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Deusa do Ébano se purifica antes do desfile do Ilê Aiyê

Maíra Azevedo | Sex, 13/02/2015 às 10:12 | Atualizado em: 13/02/2015 às 10:12

 

Joá Souza l Ag. A TARDE Alexandra é banhada com ervas por mãe Jaciara Ribeiro
Joá Souza l Ag. A TARDE
Alexandra é banhada com ervas por mãe Jaciara Ribeiro

Os olhos marejados não deixam Alexandra Amorim, 33, esconder a emoção que sente ao passar pelos rituais de purificação para assumir um dos postos mais altos do Carnaval de Salvador. Ela é a Deusa do Ébano, rainha do bloco afro Ilê Aiyê, título que ganhou após concorrer com 60 candidatas.

Alexandra fica recolhida (numa espécie de retiro espiritual) até amanhã, dia em que de fato será coroada como a majestade do “Mais Belo dos Belos” e desfila como destaque do bloco. Até a coroação, ela passa por uma série de procedimentos de purificação e energização.

Os primeiros rituais acontecem ainda no terreiro  Abassá de Ogum, em Itapuã, onde ela é abiã (pessoa que é postulante à iniciação no candomblé). Um banho de ervas e pétalas de rosas é o primeiro passo, e coube a mãe Jaciara – ialorixá do templo – banhar a deusa em suas águas sagradas.

“Eu me sinto honrada em cuidar da vida espiritual desta menina. Aqui, além de purificar, pedimos proteção, segurança e caminho; para que Ogum tome a frente de tudo, que Oxum dê a doçura e Iansã a força necessária para ela enfrentar a jornada de ser a Deusa do Ébano”, diz mãe Jaciara.

A Deusa do Ébano ofertou um quilo de búzios e pediu proteção. Depois dos rituais no Abassá de Ogum, é chegado o momento de Alexandra ir para o Curuzu. Primeiro, uma passada na Senzala do Barro Preto, sede do Ilê Aiyê, para ouvir os conselhos do presidente do bloco, Antônio Carlos Vovô.

“É preciso ter força, não se deixar abater pelo cansaço, ou pelas possíveis provocações. Para ser a nossa deusa tem que ser uma negona ‘mal-assombrada’, ser educada, saber falar, afinal, vai ser nossa referência, vai representar o axé do bloco. É o sorriso no rosto, com a força do nosso povo”, frisa Vovô.

 

 

Orientações

Após os conselhos, é chegado o momento de se recolher. De agora em diante, Alexandra perde contato com o mundo profano. Celulares desligados, nada de contato com a internet e é a sua yá (mãe em iorubá), Jaciara Ribeiro, quem a leva para o Ilê Axé Jitolu, terreiro responsável pela parte religiosa do Ilê Aiyê.

A majestade negra do Carnaval de Salvador é recebida com honras. A ialorixá Hildelice e outras autoridades do Ilê Axé Jitolu têm agora a missão de guardar a Deusa do Ébano até a grande noite de sábado de Carnaval. Uma tradição que começou há 36 anos, quando surgia a Noite da Beleza Negra.

“Minha mãe (Hilda Jitolu) fazia questão de ter as deusas aqui, preparar e fazer todos os procedimentos para que tudo ocorresse da melhor forma possível. Agora, ela fica aqui recolhida e cuidamos de tudo. Temos que preservar a nossa deusa, ela  vive dias de rainha”, explica mãe Hildelice.

O tempo que fica no Ilê Axé Jitolu, Alexandra Amorim fica sob a responsabilidade de Maria de Lurdes, mais conhecida como equede Mirinha, e que coincidentemente foi a primeira Deusa do Ébano.

No encontro de gerações das rainhas negras, a primeira faz questão de dar um conselho à novata. “Não pode esquecer de uma coisa: toda deusa é altiva, ela tem o seu império”.

 

A pescadora virou rainha

Antes de cobrir o corpo com os tecidos coloridos do Ilê Aiyê e fazer do turbante produzido por Dete Lima sua coroa, Alexandra Amorim teve uma história de superação. A atual Deusa do Ébano teve na força dos remos da canoa de seu pai, o pescador Austério Damasceno, o primeiro contato com os exercícios físicos.

“Eu acordava de madrugada para pescar com ele. Às 4h30 estávamos puxando a rede e, antes de o sol sair, já tínhamos dividido o quinhão (quantidade de peixes por pescador). Depois, eu saía para vender meu peixe, literalmente. Quando chegava em casa, era hora de ajudar a minha mãe a bater a massa do acarajé, montar o ponto e só depois é que eu ia para a escola”, lembra Alexandra.

O sonho de ser Deusa do Ébano foi despertado pelo pai, conhecido como seu Sabará, que, quando a filha tinha 11 anos, disse que queria vê-la dançando em cima do trio. “Ele me disse que eu era linda demais e deveria ser a rainha. Ali era o meu lugar, ser a Deusa do Ébano era o meu destino. Ele me dizia sempre isso”.

A mãe biológica de Alexandra, a baiana de acarajé América da Paixão, 61, vai além e diz que o sonho de ver a filha assumir o posto de Deusa do Ébano era coletivo, de toda a família.

“Minha ficha ainda não caiu. Fico lembrando de toda a luta e das palavras do pai dela. Ela foi atrás do que queria e a gente foi junto. Ela é rainha e todos nós estamos felizes”, comentou a mãe, que não conseguiu segurar o choro.

Persistência

Cursando mestrado de dança na Universidade Federal da Bahia, professora de duas universidades (Uneb e Unirb), capoeirista, dona de casa e mãe de uma criança de 3 anos, Alexandra não permitiu que a agenda repleta de atividades a impedisse de ser a deusa este ano.  Concorreu outras três vezes antes de ser coroada.

“Em 2009, eu não fui nem selecionada. Em 2011 fiquei em terceiro lugar, aí me senti confiante. Só que em 2012 eu perdi de novo. Aí engravidei, tive minha filha. Fui com força total para 2014, queria muito fazer parte dos 40 anos do Ilê, mas nem pré-selecionada eu fui. Fiquei arrasada”, lembra.

 

Joá Souza l Ag. A TARDE Alexandra é banhada com ervas por mãe Jaciara Ribeiro
Joá Souza l Ag. A TARDE
Alexandra é banhada com ervas por mãe Jaciara Ribeiro

 

Joá Souza l Ag. A TARDE Após o banho sagrado, Jaciara saúda Ogun
Joá Souza l Ag. A TARDE Após o banho sagrado, Jaciara saúda Ogun

 

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Joá Souza l Ag. A TARDE Deusa do Ébano toma a benção a Mãe Jaciara

 

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Joá Souza l Ag. A TARDE Rainha e Mãe Jaciara são recebidas no Ilé Asé Jitolu

 

Joá Souza l Ag. A TARDE Alexandra se encontra com Mãe Mirinha
Joá Souza l Ag. A TARDE
Alexandra se encontra com Mirinha, 1ª Deusa do Ilê

Extraído do site do Jornal A Tarde/Salvador-BA
http://atarde.uol.com.br/carnaval/2015/noticias/1660021-deusa-do-ebano-se-purifica-antes-do-desfile-do-ile-aiye

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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