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Drags queens fazem fotos inspiradas no barroco com imagens religiosas contra o racismo, homofobia e violências; veja imagens

Publicado por  Jorge Gauthier em  3 de julho de 2017

Os olhos de sofreguidão de Vanusa Alves, mulher trans e artista transformista, se voltaram para o passado através de uma fotografia. Na figura de Anastácia, escrava que viveu em Minas Gerais no século XVIII, ela encontrou a inspiração para expressar sua vontade de gritar contra as agruras do dia a dia de quem nasceu identificada com um gênero que não é o seu.
A imagem de Vanusa faz parte do especial fotográfico Drag Barroca, produzido pelo fotógrafo Ricardo Santiago para a estreia da 7ª edição do concurso Super Talento, que foi lançado ontem, em Salvador, e escolherá até setembro a melhor e mais talentosa drag queen da Bahia de 2017.

Foram 15 fotografias que tiveram como tema central uma releitura da arte barroca contextualizada com o combate à homofobia, preconceito racial, violência contra mulher, intolerância religiosa e a situação política do Brasil.
O impacto da imagem de Vanusa foi tão grande que, após três horas para produção, ela sequer conseguiu se olhar no espelho. “Eu não conseguia me olhar. Acho que em outra encarnação devo ter sido escrava”, relata a artista, que é a primeira mulher transexual a participar do concurso. O Super Talento acontece desde 2011.

Para Santiago, expressar numa fotografia uma transexual, negra, representando uma das maiores representantes da história foi impactante. “Imagine que no estúdio em que eu a fotografava haviam algumas pessoas envolvidas no processo de produção. Terminei o trabalho só eu e Vanusa. Ninguém ficou pela força da emoção da cena”, conta o profissional, que para produzir as imagens contou com a consultoria da historiadora Graça Azevedo.

O mais importante desse trabalho é que foram produzidas imagens que trouxeram a estética barroca para a realidade atual”, afirmou Graça, após ver as imagens que foram exibidas no Burlesque Bar, na Mouraria, em Salvador, onde o concurso acontece até setembro todos os domingos, a partir das 21h.

Através das releituras, as drag queens – a maioria atores que fazem o personagem feminino – executaram fotografias inspiradas na inquisição, obras de Michelangelo Merisi (Caravaggio), entre outros expoentes da arte no período barroco.
Coordenadora do concurso, Valerie O’rarah, acredita que a produção dessas fotos revela que a arte drag na capital vai além dos guetos. “O que nós produzimos e fazemos é arte com qualidade. Os sentimentos externados nas fotos mostram que a nossa arte é forte e viva”.

Para Gothan, que representou Maria Madalena, o desafio da temática da primeira prova do concurso foi grande. “Essa prova do Super Talento me pegou de surpresa. Não era nada que eu pudesse imaginar, mas eu achei incrível porque foi um tema muito rico e meu subtema me rendeu a ideia de fazer Maria Madalena sendo apedrejada que claramente foi muito gratificante pra mim. A maior dificuldade foi executar a foto, pois eram muitas ideias e pouco tempo para colocá-las em prática”.

Já Lais Fennell, que viveu um anjo barroco segurando nas costas o peso do Brasil, ressalta que ficou feliz em se aprovundar já na primeira prova do concurso que é conhecido por ser uma escola de atores transformistas. “Fiquei muito feliz em me aprofundar na primeira prova, às técnicas as ideias o tema, foi essencial. O mais difícil foi falar da política em minha foto, porque o país está pior a cada dia”.

Ita Morais fez referência na sua imagens à noite de 23 para 24 de agosto de 1572 quando os sinos da catedral de Saint Germain-l’Auxerrois fizeram fizeram prenúncio do dia de São Bartolomeu – um mártir. “Na Noite de São Bartolomeu de 1572, os católicos massacraram os huguenotes na França. Somente em Paris, três mil protestantes foram exterminados nessa noite. E não é diferente nos dias atuais, matam todos os dias nossos povos da religião de matriz africana e o matar não vem só de tirar a vida de um ser, mas também em desfazerem de suas crenças.” não foi fácil trazer para os dias atuais, pois seria melhor se respeitássemos a todos e houvesse mais amor”.

Sabrina Sasha, por sua vez, fez referência à localização de ossos de 796 crianças perto de um antigo convento católico, na Irlanda. “ Os corpos, enterrados sem caixão nem lápide, deveriam ser dos filhos das mães solteiras que, entre 1925 e 1961, procuraram refúgio num lar católico gerido pelas freiras da congregação de Bon Secours e de órfãos que teriam sido entregues à instituição, no mesmo período. Nesse período, as crianças  nascidas fora do casamento (católico) não podiam ser batizadas e, em consequência, não poderiam ser enterradas como um cristão. As acusações da historiadora fizeram levantar a suspeita de novos casos de negligência infantil na Igreja católica irlandesa, referentes a uma era (a primeira metade do século XX) em que o país apresentava uma das piores taxas de mortalidade infantil da Europa, tendo na tuberculose a principal causa”.

Aurora Blanc revela que escolheu uma bruxa camponesa para ser sua representação. “As ervas e flores guardam consigo a sabedoria antiga e o poder ancestral da cura. A habilidade do manuseio e do preparo é passada de boca em boca, de avó para neta. Podemos analisar a imposição da religião católica tentando silenciar uma camponesa pagã por não ser adepto da mesma.
Entretanto, a cegueira do fundamentalismo religioso muitas vezes consegue ser mais forte. Consegue amarrar, calar e matar vozes tão antigas quanto a própria terra. Infelizmente a história muitas vezes se repete. E as mesmas correntes que amarraram bruxas, índios e negros, tentam, ainda hoje, nos silenciar. A fidelidade a nossa própria e única identidade é a forma mais poderosa de resistência”.

Sasha Heels, que foi eleita a melhor da noite na performance, mesclou na foto elementos de dor e sofrimento do barroco, utilizando da sutileza nos detalhes. “Fiz uma deusa pagã sendo apunhalada por uma cruz, simbolizando a intolerância da igreja contra tudo não fazia parte do contexto católico! Pra mim a maior dificuldade foi estar nu, numa foto que iria a público, porque não me sinto confortável com meu corpo, e isso foi bem complicado… Mas em termos de elementos, foi apenas meu corpo, uma coroa de flores, e uma cruz!!”

Glenda Jackson apostou na releitura da obra Pietà (escultura de Michelangelo) para representar o barroco (ludibriação dos corpos, movimento dos tecidos, sutilezas religiosas, jogo entre sombra e luz) e também para representar o preconceito racial, ligando a obra ao genocídio dos jovens negros. “A obra se trata de Maria com Jesus morto nos braços, como diversas mães que perdem seus filhos diariamente para a violência, sobretudo, a policial. O processo foi bastante intenso para mim. Verti lágrimas durante todo o processo. Falar do genocídio do jovem Negro para mim é muito caro, pois conheço de perto mães que
perderam seus filhos para a violência e o preconceito”, explica Glenda que, assim com outras candidatas teve apoio de figurino do Teatro Castro Alves.

Já Arthemis teve uma das fotos mais singelas e impactantes ao retratar a dor da violência contra a mulher. “A minha foto ilustra a dor de ser mulher. Em minhas pesquisas eu tive contato com feministas trans e cis em busca de sondar com elas a maior agressão sofrida pelas mulheres em nossa sociedade e também a causa delas sofrerem tanto. Em resumo, eu pude concluir que o simples fato de ter uma vagina te coloca numa linha vertical onde homens que tem um pênis estão acima e é
massacrante. Na representação eu escolhi me inspirar no famoso quadro do nascimento da Vênus de Botticcei, obra barroca. A Venus é a mãe, a representação da feminilidade e da delicadeza. Escolhi colocar o sangue dentro da bacia saindo de sua vagina em representação a todas as agressões que uma mulher sofre, incontáveis abusos morais, violência física, estupros, opressão intelectual, repressão sexual, violência obstétrica. Na foto ela não está dando a luz ao puro, mas sim à dor e o seu sofrimento”.

Com o julgamento da comissão – Graça Azevedo, Amanda Moreno (Super Talento 2016), Ricardo Santiago, Davison Esquivel e Rainha Loulou – a eliminada da noite foi Fley D’Laqua. Já Vanusa foi eleita a melhor foto.

CONFIRA TODAS AS IMAGENS

01- AH TEODORO


02- ALEHANDRA DELLAVEGA


03- ARTHEMIS AGUIAR


04- AURORA BLANC


05- EYSHILLA BUTTERFLY


06- FLEY D’LACQUA


07- GLENDA JACKSON


08- GOTHAM WALDORF


09- ITA MORAIS


10- LAIS FENNELL

11- LEONA DO PAU

12- MALAYKA SN


13- SABRINA SASHA


14- SASHA HEELS


15- VANUSA ALVES

Jorge Gauthier

Jornalista, adora Beyoncé e não abre mão de uma boa fechação! mesalte@redebahahia.com.br

 

 

Extraído do site do Jornal Correio da Bahia / Salvador – BA
http://blogs.correio24horas.com.br/mesalte/drags-queens-fazem-fotos-inspiradas-no-barroco-com-imagens-religiosas-contra-o-racismo-homofobia-e-violencias-veja-imagens/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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