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Dono de terreiro de umbanda denuncia ataque de policiais

Suspeitos, que seriam aposentados, invadiram o local e destruíram imagens de santos e objetos

 

 

Walesca mostra o que sobrou após um dos ataques ocorridos na última semana

PUBLICADO EM 02/11/17 – 03h00

PEDRO FERREIRA

Um terreiro de umbanda de Mário Campos, na região metropolitana da capital, tem sofrido ataques há mais de uma semana por intolerância religiosa. Os responsáveis pelo espaço apontam um policial civil aposentado e um sargento da Polícia Militar (PM) reformado, que seriam primos, como os autores. Imagens de santos foram quebradas, e ervas cultivadas para banhos, destruídas.

Na terça-feira da semana passada, o local foi invadido por seis ou sete homens armados, acompanhados de um PM reformado identificado como João Camargo, segundo as duas mães de santo e o pai de santo que moram e trabalham na Casa Espírita Império dos Orixás Nossa Senhora da Conceição e São Jorge Guerreiro. Na ocasião, várias imagens de santos que estavam no terreiro foram destruídas.

O PM seria primo do policial civil aposentado identificado como Mauro Gomes, que mora em um sítio próximo ao terreiro de umbanda e que estaria coordenando os ataques, segundo os religiosos.

Histórico. De acordo com a mãe de santo Walesca Pereira dos Santos, 23, o PM reformado e o policial civil usaram a “desculpa” de que são os verdadeiros donos do lote onde está o terreiro e que vão construir uma igreja evangélica no local para purificar o local.

“Eles levaram as imagens que não conseguiram quebrar. O sargento disse que se tivesse espírito aqui, eles iriam jogar tudo rio abaixo, que quem estava aqui primeiramente era Deus”, disse Walesca. “Não querem o terreiro aqui de jeito nenhum. Falam que o terreno é deles, mas o meu irmão comprou esse lote há oito anos com dinheiro de doações”, contou a mãe de santo à reportagem.

Na última segunda-feira, ainda de acordo com Walesca, o policial militar invadiu o terreno com uma motosserra e destruiu os barracões dos orixás, feitos de madeira. “Ele cortou as árvores e arrancou todas as ervas que a gente usa para preparar os banhos e para defumar”, disse a mãe de santo, mostrando o que sobrou da vegetação. Ela também mostrou os cacos que sobraram das imagens de Oxum, Oxalá, Caboclo Flexeiro, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora dos Laços. “Derrubaram as casinhas dos orixás. Só deu para recuperar uns pedaços de telha”, apontou.

O irmão de Walesca, Gustavo Pereira dos Santos, 20, também pai de santo, conta que Casa Espírita Império dos Orixás Nossa Senhora da Conceição e São Jorge Guerreiro funciona há sete anos e nunca incomodou ninguém. “Não temos casas por perto, e tem uma mata em volta”, afirmou.

Apuração. Nessa quarta-feira (1), o secretário de Direitos Humanos e Cidadania de Minas, Nilmário Miranda, visitou o terreiro e ouviu os denunciantes. “Estão usando a intolerância religiosa e o preconceito racial para tomar o terreno”, disse

Pai de santo e policial afirmam que são donos do terreno

O pai de santo Gustavo Pereira dos Santos garante ter o registro do imóvel, mas não apresentou o documento à reportagem alegando estar guardado em local seguro. Segundo ele, o PM reformado teria apresentado um documento de compra e venda do terreno, que estaria em nome do policial civil, que mora ao lado.

A mãe de Gustavo e de Waleska, que também é mãe de santo e pediu para não ser identificada, também disse que a disputa do terreno é uma desculpa, e que o problema é intolerância religiosa.

A reportagem esteve no sítio de Mauro Gomes, e a informação do caseiro é que ele não estava em casa, embora o veículo dele estivesse estacionado no terreno, ao lado de uma viatura da Polícia Civil abandonada. O caseiro não informou os contatos telefônicos do policial.


FOTO: UARLEN VALÉRIO
Suspeitos também quebraram as casinhas dos orixás durante um dos ataques

RELEMBRE

Santa Luzia. Em julho deste ano, O TEMPO mostrou que o funcionamento de um centro de candomblé em Santa Luzia, na região metropolitana, gerou polêmica. Vizinhos reclamavam do barulho, enquanto os representantes do Centro Espírita Ilê Axé e Sangô entendiam que estavam sendo perseguidos por causa da religião, que tem origem africana.

Rio de Janeiro. Dez traficantes já tinham sido indiciados pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, até setembro, por suspeita de ordenarem ou participarem de ataques a centros de umbanda e candomblé no Estado.


PM não teria atendido chamado

Gustavo Pereira dos Santos reclama que já acionou a Polícia Militar seis vezes, mas em nenhuma delas houve atendimento. “Quando eles (os suspeitos) chamam, a polícia aparece e faz a ocorrência a favor deles”, afirmou.

O pai de santo contou que em um dos ataques todos os envolvidos foram parar na delegacia. “Quando voltei, Camargo (o PM reformado) tinha quebrado tudo. Ele me deu um tapa nas costas, puxou e rasgou a minha camisa, sacou o revólver e o colocou na minha cara. Ele disse: ‘Fala que você é espírita agora. Fala que eu vou te matar agora! Eu passei mal, e a polícia me levou para o hospital’”, relembrou.

O pelotão da PM de Mário Campos informou que não tem registro de boletim de ocorrência envolvendo o terreiro de umbanda. O chefe da sala de imprensa da PM, major Flávio Santiago, disse que o comando do 48º Batalhão (de Mário Campos) será notificado para apurar a questão. “Intolerância religiosa é algo inconcebível, e a Polícia Militar é dura com esse tipo de atitude”, disse. Segundo ele, a PM não responde por reformados.

A assessoria de imprensa da Polícia Civil destacou que a delegacia da cidade abriu inquérito. Mas o delegado responsável não foi encontrado para comentar o caso.

 

Extraído do site do Jornal O Tempo / Belo Horizonte – MG
http://www.otempo.com.br/cidades/dono-de-terreiro-de-umbanda-denuncia-ataque-de-policiais-1.1538111

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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