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Em 1951, José Medeiros realizou o primeiro registro fotográfico de rituais secretos do candomblé

Série de fotos foi publicada com teor sensacionalista na revista “O Cruzeiro”, mas venceu o preconceito e tornou-se importante registro etnográfico no livro “Candomblé”

Redação em 7 de agosto de 2014 às 17:31

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Ritual de iniciação das filhas-de-santo (iaôs), 1951
Após os sacrifícios, as penas das aves são colocadas na cabeça da iaô em homenagem ao seu orixá
Salvador, BA
José Medeiros/ Instituto Moreira Salles

Em 1951, o repórter Arlindo Silva e o fotógrafo José Medeiros registraram a iniciação de iaôs (filhas-de-santo) em um pequeno terreiro na Bahia. A matéria foi publicada na revista “O Cruzeiro” -a mais consagrada da época – e foi o primeiro registro fotográfico de um ritual secreto da religião de matriz africana.

Com o título “As noivas dos deuses sanguinários”, a reportagem teve um teor sensacionalista e pejorativo, causando mal estar entre os praticantes do Candomblé, que era visto como caso de polícia na época.

Porém, o poder e o ineditismo das imagens foram mais fortes do que o preconceito reforçado pela edição da revista.

Com fotos em preto e branco, em situação radical de luz, entre cabelos raspados, sacrifício animal, dança e pintura, o fotógrafo conseguiu captar toda a devoção das iaôs.

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O ensaio foi republicado em 1957 no livro “Candomblé”, dessa vez com 52 fotos contra 38 publicadas na revista. José Medeiros optou por um tom mais objetivo no texto, que evita polêmicas e desmistifica preconceitos.

Bastidores

O fotógrafo teve a ideia da pauta após a publicação da matéria “Léss possédéss de Bahia” (As possuídas da Bahia), da revista Paris Match, da França. José Medeiros acreditava que ela reforçava o preconceito e não mostrava o verdadeiro candomblé, somente os rituais públicos.

 

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Ele teve dificuldades para conseguir autorização dos terreiros tradicionais em Salvador, conseguindo acesso somente a um centro na periferia da cidade, o Mãe Riso da Plataforma.

Além disso, José Medeiros encontrou problemas com o equipamento, pois o cabo de sincronismo do flash quebrou. Em um ambiente escuro, ele utilizou uma técnica manual de exposição, na qual o obturador ficava aberto enquanto o botão estivesse pressionado.
Depois da polêmica, as iaôs não tiveram sua iniciação reconhecida e foram excluídas da religião.

Republicação

O Instituto Moreira Salles republicou o livro com as 52 fotos da primeira edição que os negativos não foram perdidos e outras 13 imagens realizadas entre 1951 e 1957. Veja aqui. 

Também existe uma reprodução menor de todas as páginas da publicação original.

Com informações do artigo Candomblé – Imagens do Sagrado, de Fernando de Tacca. 

Imagens cedidas pelo Instituto Moreira Salles.

Candomblé – José Medeiros from Estúdio Madalena on Vimeo.

 

Nota do Editor do Awùre: Eu ganhei esse livro de um amigo que trabalhou no Instituto Moreira Salles, hoje ele é meu irmão de santo. Para minha surpresa, me deparei com as fotos tiradas à época pelo fotógrafo José Medeiros, e olha que as que estão nessa matéria nem são as piores. Esse livro foi o início da profanação do nosso sagrado (asé) e do nosso segredo (awò).

 

Extraído do site Catraca Livre

https://catracalivre.com.br/geral/design-urbanidade/indicacao/em-1951-jose-medeiros-realizou-o-primeiro-registro-fotografico-de-rituais-secretos-do-candomble/

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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