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Do cabelo bedjo ao “afro”: Salões de cabeleireiros perdem clientes

19 Maio 2016

O “cabelo afro”, que esteve em voga nos anos 70 e depois voltou a ser “cabelo bedjo” tido como pouco estético, está a ganhar cada vez mais espaço na identidade das cabo-verdianas. Os químicos que esticavam o cabelo e o alisamento das escovas e “chapinhas” estão a dar lugar ao cabelo natural e com vida própria. A moda de “coroa” já faz a cabeça de grande parte das crioulas que se assumem como “afro-lindas” ou “afro-apaixonadas”. Ao mesmo tempo, novas concepções de negócio voltadas ao estilo afro começam a ganhar expressão no mercado nacional. Em contrapartida, os salões cabeleireiros, que não acompanharem este mercado, correm o risco de se extinguir.

arton118447Danísia Pires mantém todos os dias o seu salão aberto, mas o movimento caiu drasticamente. Diz que o negócio já já não é o que era: há menos clientes e já não sabe se um dia as coisas voltarão ao que eram. Considera que as profissionais da área estão praticamente aposentadas: é raro fazerem uso de escovas e “pistolas” (secadores de cabelo) já que as clientes é raro aparecerem.

Por causa deste cenário, Danísia Pires revela que começa a desanimar. É que embora vá mantendo o negócio ao dar vazão à já pouca procura pelo seu serviço, a verdade, assume, é que está a perder a luta num mercado que cada dia mais se volta para o cabelo natural. Curiosamente, não equaciona explorar este mercado e tratar das “afros” para atrair novas clientes. Afirma que não vale a pena, porque elas iriam lá uma ou duas vezes, mas depois vão apostar em hidratações caseiras. Por causa disso, esta profissional da beleza capilar alerta que não se sabe até quando o serviço de alisamento às clientes lhe permitirá assegurar o seu “ganha-pão”, mesmo que recebendo um preço inferior ao custo real do serviço.

Maria Mendes do “Salão Destaque” expõe que com as promoções feitas tem conseguindo manter o seu negócio. De acordo com algumas funcionárias, para driblar o fraco movimento no salão, agregaram ao negócio novos serviços. É que, para além do alisamento com desfrisantes, passaram a fazer todo o tipo de penteados, colocar cabelo “postiço”, hidratar e tingir o cabelo das clientes que procuram os seus serviços.

Mas mesmo assim, reconhece que houve uma quebra significativa na procura da unidade que dirige. Para não ter de encerrar o salão, passaram também a sair às ruas para anunciar promoções e conquistar de volta as clientes. Para esta jovem cabeleireira, muitas das clientes adoptam o cabelo natural, não por preferirem “assumir a própria identidade”, mas sim por falta de condições económicas pensando que cabelos “afro” exigem menos cuidados do que os tratados com desfrisante.

Entretanto, enquanto os salões se esvaziam de clientes, no facebook “Nha cabelo eh afro & I love it” é mais um membro que se agrega a este grupo específico. Neste momento, a página já soma mais de 19 mil utilizadores. Constituído maioritariamente por mulheres, denominam-se de “afro-lindas” ou “afro-apaixonadas”, entre outros termos para mostrarem a satisfação e o orgulho de apresentarem as madeixas dos cabelos crespos ou encaracolados. Mas também há pessoas que fazem parte do grupo apenas por curiosidade. Para além de partilharem fotos que mostram a auto-estima elevada e de bem com os seus cabelos, os membros dividem tratamentos e receitas, aconselhando outras mulheres a fazerem o mesmo.

Novos produtos

Há aproximadamente dois anos que a gestora Polibel Rodrigues, enquanto pesquisava novas formas de “mimar” o seu cabelo, encontrou o “Nha cabelo eh afro & I love it”. Passou a fazer parte do grupo, sendo actualmente uma das administradoras. Rodrigues garante que nunca usou desfrisantes e outros produtos químicos. Por não gostar dos cachos, antes usava o cabelo curto. No entanto, após o nascimento do filho e por insistência da mãe, resolveu deixar crescer o cabelo e procurou novos tratamentos. Hoje, o brilho nos olhos e expressão ao falar dos seus cabelos revela que não se arrependeu pela escolha. Além de ter conhecido os tratamentos capilares de que precisa, começou a informar as “afro-assumidas” sobre novas técnicas.

Uma das novidades são as “toucas de cetim” que mantêm o brilho dos cabelos, aprendeu ser benéfico usar durante a noite. Conta ter começado primeiro a ensinar o passo a passo para que outras pessoas pudessem aprender a fazer também. Logo, por ser artesã, alguns amigos pediram-lhe que as criasse para comercializar. Primeiro foram as “toucas”. Logo se seguiram as almofadas e, por fim, os elásticos para prender os cabelos durante a noite, todos em cetim, seguindo sugestões deste mercado que está em crescimento. Hoje possui a linha Trapos Polibel que dá vazão a procuras dentro e fora do país, com boa aceitação, de acordo com Rodrigues.

Produtos naturais

Boa aceitação também vem tendo Roxana Lima, que desde 2004 passou a dedicar-se a produtos de beleza naturais que favorecem os cabelos das cabo-verdianas. Nascida na Argentina, Roxana é cabo-verdiana pelo lado do pai. Quando chegou ao país, sentiu necessidade de conhecer o cabelo natural das cabo-verdianas que “estavam presas ao processo comercial dos desfrisantes”.

Para Roxana Lima, o desfrisante não é a única ameaça para o cabelo das crioulas. Diz esta “expert” que a vaselina e os óleos para o cabelo, que levam na sua composição química o petróleo e dão uma ilusão de hidratação aos cabelos, na verdade criam alguns fungos no couro cabeludo, originando caspa que se espalha pelo corpo em forma de impingem (doença da pele).

A esteticista pede às cabo-verdianas que tenham cuidado com os produtos para o cabelo que chegam do exterior, uma vez que são os piores que há, comprados a preço de saldos. Explica ainda que produtos feitos para cabelos europeus, americanos ou brasileiros não podem ser destinados a todos os tipos de cabelo, porque as realidades são distintas.

Outro perigo para os cabelos são, segundo a interlocutora deste jornal, as fórmulas milagrosas retiradas da internet para tratar os cabelos e que apenas possuem efeitos momentâneos levando à destruição dos cabelos ou do rosto da pessoa, com o surgimento e proliferação das acnes. Roxana Lima explica que, mais do que o lado comercial, aposta na saúde e beleza e que “nada que não pode ser ingerido, deve ir para a pele ou para o cabelo”. Isso para ressalvar «que veneno para o cabelo, é igual veneno para o corpo».

Roxana Lima montou na cidade do Mindelo um centro de estética “Mamdyara Artesanal made in Cabo Verde”, que agrega tratamentos capilares e dermatológicos, um laboratório de pesquisa e preparação dos produtos de beleza e a loja onde expõe e vende sabões, cremes de pentear e para a pele, shampoos, entre outros. As matérias-primas são produtos naturais e nacionais, sendo a argila, a moringa, a purgueira, plantas medicinais, de entre outros. Usados de acordo com uma fórmula em quantidade certa, conseguem bons resultados como mostra a aceitação que vem tendo. Na preparação destes produtos, esta especialista diz que conta com “vários anos de experiência e colaboração de um ecologista e de uma botânica”.

Naturais, mas caros

Apesar dos seus produtos serem os mais caros do mercado, em relação aos importados, assegura que a procura tem sido crescente, pela constituição natural dos seus produtos e tratamentos. A sua divulgação tem sido feita mais no “boca-a-boca” das suas clientes. “Esta é a melhor publicidade que podia ter encontrado”, acentua.

No salão Mamdyara trabalha Rosy Fortes que há quase seis anos não desfrisa o cabelo. A jovem conta que, na altura que decidiu abdicar de colocar produtos químicos nocivos nos seus cabelos, poucas eram as cabo-verdianas que tinha decidido assumir o natural. Por causa disso, passou por alguns constrangimentos, nomeadamente de pessoas que diziam que o cabelo dela era “bedje” e que não se penteava. Até lhe ofereceram dinheiro para ir ao cabeleireiro desfrisar o cabelo. Agora o seu “look” é mais aceite. O seu cabelo agora é considerado bonito e chamado de coroa. Afirma que descobriu que o seu cabelo não é nem duro nem “bedje”.

De referir que a moda do afro não é recente. Nas décadas de 60 e 70 quando a disco music estava na moda, junto com as calças boca-de-sino, um estilo de cabelo virou febre: o cabelo “black” e esse visual também era moda em Cabo Verde, inclusive por homens. Nessa altura, apesar da existência da técnica de pente de ferro quente com vaselina usada pelas mulheres para esticarem os fios capilares, muitas preferiam o cabelo natural.

Agora os tempos são outros e as designações também: as cores, os brilhos e as texturas dos diferentes tipos de cabelos da sociedade crioula foram naturalmente adquirindo novas formas. E numa sociedade democrática, a escolha que a pessoa faz – para os seus cabelos ou para a sua vida – só depende da própria e a única condição é sentir-se feliz e não ferir a dignidade de outrem.

Sidneia Newton

(Estagiária)

 

Extraído do site A Semana / Palmarejo – Cabo Verde
http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article118447&ak=1

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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