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Dia da Consciência Negra: adepta do candomblé, garota de 11 anos é exemplo de fé e superação

Publicado por Amanda Tavares às 0:00

 

perfilExiste uma filosofia africana chamada “Ubuntu”, que segue o princípio de que o mundo não é uma ilha; vivemos por nós e pelos outros. Essa filosofia influenciou nomes como Nelson Mandela, Desmond Tutu e José Saramago. Prega o conceito do “Eu sou, porque nós somos”, que inspirou o nome desta série de reportagens, #SomosNegros, iniciada hoje e publicada até domingo (20). As crianças Laura, Alice e Antonio contarão suas histórias para mostrar, no mês da Consciência Negra, como, desde cedo, aprendem e ensinam, diariamente, sobre respeito à religião, ao cabelo e à cor de pele. Conheceremos também o trabalho social dos integrantes do Terreiro Xambá, um dos mais tradicionais de Pernambuco. A série é uma parceria entre o JC e o Blog Criançada (JC Online). Os textos são de Amanda Tavares.

 Para lembrar o Dia da Consciência Negra, Laura fala sobre luta contra o preconceito. Foto: Diego Nigro/JC Imagem

Para lembrar o Dia da Consciência Negra, Laura fala sobre luta contra o preconceito. Foto: Diego Nigro/JC Imagem

 

Laura Luiza Oliveira, 11 anos, cresceu vendo seus familiares cultuarem os deuses africanos. Desde muito pequena, frequenta o Terreiro de Xambá, em Olinda, um dos mais tradicionais de Pernambuco. Tem orgulho de falar das suas origens. De contar sua história. De dizer que é filha de Oxum, orixá feminino ligado ao ouro, à fertilidade, às águas dos rios e das cachoeiras, associado à beleza, à vaidade. A menina se sente linda e poderosa ao olhar-se no espelho, toda vestida de amarelo, cor que remete à sua “mãe” no candomblé, religião seguida por frequentadores do Xambá. O orgulho, a vaidade e o empoderamento, por vezes, perdem espaço para a vergonha, a indignação, a tristeza. É que nem todo mundo enxerga sua religião, seus santos, seus cultos como sagrados.

A garota nunca se esquece do dia em que estava na escola, brincando com as amigas, e perguntaram se ela era do candomblé. “Sim!”. Ao ouvir a resposta, uma das garotas revidou: “Não serei mais sua amiga, tenho nojo de você!”. No mesmo dia, à noite, Laura, já em casa, recebeu mensagens no celular pelo aplicativo WhatsApp. O texto era sobre a morte do ator global Domingos Montagner (que se afogou ao nadar no Rio São Francisco, em Sergipe, em setembro deste ano). Atribuía o falecimento do ator a um possível envolvimento com religiões de matriz africana e especificamente com o orixá Exu.

Laura, que aprendeu com a família a admirar e a respeitar o orixá protetor, guardião dos templos, casas e pessoas, respondeu imediatamente: “Minha religião cultua Exu!” Ouviu respostas ofensivas e preconceituosas. “Você é ruim. Sua religião é ‘do diabo’, seu cabelo é feio e você é gorda. Sua mãe colocou você nessa religião para que você cultue o demônio e nunca deixe de segui-lo, mesmo quando for adulta…”

Resistente e convicta dos princípios que segue, apesar da pouca idade, Laura chamou a família. A mãe e o tio procuraram a escola, uma unidade pública que funciona em Olinda, perto da comunidade Xambá. Uma educadora que, naquele dia, diante da ausência da diretora, estava responsável pela escola, tomou a frente. Pediu calma. Prestou solidariedade.

No mesmo dia, um professor de artes ouviu a conversa sobre Exu em sala. Não sabia do ocorrido. Mas se lembrou de uma aula em que já tinha falado de respeito à diversidade. Laura contou o que tinha se passado. E ouviu: “Lembre-se do que já ensinei. Seus colegas terão que aprender a respeitar a sua religião”, defendeu.

“O candomblé é onde me sinto bem, me sinto forte”, declara Laura Luiza.  Foto: Diego Nigro / JC Imagem
“O candomblé é onde me sinto bem, me sinto forte”, declara Laura Luiza. Foto: Diego Nigro / JC Imagem

Do mesmo jeito que existem professores que defendem, há outros preconceituosos, relata a menina, lembrando-se de um dia chuvoso em que vestiu um casaco branco e colocou batom azul. Assim que entrou em sala, um professor disparou: “O que é isso? Você hoje veio de Pokemón Go?”, provocando inquietação e zombaria entre os estudantes. “Ele não estava falando da minha religião, mas agiu com preconceito da mesma forma”, reclama.

A mãe, Leila Luiza Oliveira, sempre atenta ao que ocorre no ambiente escolar, orienta a filha a defender-se sem agredir. “Temos que respeitar todas as religiões. É o que digo à minha filha todos os dias. O que a gente não quer para a gente não faz para os outros. Se for para conversar sobre o que é cada religião, explicar como funciona, tudo bem. Mas discutir, competir, nunca! Violência gera violência. Oriento Laura para que não revide. Se a situação se agravar, como já aconteceu, ela chama a família e a gente chega junto”, salienta a mãe, falando com a experiência de quem, muito antes de ver a filha enfrentar o preconceito, já experimentou o que é ser julgada pela crença religiosa. “No meu trabalho, não toco nem no assunto. Posso ser demitida, porque a maioria dos funcionários é evangélica”, afirma.

A espiritualidade, os laços familiares e de amizades construídos durante seus 11 anos de vida e de vivência no Terreiro Xambá e no Espaço Cultural Grupo Bongar, onde são realizadas atividades diversas para crianças da comunidade (confira matéria no domingo, 20), fizeram de Laura uma criança forte, orgulhosa dos princípios que aprendeu a respeitar e seguir, além de feliz com o que a religião proporciona a ela e à família. “Me sinto muito bem no candomblé. Os ambientes do centro religioso e do Espaço Cultural são muito agradáveis. Faço o que gosto. Não sou obrigada por ninguém. Me incomodo quando as pessoas ficam dizendo que eu pratico ‘coisas do diabo’. Não fico à vontade junto de quem critica os rituais da minha religião”, contesta.

Mais fortes que as críticas, porém, é o aprendizado de Laura ao participar de inúmeros rituais religiosos, atividades culturais e de lazer vividas graças ao candomblé. “Gosto de tudo. De estar com os amigos e com a minha família. De ter espaço para brincar, de conhecer as histórias dos meus ancestrais através do memorial (refere-se ao Memorial Severina Paraíso Silva, instalado no Terreiro Xambá, que abriga documentos como fotografias, livros e objetos que contam a história do grupo). É o lugar onde eu me sinto bem, me sinto forte!”. O lugar onde os adeptos do candomblé saúdam Oxum: Ora Yê Yé Ô!

 

Extraído do blog Criançada do Jornal do Commercio / Recife – PE
http://jc.ne10.uol.com.br/blogs/criancada/2016/11/18/dia-da-consciencia-negra-adepta-do-candomble-garota-de-11-anos-e-exemplo-de-fe-e-superacao/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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