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Espaço no Terreiro de Gantois guarda mais de 500 peças de Mãe Menininha; veja fotos

Líder religiosa faria 123 anos nesta sexta-feira (10) se estivesse viva

Carol Aquino (carol.aquino@redebahia.com.br)

10/02/2017 07:30:00Atualizado em 10/02/2017 08:11:09

 

Na pequena cama onde Mãe Menininha dormia estão a bengala e o baú em que ela guardava miudezas e presentes que dava a algumas das pessoas que lhe visitavam. O rádio que gostava de ouvir também está lá.  Ao lado da cama, a bacia e o jarro que usava para se lavar e a mesa original em que jogava búzios. Tudo é preservado intacto.

Quem quiser ter o privilégio de conhecer mais de perto a mulher e sacerdotisa que comandou o Terreiro Ilé Iyá Omi Asé Iyamasé,  mais conhecido como Gantois, por 64 anos, pode visitar o Memorial que leva o nome como  ficou conhecida e é mantido no espaço onde ela viveu. Localizado dentro do terreiro, na Federação, o Memorial abriga mais de 500 peças pessoais e ritualística da mãe de santo. No espaço, será iniciada hoje a primeira etapa de uma requalificação.

 

 

Nascida – e criada no terreiro –    em 10 de fevereiro de 1894,   Maria Escolástica da Conceição Nazaré, a Mãe Menininha, que  foi símbolo da resistência negra e do combate à intolerância religiosa, passou os últimos anos de vida nos aposentos que  abriga o Memorial. Hoje ela completaria 123 anos. O museu foi criado na mesma data do aniversário dela, em 1992, e é dividido em três áreas: o espaço da mulher, “Maria Escolástica”, que guarda objetos de ordem pessoal; o espaço da sacerdotisa, “Mãe Menininha”, com objetos ritualísticos, e a ambientação do seu aposento.

Entusiasta da preservação do patrimônio material e imaterial das religiões de matriz africana, nada mais natural que os seus aposentos e pertences servissem de guia para que  mais pessoas bebessem no legado de sabedoria que ela distribuiu durante a vida. Junto com o  marido, o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, fundou a União Brasileira dos Estudos e Preservação dos Cultos Africanos.

O espaço 
Quem visita o Memorial tem o privilégio de estar mais perto da intimidade da sacerdotisa. Um dos espaços preserva o quarto onde ela dormia e recebia amigos e filhos e filhas de santo, com todos os seus objetos originais. Na parede, uma placa com os dizeres “Aqui mora a melhor mãe do mundo” revela o carinho que despertava nos seus filhos. Também estão pendurados seus terços em madeira, quadros, além de fotos antigas da sacerdotisa mais famosa da Bahia. Embora a presença de elementos da religião católica causem estranheza à primeira vista, Mãe Menininha frequentava missas e guardava as imagens de santos católicos que tinha herdado da família.

Entre os santos que tinha no quarto estava Santa Escolástica, que é comemorada no dia em que Mãe Menininha nasceu – 10 de fevereiro – e deu origem ao seu nome de batismo. Ela pregava a tolerância religiosa, acima de tudo, e não se furtava ao diálogo com outras religiões. No canto, a namoradeira onde Mãe Menininha poderia ser encontrada muitas vezes, descansando ou conversando com alguma visita. No espaço ainda se veem alguns  xales que ela gostava de usar. Vaidosa,  andava sempre bem arrumada.

Acervo pessoal de Mãe Menininha no Terreiro do Gantois
(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)

No cômodo ao lado do quarto fica o espaço mulher “Maria Escolástica” que traz preciosidades como os óculos com que Mãe Menininha era sempre vista, uma bengala de marfim, talheres, espelho, louça e outros objetos de uso pessoal. Também é possível ver a louça antiga, além de medalhas e honrarias que a sacerdotisa recebeu, como a Medalha 2 de Julho e a Comenda Regente Feijó.

Acervo
Recentemente, foram incorporados ao acervo um dos tronos que ela usava no terreiro, uma saia de festa, além de um atabaque. Os pertences vieram de outros museus e fazem parte do Plano de Salvaguarda Patrimonial do Gantois, que está trazendo de volta à casa objetos e documentos que estavam espalhados em instituições de todo o mundo, como o Museu Smithsonian, nos Estados Unidos, e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.

No anexo superior do Memorial, onde fica o espaço da sacerdotisa, o visitante vê de  perto os objetos sagrados de  Mãe Menininha. Lá está, por exemplo, o elemento mais antigo do acervo, uma quartinha (espécie de vaso) datada de 1849. Ela foi uma herança que a ialorixá recebeu da sua bisavó e fundadora do Terreiro Ilé Iyá Omi Asé Iyamasé (mais conhecido como Terreiro do Gantois),  a africana Maria Júlia da Conceição Nazareth.

Em 1902, aos 8 anos, Mãe Menininha carregava na cabeça pela primeira vez o objeto sagrado durante a festa das quartinhas de Oxóssi. Honraria destinada somente à família da ialorixá de um terreiro, era um sinal que Mãe Menininha era reconhecida pelas filhas de santo mais velhas como alguém que seria especial na hierarquia do terreiro. Com tão pouca idade, ela já era egbomi. Ou seja, tinha cumprido os sete anos de obrigação da feitura de santo e não era mais considerada uma noviça.

Entre os tantos objetos sagrados estão o trono em que Mãe Menininha ficava durante as celebrações e cultos, as ferramentas de orixá e adjás (elementos sonoros usados em rituais para chamar os orixás), além de joias de axé. Lá também estão as saias de vários tecidos, de seda, de organza, de cassa, além das batas e os panos da costa usados por ela, todos em perfeito estado de conservação, além de indumentárias usadas em celebrações especiais.

Acervo pessoal possui elementos da religião católica (Evandro Veiga/CORREIO)
Mesa onde ela jogava búzios permanece no quarto (Evandro Veiga/CORREIO )
Nas paredes, os espelhos de Oxum (Evandro Veiga/CORREIO )
Bengala e baú são mantidos em cima da cama (Evandro Veiga/CORREIO )
Espaço no Terreiro do Gantois guarda memória da ialorixá (Evandro Veiga/CORREIO )
Coleção de fios de contas de Mãe Menininha (Evandro Veiga/CORREIO )

 

 

Extraído do site do Jornal Correio 24hs / Salvador – BA
http://www.correio24horas.com.br/detalhe/salvador/noticia/espaco-no-terreiro-de-gantois-guarda-mais-de-500-pecas-de-mae-menininha-veja-fotos/?cHash=bd9749f8143fc165921d0d441415946d

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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