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Dos orixás às lavadeiras, a música de resistência mantém vivos os nossos ancestrais

on: junho 16, 2015Em: Cultura e IdentidadeMassa RevoltantePeriferia em Movimento

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Por Thiago Borges

Inaicyra Falcão arrepia quem ouve seu canto em iorubá em homenagem aos orixás do Candomblé.

A cantora lírica baiana pertence à família real de Ketu, antigo reino na África onde hoje fica Benin, foi criada em comunidades de terreiro e cresceu ouvindo os cânticos sagrados em idiomas africanos.

Filha de Mestre Didi e neta da iyalorixá Mãe Senhora, ela é descendente de Marcelina da Silva, escrava que depois de alforriada foi para a costa africana e voltou à Bahia, onde ajudou a fundar uma das três casas do Candomblé Ketu, na Barroquinha, em Salvador.

“Estou relacionada com uma ancestralidade que vem passando de geração em geração, e que existe ainda hoje porque houve uma resistência dessa comunidade”, diz Inaicyra, que é pesquisadora das tradições afro-brasileiras e trabalha com a recriação da música sacra negra.

“Eu me identifico com essa ancestralidade, não só com a prática religiosa, mas com a dimensão dessa cultura”, diz Inaycira, que entre 1982 e 1988 viveu na Nigéria com o povo iorubá e defendeu sua dissertação de mestrado na Universidade de Ibadan.

“Muita coisa que aqui dizem que é dos orixás, lá percebemos que está no cotidiano. O acarajé, por exemplo, se come não como COMIDA de santo, mas como alimento de qualquer ser humano, pois o orixá também foi um ser humano e que, por isso, comia acarajé”, continua.

Inaicyra faz da música uma forma de preservar a memória de nossos ancestrais em um processo histórico protagonizado pelas elites brancas e que excluiu as contribuições das matrizes africanas e indígenas para a construção da identidade brasileira.

ASSISTA A TRECHOS DE UM SHOW DE INAICYRA:

Como ela, foi nos terreiros que Giovani Di Ganzá despertou para suas raízes. “A música de terreiro me abriu para conhecer mais da minha história e dos meus ancestrais”, diz Di Ganzá, que mescla música afro e música considerada erudita em composições para filmes e documentários, espetáculos de dança e peças de teatro, como a desenvolvida pelas Clarianas.

“A gente fala das nossas angústias, e fazer isso é uma forma de resistência”, diz Martinha Soares.

Formado por três cantoras (Martinha, Naluana Lima e Naruna Costa), as Clarianas começaram no Espaço Clariô a partir da montagem de um espetáculo teatral sobre mulheres periféricas.

“Fomos buscar referências nas nossas mães e avós, o que trouxe essa ancestralidade para a cena”, complementa Martinha.

O foco do grupo está na investigação da voz da mulher “ancestral” na música popular e
“natural” brasileira, dos cantos caboclos de matriz africana, indígena, nordestina e periférica.

Como resultado, em 2012 elas lançaram o disco “Girandêras” com 15 canções autorais, desde o sertanejo ao samba de roda, do maracatu às ladainhas católicas, dos tambores às cantigas das lavadeiras na beira do rio.

VEJA O CLIPE DE “PEDINTE”, DAS CLARIANAS:

Tanto Inaicyra quanto as Clarianas participam da Massa Revoltante, uma série de atividades promovida pela organização alemã Goethe-Institut em São Paulo, cujo mote é “música de protesto” – o que incluiria esses cantos ancestrais.

Idealizado por Di Ganzá, o grupo Abanã Runsó mistura cultura erudita com popular e de terreiro, mas não faz música de protesto propriamente dita.

“É um grupo que tem uma linha musical e que nasce porque as pessoas envolvidas são engajadas, o contexto em que essa música está inserida. Então, o protesto está em como o grupo se posiciona em relação ao mundo”, nota Hercules Laino, integrante do grupo.

Durante apresentação na sede do Goethe-Institut, o grupo optou por encerrar sua intervenção com instrumentos de percussão ao invés de usar sopros ou cordas – a forma encontrada para contestar o ambiente formal em que estavam inseridos.

“A gente se encontra com outras pessoas que já conhecem nosso trabalho, mas do lado de fora é que estão as pessoas que gostaríamos que ouvissem. Quando a gente tá junto, na verdade estamos apenas alinhando nossas ideias”, diz Hércules. “O protesto não faz sentido se você estiver falando com os seus”.

 

Extraído do site Periferia em movimento / São Paulo – SP
http://periferiaemmovimento.com.br/2015/06/dos-orixas-as-lavadeiras-a-musica-de-resistencia-mantem-vivos-os-nossos-ancestrais/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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