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Estilista baiana leva peça inspirada em Iemanjá ao Canadá

Luis Fernando Lima | Sáb, 30/01/2016 às 08:26

 

 

 

Jalani Morgan | Divulgação A modelo Aluad Anei posou para editorial com a peça Yemonja
Jalani Morgan | Divulgação
A modelo Aluad Anei posou para editorial com a peça Yemonja

Quando mergulha nas águas salgadas do mar, a estilista Carol Barreto sente que tudo aquilo que não deve  ficar se descola do seu corpo. “Faço como uma espécie de terapia. É o momento que converso comigo mesma”.  Talvez o conforto aconteça por conta da sua  inexplicável relação com a rainha das águas, Iemanjá.

Foi a orixá que serviu de inspiração para o modelo criado por Carol para a mostra Water Carry Me Go (em tradução livre, A Água Me Carrega), que entra em cartaz na próxima sexta-feirao dia 5 de fevereiro, no Royal Ontario Museum, em Toronto (Canadá).

Ela foi dos um sete designers da diáspora africana escolhidos  para participar da exposição que visa diluir ainda mais os limites entre moda e arte.

O nigeriano Chinedu Ukabam, estilista e curador responsável por Water Carry Me Go, explica que os estilistas que compõem a mostra foram selecionados a partir da sua afinidade ou conexão com a  África. “Alguns desses designers, como Gloria Wavamunno (Uganda) e Nkwo Onwuka (Nigéria), vivem no continente.

Outros nomes, como Robert Young (Trinidad e Tobago) e Ashley Alexis McFarlane (Canadá), não moram na África, mas  estão ligados ao continente através da sua ascendência e da moda que criam”.

 

Potencial criativo

Carol esclarece que o convite para integrar o seleto grupo da exposição  veio logo depois da sua participação na Black Fashion Week, realizada na capital francesa em dezembro de 2015. “Minha coleção era a mais urbana,  usável e simples em termos conceituais”, afirma.

Porém, Chinedu Ukabam conta que, ao assistir o desfile, foi convocado pelo  festival incrível de cores. “A estilista também mostrou uma forte complexidade íntima no modo em que apresentou cortes de tecidos Ankara. Todos materiais foram reorganizados com a intenção de originar novos padrões”.

A baiana, doutoranda em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), enveredou por novos caminhos criativos neste trabalho. Intitulada  como Yemonja, a peça foi produzida  com organza cristal. Optou pela fluidez. Deixou de lado os marcantes cortes retos que remetem às suas coleções anteriores. A designer de acessórios Ju Fonseca e  a pilotista Maria Vianna foram mãos essenciais para a execução do vestido.

“Gosto de trabalhar com tecidos  pesados  porque  oferecem estrutura. Me encanta esse formato aerodinâmico das tradicionais roupas africanas. Observo a modelagem”.

Moradora do Rio Vermelho, Carol confessa que se sentiu desafiada ao usar como referência uma divindade tão significativa na Bahia como Iemanjá. “Foi preciso me conectar com essa entidade e com os modos de construção dela no nosso imaginário. É claro que isso dialoga com a minha matriz africana. Minha história familiar envolve a umbanda”.

Conexão artística

Participar da exposição Water Carry Me Go é mais um passo de Carol Barreto em direção à exploração multilinguagem artística. Nascida em Santo Amaro, ela decidiu sair da cidade aos 18 anos para cursar  a graduação de letras com inglês na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).

O primeiro desfile dela aconteceu lá. Era uma espécie de performance que ressaltava a relação entre moda e arte. O mesmo corredor que os alunos transitavam todos os dias foi transformado em inusitada passarela.

A baiana convidou seus amigos com estéticas destoantes do  industrializado padrão fashion e os misturou a um casting de modelos profissionais da cidade. “Esse início deixa claro porque os ET’s são os símbolos da minha marca. Representam esse excessivo preconceito  com tudo que não está no padrão branco, heternormativo e europeizado”.

Carol traça um caminho  que a leva pelo mundo, com a fluidez da água, da passarela ao museu. “Não faço roupa porque é bonitinho para vender.    Chegar no museu é uma espécie de revisita ao início do meu trajeto profissional”. Odoyá.

 

 

Extraído do site do Jornal A Tarde / Salvador – BA
http://atarde.uol.com.br/moda/noticias/1743439-estilista-baiana-leva-peca-inspirada-em-iemanja-ao-canada-premium?direcionado=true

About The Author

Sérgio Carvalho se iniciou na Umbanda, pelo Babalorixá Arnaldo de Omulu (in memorian), na T.E.Nanã Buruquê, realizando sua camarinha em dezembro de 1995. Em 2001, se iniciou no Candomblé pelas mãos do Babalorixá Jô d´Osogiyan, no Asé Omin Oiyn Ilè, sendo neto de Iyá Nitinha d´Osun (in memorian), do Asé Engenho Velho - Miguel Couto - RJ. Militante em prol da defesa da religião afro-brasileira, ingressou nas fileiras do extinto IPELCY (Instituto de Pesquisas e Estudo da Língua e Cultura Yorubá), dirigido por Jairo d´Osogiyan. Exerce o cargo de Diretor de Cultura e Comunicação da ANMA - Associação Nacional de Mídia Afro. É proprietário da agência Marfim Assessoria & Eventos. Faz parte da equipe de duas das maiores premiações do jornalismo brasileiro, o Embratel e o Petrobras. É editor responsável pelo jornal web Awùre – http://www.awure.jor.br – veículo que aglutina os momentos mais importantes da cultura e religiosidade afro-brasileira.

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