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Entrevista com autor do livro Deuses de Dois Mundos, a trilogia épica dos orixás

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Na foto, o autor PJ Pereira e o sacerdote Alexandre de Oxalá – Baba Alaíyé

Entrevistamos o autor de “Deuses de Dois Mundos, a trilogia épica dos orixás” sobre sua experiência com o candomblé, preconceito e sobre o que devemos esperar de sua obra. A trilogia, que teve prefácio do professor Reginaldo Prandi (Mitologia dos Orixás), terá seu segundo volume lançado em algumas semanas – os eventos de lançamento acontecerão nos dias 12, 15 e 19 de maio (SP, Rio e Salvador, respectivamente) e estão todos convidados.

Vejam o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=GNAWuAlQKqE

unnamed> Primeiro de tudo: você é da religião?

Pelo lado formal, não. Não sou iniciado, não frequento nenhuma casa… mas passo muito tempo pensando e pesquisando. Tenho um respeito e carinho profundos. E tenho muitos amigos no Candomblé, especialmente no Gantois, em Salvador.

> Se você não frequenta nenhuma casa, que fez você dedicar anos da sua vida ocupada para fazer isso? Há tantas histórias que você poderia estar contando, tantas causas que você poderia estar ajudando… por que esta?

Meu primeiro instinto é dizer que o motivo é a vergonha e o arrependimento. Eu já tive muito preconceito, medo, rejeição… Até que um dia conheci a mitologia iorubá através de amigos e me apaixonei pelos itans. Naturalmente, passei a respeitar a religião também. Então resolvi causar essa mesma transformação em outras pessoas.
Mas essa é só uma meia resposta. Um terço, na verdade.
Quando comecei a estudar essa mitologia, era por pura curiosidade. Mas então a vontade de escrever uma história que juntava varias dessas lendas começou a se formar na minha cabeça, e eu não tive como parar. Um fato em especial naquele ano (2001) virou meu mundo de cabeça para baixo e a partir desse dia eu decidi que a historia seria contada de qualquer forma. Demorasse o quanto precisasse demorar. 13 anos depois, aqui estamos. O Livro da Traição tem muito de da minha vida espalhada por vários personagens. Mas quando você terminar de ler e chegar ao posfácio que escrevi, minhas motivações para escrever vão ficar um pouco mais claras.
Mas ainda faltaria um pedaço dessa razão, essa força que me move, como você diz, e explica por que essa causa. Conforme o livro foi ficando mais falado, eu fui me apaixonando de novo por ele, pela história. E o carinho do público me fez querer brigar mais pela tolerância e respeito. No meu mundo como publicitário eu já ajudei varias causas. Mas essa me ajudou de volta, me abraçou antes de eu abraçá-la completamente. Depois que publiquei o volume 1, foi como se cada ataque às religiões africanas fosse um ataque a mim mesmo, à minha família. Então a resposta para sua pergunta, por mais estranho que seja, é gratidão.

> O personagem principal do livro, Newton Fernandes é um jornalista cético e leigo. Por que você escolheu esse ângulo? Foi de propósito?

Sim, foi de propósito. Assim como foi consciente decidir chamá-lo de Newton, inspirado no Físico e matemático Isaac Newton, e um apelido brincando com o Neo do filme de ficção científica Matrix. Queria colocar esse contraponto bem claro, o sujeito moderno que não queria se envolver no mundo dos orixás de jeito nenhum. Se fosse um iniciado, alguém “do babado”, não teria conflito. Quem que zele pelos seus orixás resistiria ao chamado de ir conhecer Oxalá, como acontece no primeiro livro?

O interessante é que no primeiro volume da trilogia o Newton faz parecer que essa resistência é porque ele simplesmente não acredita em religião ou porque está muito focado no trabalho. Mas mesmo assim ele se arrependeu no final?

Ele se faz de forte mas, como muitos já me disseram, ele conta a história de como não conseguiu resistir e falhou, uma história anunciada como triste – ele deixa isso claro desde a carta de abertura. Mas depois parece que se arrepende e tenta construir novamente sua imagem.

Mesmo assim, a resistência, como muitos comentam, é um pouco mais forte do que se esperaria dele. Talvez porque exista algo mais profundo por trás da aversão exagerada à experiência religiosa? Talvez haja algum detalhe que ele ainda não contou? Não esqueçam que quem narra esse lado da história é o próprio Newton, um sujeito cheio de si, vaidoso, que só contaria coisas que ele se sente orgulhoso de contar… A não ser que um desespero profundo o tirasse do eixo. Mas é melhor eu parar por aqui, senão vou acabar falando demais.

> Para o povo que convive com as histórias dos orixás todos os dias, o que eles devem esperar? Podem aprender alguma coisa nova?

De forma alguma. Esse não é um livro religioso. Com vocês, eu aprendo, não ensino. Meu trabalho como contador de histórias é dar vida aos orixás como meus personagens. Acho que alguns de vocês irão se emocionar quando virem seu pai ou mãe andando pelo mundo, fazendo encantos, conversando, guerreando. Outros vão se irritar comigo porque na sua cabeça um ou outro orixá deveriam ser diferentes de como eu conto. Mas isso é assim mesmo, e é a beleza dessa cultura. Os itans são muito compactos, e nossas cabeças expandem essas histórias de acordo com nossa própria experiência e imaginação. Esses aqui são os orixás como eu os imagino. Não só como eles são, mas como eles se tornaram o que conhecemos, então se preparem para vê-los evoluir e mudar bastante ao longo dos três livros. Um detalhe interessante, por exemplo, é que “personagens” como Ogum, Xangô e Iansã, são vistos não como entidades do Orum, mas como gente do Ayê, mortais como nós, mas com poderes e habilidades extraordinárias. Como disse o Pierre Verger, conta-se que os orixás um dia foram homens que tornaram-se deuses por causa de seus poderes e sua sabedoria. Essa é a história dessa trilogia.

> E o povo que não se relaciona com os orixás, como vê sua obra? Você sentiu preconceito?

Inicialmente, senti do mundo editorial, que insistia em classificar a obra como “de nicho”. Mas quando chegou ao mercado e o primeiro livro se mostrou um sucesso de vendas, eles abriram a cabeça. Hoje apenas metade dos 50 mil fãs do DDDM (apelido de como chamamos o Deuses de Dois Mundos) é do santo. O resto é gente de outras religiões que está interessado em conhecer mais sobre esse mundo dos orixás. Tenho recebido vários depoimentos de católicos, evangélicos, mulçumanos me agradecendo por lhes abrir a cabeça e mostrar uma cultura tão bonita e digna que eles nunca haviam tido oportunidade de conhecer por medo ou preconceito. Toda vez que recebo um desses me sinto realizado. Hoje um dos meus maiores objetivos é usar essa história para diminuir a rejeição e aumentar o respeito. Outro dia me falaram que precisa-se de tolerância religiosa nesse país. Eu acho que precisa-se é de respeito e admiração pelas religiões uns dos outros. E se eu conseguir melh