das maiores autoridades no idioma africano iorubá

 

 

 

Representatividade. Máscara da madeira, cana e ráfia de pigmento da República Democrática do Congo | Foto: The Michael C. Rockefeller Memorial Collection

 

O babalorixá Márcio de Jagun é especialista na cultura iorubá | Foto: Tatiana Azevedo/divulgação

 

PUBLICADO EM 06/11/18 – 04h00

ANA ELIZABETH DINIZ

ESPECIAL PARA O TEMPO

O idioma iorubá praticado pelas religiões afro-brasileiras já é patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro desde agosto deste ano, conforme a Lei 8.085, aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Para ser reconhecido no Brasil, o processo ainda aguarda apreciação do Inventário Nacional de Diversidade Linguística, por meio de processo já aberto junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

A iniciativa e a pesquisa que fundamentam o processo são de Márcio de Jagun, 58, babalorixá, professor de cultura e idioma iorubá, escritor e advogado. Ele já publicou: “Orí: A Cabeça como Divindade – História, Cultura, Filosofia e Religiosidade Africana”, “Yorùbá: Vocabulário Temático do Candomblé”, “Ewé: a Chave do Portal” e “Odù: os Iorubás e o Destino”.

Segundo ele, a grande busca filosófica iorubá não é a perfeição: “Ele se reconhece imperfeito e não sofre por isso. Contudo, o homem busca as virtudes que, nessa cultura, são: oore (bondade), sùúrú (paciência), ìbúra (promessa), òwò (respeito), òótó (verdade), òdodo (justiça), ìfeni (caridade), èèwò (tabu)e ìwà (caráter). Seu cumprimento faz com que o iorubá alcance seu propósito de vida, tornando-se um omolúwàbí (filho de bom caráter). Os deuses são deificados pelas suas virtudes, e não pela perfeição”.

O babalorixá ressalta que “os contos personificam os orixás como homens e mulheres que erram e acertam ao longo de sua trajetória, mas que realizaram feitos virtuosos”. “A deificação de seres imperfeitos, porém virtuosos, serve como inspiração aos seres humanos. Ou seja, todos podem ser ‘deuses’, em que pese suas limitações humanas, desde que logrem as virtudes”, comenta.

Márcio de Jagun explica que o idioma iorubá é proveniente da cultura e da etnia de mesmo nome. Entretanto, acabou permeando outras tradições/nações de candomblé: “Como a cultura iorubá é oral, a palavra tem grande poder não apenas filosófico, como religioso. A transmissão de sua ancestralidade é feita basicamente através dos ìtàn (parábolas), dos òwe (provérbios), dos ese (poemas de Ifá), dos orin (cânticos), dos oríkì (louvações) e dos ofò (encantamentos). Todas essas formas de expressão são lúdicas e repletas de metáforas”.

Segundo ele, não há cerimônia litúrgica para a declamação das parábolas, dos provérbios nem dos poemas de Ifá, por exemplo. Contudo, o momento em que são ditos é revestido de contrição e respeito.

“Sempre é alguém mais velho e sábio que narra essas expressões milenares. Até hoje nos candomblés, mantém-se a importância dessas manifestações tradicionais da oralidade. O idioma iorubá foi preservado nos ambientes sociorreligiosos, mantendo viva essa língua em nosso território há cerca de quatro séculos. O iorubá é uma ferramenta de comunicação entre homens e deuses”, ensina o pesquisador.

Márcio de Jagun comenta que o homem iorubá é monoteísta, pois reconhece um único criador, a quem denomina de Olorum (senhor dos céus). “Os orixás são entes intermediários entre os seres humanos e Deus. Embora lembrado e citado permanentemente, Olorum não recebe culto diretamente. Não existe uma única oração nem templo erguido ao senhor da criação. A única oferenda que se pode fazer diretamente a ele é o caráter”, diz.

O iorubá enxerga deus como um grande regulador do universo. “Daí um dos títulos atribuídos a ele ser: Àgbáyé-gún (o regulador do universo). Mas, o criador não tem uma atuação cotidiana, ou pessoal, em relação a suas criaturas. As forças da natureza e os ancestrais se incumbem disso”, diz o babalorixá.

Na cosmovisão iorubá, o homem está no mesmo patamar de importância que animais, vegetais e minerais. “Diferentemente da visão judaico-cristã, Deus não teria feito os vegetais e animais para servir ao homem. Logo, o homem iorubá preserva, respeita e consegue ver a divindade nos outros elementos”, observa Márcio de Jagun.

Cultura

Idioma. O iorubá foi preservado nos ambientes sociorreligiosos, mantendo-se vivo em nosso território há cerca de quatro séculos. O iorubá é uma ferramenta de comunicação entre homens e deuses.

 

Medicina iorubá contempla todos os reinos da natureza

Conforme a sabedoria iorubá, “toda doença possui um veneno e todo veneno possui um antídoto”. “Para eles, é o homem que espalha a doença; enquanto é Ossanha, a divindade, que apresenta a cura. Os sacerdotes de Ossanha, aqueles que exerciam a medicina entre os iorubá, há milhares de anos, já compreendiam o mesmo que a medicina moderna hoje reconhece: que a cura pode ser obtida a partir do princípio da polaridade”, ensina o babalorixá Márcio de Jagun.

Segundo ele, o propósito da medicina iorubá é fazer com que a pessoa volte a se harmonizar consigo e com o meio em que está inserida. “Para tanto, os remédios utilizados farão com que os ‘venenos’ sejam eliminados pelas excreções do próprio organismo (fezes, urina e suor). A medicina iorubá, na busca desses objetivos, se vale de três tipos de substâncias curativas: as amargas (korò), as ácidas (ta) e as picantes (kon)”, explica.

O conceito iorubá de saúde decorre da harmonia entre as partes do corpo humano. “Porém, a mais importante de todas é orí (a cabeça), por ser responsável por coordenar as demais. Logo, se o orí está doente, frágil, ou desestabilizado, poderá danificar os outros elementos corporais que lhe estão subordinados. Nessa perspectiva, se nosso fígado vai mal, significa que nossa cabeça nos levou a beber demais; ou se nosso estômago funciona mal, possivelmente nossa cabeça nos levou a comer algo prejudicial; e assim sucessivamente”, conclui o babalorixá.

Esclarecendo mitos

Exu não é demônio, mas um orixá como os demais. Ele não ocupa o lugar do demônio (de origem judaico-cristã), pois não objetiva destruir a obra da criação, nem tampouco é o oponente de Deus. Exu personifica a materialidade humana.

Exu tem como regências: o sexo, a procriação, a comunicação, a ambiguidade, a ambição, o movimento e o caos transformado.

A divindade Exu cultuada no candomblé não é a entidade de mesmo nome cultuada na umbanda.

O candomblé não é uma religião africana. Embora tenham sua origem no continente africano, várias etnias de regiões e culturas diferentes foram trazidas para o Brasil no período da escravidão. Esses grupos realizaram uma releitura contínua e espontânea de seus diversos deuses.

Esse processo resultou na organização de um panteão exclusivamente brasileiro, cujo culto foi alicerçado em liturgias singulares, apenas existentes aqui – embora conservem os idiomas e certos modus operandi similares à matriz africana.

O candomblé não pratica o mal. Sua filosofia, teologia e ritualística tradicionais não concebem práticas maléficas. Esse conceito resulta do desconhecimento e do preconceito.

O propósito do candomblé, enquanto religião, é disciplinar o adepto a adquirir virtudes.

Como em qualquer outra religião é possível que existam adeptos que frequentem e participem, porém não sejam iniciados. O processo iniciático no candomblé depende do destino daquela pessoa. Se não pertencer ao caminho espiritual do indivíduo, a iniciação não precisa ser concretizada.

O jogo de búzios é um dos oráculos utilizados no candomblé. Eles possuem função divinatória (promovem contato com os deuses), e não advinhatória. O iorubá, filosoficamente, acredita que cada indivíduo escolhe seu próprio destino aos pés do Criador, antes do nascimento. 

 

Extraído do site do Jornal O Tempo / Contagem – MG
https://www.otempo.com.br/interessa/desvendando-o-candombl%C3%A9-1.2064179

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