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Em pesquisa, jogadores de Bahia e Vitória falam sobre a relação entre futebol e religião; 56,2 % são evangélicos e não há adeptos do candomblé

De acordo com especialista, os riscos e a instabilidade da profissão são responsáveis pelo forte apelo ao sobrenatural

Daniela Leone (daniela.leone@redebahia.com.br)

14/09/2015 08:15:00Atualizado em 14/09/2015 11:30:59

 

Joelhos no gramado, braços erguidos, dedos apontados para o céu, sinal da cruz, entrevistas repletas de agradecimentos a Deus. São inúmeras as demonstrações de fé exibidas constantemente por jogadores de futebol. O esporte está extremamente ligado à religião no Brasil.

Uma pesquisa realizada pelo CORREIO aponta que 56,2% dos jogadores que atuam no elenco profissional de Bahia e Vitória são evangélicos, 29,7% são católicos,  1,6% adventista, 1,6% espírita e 10,9% não têm religião.

RTEmagicC_religiao-xx2.jpgForam entrevistados 64 atletas dos dois maiores clubes do estado e nenhum se declara adepto do candomblé. Todos afirmam acreditar em Deus e 98,4% creem que Ele é responsável pelo sucesso nos gramados.

“No futebol a fé está sempre presente, não tem como separar as duas coisas. É como um combustível que ajuda a passar por toda dificuldade e cobrança. Ter a certeza que Deus está junto é não se sentir sozinho”, afirma Pedro Ken, do Vitória, 28 anos e espírita.

“É muita pressão que envolve a carreira de um jogador. Você é julgado a todo momento, a responsabilidade é grande. Na hora que as coisas acontecem, a gente não tem dúvida que teve também a ajuda de Deus”, diz o goleiro Fernando Miguel, 30 anos, evangélico.

O pesquisador Clodoaldo Leme argumenta que a religião tem lugar privilegiado na vida dos jogadores porque o futebol é uma profissão de ascensão instável para a maioria deles. O apelo ao sobrenatural torna-se um recurso para suportar as dificuldades e a possibilidade remota de sucesso.

“Pra chegar ao futebol profissional, ele tem que abrir mão de tudo e viver sobre pressão da família, do técnico, da torcida. Nesse risco permanente, a religião acaba sendo uma ferramenta para canalizar as energias”, afirma Leme, mestre em Ciências da Religião e doutor em Psicologia Social. “Quanto maior o risco envolvido, maior a abertura para manifestação religiosa”.

Foi o risco de nunca mais voltar aos gramados que transformou Ávine em um homem religioso. Ele se tornou evangélico em 2012, após uma grave lesão no joelho. “Creio que se não estivesse no caminho que estou, já tinha largado (o futebol). A medicina dizia que não tinha mais jeito, mas busquei força em Deus e nunca tive dúvida de que um dia voltaria”, desabafa.
Antes apelidado de “Ávine Night” por ser visto em noitadas, o lateral diz que a religião o ajuda a focar no trabalho. “Minha vida profissional mudou. Hoje eu sou um cara centrado, não vou mais pra balada, não bebo”, compara.O lateral-esquerdo voltou a jogar em julho, após quase três anos em recuperação. A barba comprida simboliza fé. “Fiz um propósito com Deus, que iria deixar a barba crescer até se concretizar. Uma parte já se concretizou, mas outra ainda não, estou esperando”. Quando for atendido, vai tirá-la.

Raiz
A origem dos esportes está atrelada à religiosidade. Na Grécia Antiga, os atletas achavam que os deuses interferiam em suas performances. O futebol foi disseminado no Brasil com a ajuda das escolas católicas. A primeira bola manufaturada aqui foi costurada pelo padre Manuel Gonzales.

Atualmente, a religião evangélica é a que tem mais penetração no futebol. No caso da dupla Ba-Vi, os 56,2% estão bem acima da média nacional, de 22,2%, de acordo com censo do IBGE 2010 (último ano disponível).

O surgimento, em 1984, do movimento Atletas de Cristo, que tem como missão levar o evangelho ao mundo através do atleta, ajudou nesse fortalecimento. A média no Brasil é de 64,6% de católicos (IBGE 2010).

A pesquisa realizada pelo CORREIO identificou que 38,8% dos jogadores evangélicos entrevistados entraram para a religião depois que começaram a trabalhar com futebol. Destes, 64,2% conheceram o evangelho através de outro jogador ou treinador, caso de Ávine, que foi apresentado a um pastor pelo volante Luís Alberto, ex-Ba-Vi.

“Talvez isso se explique pelo contexto. As pessoas se dizem católicas, mas não são praticantes. Já os evangélicos são muito praticantes. Às vezes, quem está ingressando acaba indo junto com os que ali já estão”, afirma o educador físico Guilherme Haro, autor do trabalho “Futebol e Valores Religiosos: uma revisão da literatura”, apresentado em 2009 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Orientador de Haro no estudo, o professor Alberto de Oliveira Monteiro traz outra pontuação: “Acredito que seja pela origem dos nossos jogadores e pela grande penetração das igrejas evangélicas junto à população carente”.

Apesar da maioria dos jogadores ser evangélica, Bahia e Vitória encomendam missas e mantêm uma capela em seus centros de treinamento, assim como um pequeno altar com imagens católicas no vestiário em dias de jogos. A oração é feita ao lado dela, instantes antes da entrada do time no gramado. O Pai Nosso é gritado por todos os atletas.
Os evangélicos seguem no círculo, mas como não cultuam a santa, fazem orações individuais. “Eu faço a minha. Não me incomoda”, diz Ávine. O futebol perpetua tradições. Na opinião de Douglas Pires, os gestos religiosos exibidos em campo são mais uma reprodução do que uma demonstração espontânea de fé. No grito
“Com certeza dá mais foco. Se não tivesse, acho que a gente entraria em clima de aquecimento, desligado. A oração vem alta e demonstra que a gente está pronto”, relata o goleiro do Bahia Douglas Pires, que é católico e também reza a Ave Maria em seguida.

“Acho que é mais um clichê, uma superstição, um ritual. Não acho que realmente o cara tem a necessidade de falar com Deus naquele momento”, opina o goleiro, 24 anos, que antes dos jogos sempre coloca os pés em cima da linha do gol e pede proteção. “Eu vi outros fazerem. No futebol há muita imitação. O jogador faz por ver outros fazerem”.

Ávine pensa diferente. “Eu vejo como um agradecimento a Deus. É um momento de gratidão”, entende.

Ausência do candomblé no Ba-Vi não surpreende pesquisador
Representado nas décadas de 70 e 80 nas figuras de Lourinho, torcedor símbolo do Bahia, e Carcaça, massagista do Vitória, o candomblé não tem adeptos nos elencos da dupla Ba-Vi, fato que não surpreende o pesquisador Clodoaldo Leme.

“Não porque é uma tendência entre os jogadores seguirem uma religião cristã, evangélica e neopentecostal. Independente da região, isso vai ser uma predominância, pois acompanha a ordem nacional”, entende Leme.

Entre as minorias está também Pedro Ken, único espírita entre os 64 atletas da dupla Ba-Vi entrevistados. Espírita desde 16 anos, ele nunca conheceu um colega de profissão com a mesma religião e é muito reservado sobre o tema.

“Ainda há muito preconceito contra o espiritismo no futebol e na sociedade, então talvez eu não me exponha por isso. Acho que a maioria dos atletas nem sabe que eu gosto do espiritismo. Não tenho preconceito nenhum com outras religiões e sou bem aberto, mas não sei se todos seriam comigo. Até então nunca tive problema”, diz o paranaense de 28 anos.

Único adventista entre os entrevistados, Vinícius vive situação diferente. Revelado na base do Vitória, o zagueiro frequenta cultos na Igreja Adventista do Sétimo Dia com a namorada há um ano, mas não cumpre um dos principais dogmas da religião: não trabalhar aos sábados.

“Eles aconselham guardar o sábado, só que eu não consigo por causa do meu trabalho. Por enquanto, eu não posso abdicar de jogar e de treinar para guardar o sábado”, lamenta o atleta de 20 anos, promovido ao time profissional este ano.

Religiosidade não acaba com palavrões dentro de campo
Segundo a Bíblia, não convém xingar. “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem”, está escrito em Efésios 4:29.

A forte religiosidade no mundo da bola e as inúmeras demonstrações de fé, no entanto, não inibem os xingamentos dentro das quatro linhas. “Falo palavrão o tempo todo, brincando ou se o bicho estiver pegando no jogo”, admite o goleiro tricolor Douglas Pires, que é católico.

“Às vezes a gente perde a cabeça, fica nervoso e solta”, diz o rubro-negro Fernando Miguel,  evangélico. “Xingar mais ou menos não tem relação com religião. Vai muito do temperamento de cada um e da educação que tem”, opina.

O meia João Paulo, do Bahia, não tem religião, mas observa que os colegas que têm também xingam. “No futebol é normal. Até quem tem religião está sempre xingando”.

 

Extraído da versão digital do Jornal Correio* / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/single-esporte/noticia/quem-disse-que-nao-no-correio-futebol-e-religiao-se-discutem-sim/?cHash=3917f41b9c9899b4124b63209138dcc2

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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