Breaking News

Dia de Combate à Intolerância Religiosa data casos de preconceito e violência

Apesar de poucos registros, um levantamento feito pela Articulação Amazônica de Povos Tradicionais de Matriz Africana (Aratama) aponta que em dez anos, 15 integrantes de terreiros foram assassinados em Manaus

21 de Janeiro de 2015

LUANA CARVALHO

 

Preconceito e a intolerância religiosa causou a morte do pai de santo Rafael Medeiros em maio de 2014. Ele foi morto a facadas ao tentar apartar uma briga sobre questões religiosas de duas vizinhas (Antonio Lima)
Preconceito e a intolerância religiosa causou a morte do pai de santo Rafael Medeiros em maio de 2014. Ele foi morto a facadas ao tentar apartar uma briga sobre questões religiosas de duas vizinhas (Antonio Lima)

Nos últimos dois anos, 380 denúncias de discriminação religiosa foram registradas pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR). Destes, 13 casos são do Amazonas. Apesar de poucos registros, um levantamento feito pela Articulação Amazônica de Povos Tradicionais de Matriz Africana (Aratama) aponta que em dez anos, 15 integrantes de terreiros foram assassinados em Manaus.

De acordo com o presidente da Aratama, Alberto Jorge, crenças de matriz africana são as que mais sofrem ataques. “Somos chamados de demônios, pais de encosto e tudo o que não presta”, desabafou.

Como forma de protesto, o grupo fez a tradicional caminhada pelo Centro da cidade – que acontece há 11 anos –  em combate à intolerância religiosa na noite da última segunda-feira.

Em silêncio e segurando faixas, eles lembraram a morte do pai de santo Rafael  da Silva Medeiros, de 28 anos, assassinado a facadas em maio do ano passado, no bairro Cidade Nova, Zona Norte.

A caminhada encerrou na igreja São Sebastião, onde o grupo assistiu à missa em homenagem ao santo junto com outros fiéis católicos.   “Onze anos atrás  entramos pela primeira vez em uma igreja católica com a condição de que não sujássemos a igreja. Hoje nossa relação  é excelente. Há diálogo e respeito. Trabalhamos na construção de uma cultura de paz e diversidade em combate ao ódio religioso”, comentou Alberto.

 Intolerância Religiosa

Com base na lei 11.635 de 27 de dezembro de 2007, hoje é comemorado o  Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data presta homenagem à mãe de santo baiana Gildásia dos Santos, que faleceu  em 2000 vítima de enfarto após ver sua imagem estampada em um jornal de uma igreja evangélica, que circula em todo o Brasil,  com o título “macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”.

O caso teve repercussão mundial como exemplo de preconceito contra religiosos da matriz africana, uma vez que a Constituição Brasileira garante o livre exercício de cultos religiosos. Pela lei,  a intolerância religiosa é um crime de ódio e abrange um conjunto de ideologias e atitudes ofensivas a diferentes crenças e religiões.

O antropólogo Sérgio Ivan, explica que o problema está ligado ao fundamentalismo religioso, termo filosófico usado para se referir à crença na interpretação literal dos livros sagrados.

“Hoje nós estamos vivendo um momento que certas condutas condenáveis ferem a integridade de pessoas que muitas vezes não tem nada a ver com essa crença. Toda religião deve de alguma forma pregar a fraternidade e a paz, mas há grupos e pessoas extremistas que deturpam os ensinamentos e acabam gerando violência”, opinou.

Blog: Dom Sérgio Castriani, Arcebispo de Manaus

“A própria  necessidade  de haver um dia de combate à intolerância religiosa é um sinal de que existe violência religiosa. São pessoas que não conseguem conviver com a diferença e acabam tentando destruir o outro fisicamente ou moralmente, através de palavras ou mesmo religiosamente, demonizando a fé do outro. Tudo isso é intolerância. Existe um documento chamado Nostra Aetate (sobre a igreja católica e as religiões não-cristãs) que fala sobre a liberdade religiosa. Este é o reconhecimento que a igreja faz de que a liberdade é um direito, ninguém pode impor uma verdade violentamente a outra pessoa. É um direito fundamental do ser humano. Quando você toca nessa liberdade, acaba ferindo outras liberdades. A igreja já renunciou impor sua religião de forma física e violenta, como aconteceu infelizmente em muitos momentos da história. A igreja católica tem procurado respeitar, com atitudes, a fé das outras pessoas. Devemos condenar veementemente qualquer violência que parta de preconceito ou de ódio. No Brasil nós temos uma boa convivência, não somos um País de ódio religioso, embora tenhamos casos de violência. Liberdade de culto tudo bem, mas desde que não use para ferir o outro”.

Intolerância no Brasil e no mundo

No início deste mês, dois atiradores invadiram a sede da revista ‘Charlie Hebdo’, em Paris, matando 12 pessoas. Dois dias depois, outro terrorista invadiu um supermercado judaico e matou quatro judeus. O mundo inteiro assistiu àquela manifestação de intolerância religiosa. A revista já havia sido alvo de um ataque no passado após publicar uma caricatura ofensiva  do profeta Maomé.

No Brasil, alguns casos também tiveram grande repercussão. O ‘chute na santa’, como ficou conhecido o episódio  ocorrido no dia 12 de outubro de 1995, quando um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, à qual se dedicava o feriado do dia, chamou a  atenção do País inteiro.

Há pouco tempo,  um grupo quebrou, cuspiu, urinou e ateou fogo em uma imagem de 1 metro de Nossa Senhora das Graças, na cidade de Carrapateira, sertão da Paraíba, em junho do ano passado. Os religiosos afirmam que a iniciativa do grupo foi legítima, “pois está escrito na Bíblia para quebrar os ídolos e lançar as imagens fora dos templos”.

Em Manaus, o tema chegou a ser bastante debatido em 2012, quando um grupo de alunos de uma escola pública se recusou a fazer um trabalho sobre cultura afro-brasileira, alegando ‘princípios religiosos’.

 

Extraído do site do Jornal A Crítica/Manaus-AM
http://acritica.uol.com.br/manaus/Manaus-Amazonas-Amazonia-Combate-Intolerancia-Religiosa-preconceito-violencia_0_1288671171.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

Related posts

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *