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Em defesa da tolerância religiosa em nossa sociedade

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Data: 18/06/2016

em: Artigos e Reflexões, Casos de Preconceito

 

Em defesa da tolerância religiosa em nossa sociedade: Uma breve análise sobre a violência contra os praticantes das religiões de matriz africana.

por *Maurício Tavares Pereira e *Illyushin Saak Saraiva  via Guest Post

 

Introdução

 

Em pleno cenário do século XXI, depois até do advento da chamada ‘revolução tecnológica’ das décadas de 1980, 1990 e 2000, que para alguns prometia revolucionar a humanidade, certas contradições próprias do sistema capitalista acabam por se manifestar de forma imprevisível, algumas vezes desconstruindo antigas verdades estabelecidas no senso comum.

Tendo-se já transcorrido 68 anos da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU – no apogeu do pós Segunda Guerra – o Brasil em pleno século XXI parece não ter o que comemorar no que diz respeito ao exercício dos direitos humanos.

Ainda salta aos olhos a notícia repetida à exaustão pelos meios de comunicação de que uma menina de apenas 11 anos foi apedrejada em 2015 por fanáticos religiosos de denominação neopentecostal – que ironicamente parecem desconhecer o significado do imperativo essencialmente cristão da tolerância – agredida exclusivamente por ter sido reconhecida como praticante de religião de matriz africana (AMORIM, 2016).

Infelizmente, os dados da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa – CCIR, sediada no Rio de Janeiro, mostram que este não foi um caso isolado de intolerância, mas um evento comum (CCIR, 2015). O silencio dos líderes religiosos, especialmente os da bancada evangélica, parece falar por si e estimular o ódio (PUFF, 2016).

Curiosamente, este crescente preconceito racial e religioso percebido na atualidade vai na contramão do mito historicamente sedimentado do Brasil como um “paraíso racial”, onde todas as raças podiam viver bem juntas (SKIDMORE, 1976; WINANT, 1994), ou ainda como a verdadeira “democracia racial” brasileira (WAGLEY, 1952).

Este trabalho tem, portanto, o objetivo de construir parâmetros de análise e de estudo sobre a relação histórica entre a religiosidade neopentecostal instalada no Brasil a partir da segunda metade do Século XX, em sua relação com a percepção de prática religiosa como ato clandestino de reafirmação cultural das culturas africanas trazidas pelos escravos e mantidas pelos seus descendentes durante longo período da colonização brasileira.

Outrora tradicionalmente descrito por intelectuais, acadêmicos e pesquisadores estrangeiros como um “paraíso racial”, onde todas as raças poderiam viver bem juntas. de uma forma amigável e harmônica (SKIDMORE, 1976; WINANT, 1994), ou mesmo como o ideal de uma verdadeira “democracia racial” (WAGLEY, 1952), contraditoriamente o Brasil foi na prática o último país do mundo abolir a escravidão, em 1888, observando-se que mesmo após a intensa imigração européia de princípios do século XX, o país atualmente detém a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria.

A velha idéia da democracia racial – que segundo Sérgio Buarque foi historicamente construída pelas próprias classes dominantes ao longo da colonização, visando à manutenção do status quo (HOLANDA, 1936) – acabou por apresentar nas últimas décadas uma grande evolução na teoria, especialmente após o chamado “projeto UNESCO”, até vir a se transmutar mais recentemente numa nova conformação teórica em que o Brasil passa a ser percebido no seio acadêmico como um país em que as relações raciais são notavelmente harmoniosas em comparação com outras nações multirraciais como os Estados Unidos, mas onde ainda é forte a desigualdade racial em termos características socioeconômicas, como por exemplo os indicadores de renda e emprego (METRAUX, 1988).

Aliás, a realidade factual brasileira apresentada pelas estatísticas socioeconômicas, permite ao observador inferir por uma grande diferença existente entre a teoria e a prática no que diz respeito discriminação racial.

Domingues (2005) observa ainda que uma análise mais profunda, que se mostrasse capaz de resistir ao antigo argumento da ausência de discriminação, constataria a grande distância existente entre a falsa noção de ‘igualdade’, propalada por esse antigo discurso da ‘democracia racial’, e a ‘verdadeira igualdade’ – aquela encontrada na prática – sendo a sociedade brasileira profundamente marcada pela diferença de oportunidades entre brancos e negros, uma vez que os negros e pardos ainda estão em sua grande maioria em condições de pobreza, atraso, ignorância e indigência (DOMINGUES, 2005).

Nesse aspecto, França 2014 demonstra que a situação da discriminação racial contra os negros mudou relativamente pouco com a instalação do governo trabalhista de Lula da Silva em 2003:

Considerando que 73% dos cadastrados no programa Bolsa Família são negros (dados do Ministério de Desenvolvimento Social – MDS), interessa à sociedade civil, especialmente ao movimento negro, exigir políticas públicas estruturantes, como forma de progressão das políticas de transferências, visto que isoladas tornam potenciais estimuladoras de dependência (FRANÇA, 2014, p 3).

Assim, no que diz respeito à evolução das perspectivas teóricas acerca da discriminação e o preconceito racial e religioso no Brasil, para autores como Osório (2009), as diversas visões, muitas vezes conflitantes, evoluíram em fases ou ondas (OSÓRIO, 2009) quando paulatinamente se passou a perceber por baixo da aparência de democracia racial a existência de uma espécie típica de racismo, o “racismo à Brasileira” (DOMINGUES, 2005), marcado pela camuflagem do preconceito, que na prática se mantém, subjugando a população negra e parda que na prática finda por perder para os brancos quase todas as possibilidades e oportunidades.

Desta forma, percebe-se haver no caso Brasileiro um fenômeno relacionado ao preconceito de raça/religião/cor arraigado nas próprias estruturas da sociedade, envolvendo elementos de classe, de intolerância religiosa e de discriminação em termos de oportunidade para o trabalho e a escola, embora este preconceito e a desigualdade que lhe permeia estejam disfarçados sob a aparência do já referido ‘Racismo à Brasileira’.

Com a intensificação dos casos de intolerância religiosa na última década, a maioria dos   quais atingindo   os   praticantes de religiões afrobrasileiras – cujo perfil médio é o do negro, com baixa escolaridade e salário, habitante de regiões de menores indicadores sociais (CCIR, 2015) – vê-se uma oportunidade para a pesquisa, conforme será descrito nas próximas seções, objetivos e metodologia.

Objetivos

O objetivo geral deste trabalho é portanto o de construir parâmetros de análise e de estudo sobre a relação histórica entre a religiosidade neopentecostal instalada n