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Do sagrado ao profano, festas populares atraem baianos e turistas

No dia 4 de dezembro, haverá homenagem a Santa Bárbara no Pelourinho.

Padre e historiadora comentam características dessas comemorações.

 

Lílian Marques |Do G1 BA

Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Senhor do Bonfim, Bom Jesus dos Navegantes, Carnaval e Iemanjá estão no calendário das festas populares da Bahia (Foto: Arte/G1)
Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição da Praia, Senhor do Bonfim, Bom Jesus dos Navegantes, Carnaval e Iemanjá estão no calendário das festas populares da Bahia (Foto: Arte/G1)

Festas populares ganham mais evidência na Bahia durante o verão, e começam já nesta quarta-feira (4), em Salvador, com homenagem a Santa Bárbara no Pelourinho (confira no fim desta reportagem a lista completa de festas. Conheça também as comemorações em fotos).

Bom Jesus dos Navegantes (Foto: Jairo Gonçalves)
Bom Jesus dos Navegantes
(Foto: Jairo Gonçalves)

Segundo Weslen Moreira, diretor de serviços turísticos da Empresa de Turismo da Bahia (Bahiatursa), o calendário das chamadas “festas de largo” é aberto no Dia da Confraternização Universal, em 1° de janeiro. Nessa data, é celebrado o Dia de Bom Jesus dos Navegantes, no qual centenas de fiéis seguem da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bahia, no Comércio, até a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, na Cidade Baixa. Após a celebração religiosa, as ruas no trajeto da festa dão espaço a uma comemoração profana que muitas vezes inclui música, comida e bebida.

A maioria dessas festas populares é feita com queima de fogos, procissão, missas e comemorações de rua. Elas misturam fé, religiosidade, sincretismo, sagrado x profano e alegria, destaca Moreira.

“As festas populares são um recorte importante do que as pessoas de fora da Bahia entendem por ‘baianidade’, diversidade cultural. O sincretismo é a maior expressão do que se chama de Bahia”, diz o diretor turístico da Bahiatursa.

Imagem aérea do início dos desfiles dos blocos no carnaval de Salvador na sexta-feira (17) (Foto: Wesley Costa/ Ag News)
Imagem aérea do início dos desfiles dos blocos no
carnaval de Salvador na sexta-feira (17)(Foto: Wesley Costa/ Ag News)

O ponto alto das festas populares, sem dúvida, é o carnaval. Até na Quarta-feira de Cinzas, há trios elétricos nas ruas e foliões que não querem ir embora. Nesse período, de acordo com Moreira, a capital baiana recebe 450 mil turistas.

 

Calendário
A festa de Santa Bárbara no Pelourinho, que será realizada nesta quarta (4), foi declarada patrimônio imaterial da Bahia pelo governo do estado. Uma das características da celebração é a oferta de caruru (prato típico que leva camarão, quiabo, azeite de dendê e pimenta) por parte de devotos que alcançaram graças atribuidas à santa.

Logo depois dessa comemoração, vem a de Nossa Senhora da Conceição, no dia 8 de dezembro. A santa é a padroeira do estado e, no dia da celebração, é feriado. A cerimônia religiosa é feita de maneira tradicional, e a parte profana ganha versão com festas fechadas, grupos de música baiana, barracas e vendedores ao longo do trajeto.

Festa de Iemanjá é marcada por presentes de fiéis (Foto: Egi Santana/G1)
Festa de Iemanjá é marcada por presentes de fiéis(Foto: Egi Santana/G1)

É assim também na festa de Iemanjá, no dia 2 de fevereiro. A região do bairro do Rio Vermelho recebe os festejos dedicados à “rainha do mar”, que começam ainda na madrugada, na Vila de Pescadores. Fiéis e simpatizantes se vestem de azul e branco e levam flores e outros presentes para homenageá-la. A comemoração também ganha versão em festas fechadas que invadem a madrugada. Em 2013, a circulação de trio elétrico durante a festa foi proibida.

Na segunda quinta-feira após a Festa de Reis, é a vez de uma das celebrações mais simbólicas da Bahia, a de Nosso Senhor do Bonfim (Oxalá no candomblé), que também é chamada de Lavagem do Bonfim e abrange um percurso de 7 km. No mesmo templo, há espaço para a celebração católica e a do candomblé. A lavagem das escadarias da igreja feita pelas baianas é bastante simbólica após a celebração de uma missa ao ar livre. A soltura de pombas brancas e balões brancos e azuis também atrai quem acompanha a procissão.

 

Lavagem do Bonfim em Salvador (Foto: Raul Spinassé/Agência A Tarde/ Estadão Conteúdo)
Lavagem do Bonfim em Salvador(Foto: Raul Spinassé/Agência A Tarde/ Estadão Conteúdo)

Sincretismo religioso

 

A historiadora Consuelo Pondé, presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, explica que o conceito de sincretismo religioso surgiu ainda na época em que o candomblé era proibido.

“Houve uma utilização da Igreja Católica que associava os santos aos orixás. É uma superposição que hoje não se confunde, a gente sabe o que é uma manifestação afro. É uma fusão. Quem não é do candomblé faz festa de Santa Bárbara, por exemplo, como manifestação de ‘baianidade'”, diz.

O padre Manoel Filho, coordenador da pastoral de comunicação da Arquidiocese da Bahia, afirma que das festas populares mais conhecidas do estado, as duas mais misturadas são as do Bonfim e de Santa Bárbara.

 

 

Imagem de Nossa Senhora da Conceição da Praia (Foto: Egi Santana/G1)
Imagem de Nossa Senhora da Conceição da Praia(Foto: Egi Santana/G1)

“Acho que precisamos repensar o conceito de sincretismo. O que existe é dupla pertença e, para a igreja, não existe problema nenhum que as pessoas do candomblé participem. Bobos eram os portugueses que achavam que eles [adeptos do candomblé] cultuavam os deuses católicos. Hoje existe essa clareza de que não é assim”, afirma.

 

Segundo o padre Manoel Filho, as festas de largo são muito antigas e começaram com as quermesses de igreja, com o objetivo de confraternização entre os participantes. Com o tempo, as celebrações nas ruas ganharam o sentido geral de encontro e diversão que se vê hoje. E se tornou também um produto cultural, com as versões pagãs, de festas fechadas.

Segundo a historiadora Consuelo Pondé, essas festas estão muito associadas à alegria do africano, e também têm muitas coisas dos portugueses.

“A classse alta se apropriou dessas festas como uma forma até de expressar sua ‘baianidade’. O hábito, a prática, passou a representar um valor também cultural. Já foram festas mais tranquilas, com menos gente. Não é mais festa familiar, e as festas baianas são muito mais profanas do que religiosas. Na Bahia, é tudo misturado. Apesar da violência, da dificuldade de vida, é um momento de regozijo, as pessoas curtem essas festas. A maneira de expressar e comunicar essa alegria é muito nossa”, afima.

Confira o calendário das principais festas populares da Bahia, segundo a Bahiatursa:

Festa de Santa Bárbara 'veste' cidade de vermelho (Foto: Egi Santana/G1)
Festa de Santa Bárbara ‘veste’ cidade de vermelho
(Foto: Egi Santana/G1)

4 de dezembro
Festa de Santa Bárbara
Local: Salvador – Centro Histórico

8 de dezembro
Festa da Conceição
Local: Salvador – Comércio

1° de janeiro
Procissão Nosso Senhor dos Navegantes
Local: Salvador – Baía de Todos os Santos

3 a 6 de janeiro
Festa da Lapinha – Apresentações de Ternos de Reis e Missa na Igreja
Local: Salvador – Largo da Lapinha

2ª quinta-feira após a Festa de Reis – Em 2014 será no dia 16/1
Lavagem do Bonfim
Local: Salvador – Conceição da Praia ao Largo do Bonfim

31 de janeiro
Lavagem de Itapuã
Local: Salvador – Itapuã

2 de fevereiro
Festa de Iemanjá
Local: Salvador – Rio Vermelho

27 de fevereiro a 4 de março
Carnaval
Local: Barra/Ondina – Campo Grande

23 e 24 de junho
São João da Bahia

 

02/12/2013 08h37 – Atualizado em 02/12/2013 12h02

Extraído do site G1:
http://g1.globo.com/bahia/verao/2014/noticia/2013/12/do-sagrado-ao-profano-festas-de-largo-atraem-baianos-e-turistas-na-bahia.html

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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